ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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quinta-feira, agosto 25, 2011


Como eu, certamente muitas pessoas já tiveram ou terão um lugar num grupo de amigos que perdura ao longo do tempo. Certamente ninguém ignorará que esses grupos perduram mesmo com heterogeneidades vincadas entre os seus membros, e a pergunta relativamente ao substracto afectivo deverá se recorrente. E no fundo a pertinencia desta pergunta assenta numa outra, ou outras. Quais? Simplesmente as que têm a  ver com a solidez, pro-actividade e efeitos dos laços (criados?). Como são esses laços. Como se manifestam? De que forma as pessoas investem nos mesmos? Se o fazem, porquê? Se não o fazem, porque não? Como se alimentam? Como se dão uns aos outros? Que papel tem a verdade das coisas e dos factos na solidez da estrutura afectiva e gregária que sustenta um grupo de amigos? Que benefícios poderão ter as mentiras, brancas ou não, quando estas se tornam complicadas à medida que certas coisas se aprofundam ou acontecem, como sofrimentos, mudanças, cedências e até invasão de espaços por novos intervenientes? Até que ponto é que os membros desses grupos acham que devem saber das coisas antes de especularem sobre as mesmas?

Nada disto é de fácil resolução. Até porque, e isto baseado apenas na minha experiência pessoal, é algo recorrente. Parece haver uma inversão proporcional entre a profundidade das questões e a perenidade dos laços. Há uma alergia subreptícia à verdade ou ao aprofundamento dos efeitos da mesma. Há uma lógica estranha que parece subsistir de uma espécie de "pax romana", porque olhar para certos fenómenos pode ter várias consequências - ver o que não se quer, e poder chegar à conclusão que está à nossa porta.

A verdade é que em muitos grupos as pessoas evitam dizer a verdade. Evitam confrontar-se com ela porque há uma ideia de que esta é incompatível com a convivência das tais heterodoxias. Como se a verdade dos factos pudesse dinamitar o equilibrio dos laços. Ora, em meu ver, e muito simplesmente, se isso for levado ao extremo, é a própria solidez dos laços que está em causa, porque aparentemente está assente em pressupostos que não são reais. Quem constitui os grupo não é então quem lá está, mas uma representação conveniente e adaptada. A malta arranja-se, encaixa-se, e enquanto a convivência for mais leve e superficial, tudo é passível e possível.

Mas no meio de tudo isto entram as dores, as perdas, os danos, os enganos, os descasos, as solidões. E quando se tornam relevantes, a superficialidade estala como gelo demasiado fino debaixo da Popota patinadora. A profundidade torna-se uma evidência, e com ela, a verdade terá necessariamente de vir, ou o que se vende é precisamente aquilo que já existe. E a verdade pode ser chata e dolorosa. Uma filha da puta, ocasionalmente, que não poupa ninguém ou quase ninguém. E que pode mesmo por à prova os laços, porque se eles não existirem de facto não resistirão a um estirar brusco feito da realidade onde de facto se vive.

Assobiar para o alto é uma hipótese. Montar o teatro é outra. Deixar andar e esperar que passe é ainda outra. Mas a questão que se coloca é até que ponto a auto-mentira se torna tão convicente ao ponto de se externalizar como uma máxima ou cartilha de pertença, gregaridade ou mesmo, pasme-se, afecto. Gostaremos então enquanto não se levantarem ondas? Mente-se de forma branca para não arranjar chatices? Ou porque não temos tempo para ir em direcção a alguém porque temos tanto a tratar no nosso dia?

Façamos um exercício. Quantas vezes é que perguntámos como é que ela realmente se sentia? Quantas vezes é que descartámos o alívio ou descanso de consciência que nos dá o conveniente "não se passa nada"?  Quantas vezes é que quisemos mesmo ver para dentro do caos de alguém e retirar sobreviventes? Quantas vezes é que a verdade menos bonita, mesmo entre amigos, poderia vir para cima da mesa e ser discutida como algo absolutamente necessário e característico dos laços?
Pois... pois é....

O problema nestas coisas é que a mentira branca também se encarde, e a acumulação das ditas começa a enegrecer o cenário. A convivência e a sobrevivência dos laços e das diferenças não pode assentar apenas na deformação dos factos, ou na ideia de que é convincente uma única demão de tinta que estala por todo o lado. A verdade pode morder, mas normalmente, desde que em alguns casos afirmada com coração aberto e de pendor construtivo´, serve como cimento de secagem rápida, e não martelo de demolição. Nem toda a verdade é possível, e quem o acha, é ingénuo. Nenhum tipo de laço sobreviveria a tal abstracção. Mas há verdade necessárias, muitas, e a solidez dos laços não pode ser apenas enunciada pelos sorrisos dos reencontros, mas pelo conhecimento de facto de quem são os membros desses grupos, e o reconhecimento do afecto através da percepção real do outro. Ir lá. Mexer. E saber a verdade, mesmo que isso signifique que ficamos mal na fotografia, mas até queremos remediar e reconstruir.

Só assim se impedem mortes, especialmente aquelas que nunca o aparentam.
Só assim, em meu ver, se é parte de algo múltiplo, rico, e acima de tudo, verdadeiro. Porque só assim realmente vive.

(SPOILER ALERT! - O TRECHO DO FILME É O FINAL DO MESMO, PORTANTO QUEM NÃO VIU E QUISER VER, NÃO DEVERÁ CORRER O LINK - O FILME É "LES PETIT MOUCHOIRS" E RECOMENDA-SE.)





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