Muitas pessoas tendem a pensar que eu sou uma espécie de pessimista sorumbático que procura os lados escuros para aumentar este estado, ou para ter um tipo de prazer ilógico, como se me alimentasse do que não é bom, do que custa ou do que é menos bonito.
A primeira reacção é, passo a expressão, reagir. Negar e explicar em termos muito lógicos, ou assim gosto de pensar, a razão pela qual essa não é a intenção de todo. Depois paro e penso um bocadinho sobre o assunto. E sei que quando vejo a cor escura, ela de alguma forma entra no sistema, como uma necessidade de escorar a realidade em alicerces que, pelo menos, não me aldrabem condescendentemente. Há algo na descoberta das faces ocultas que me faz gostar mais das solares. É como se algo naquele tipo de seres fosse confiável, como se o desejo de ultrapassar ou pelo menos incorporar de forma minoritária essas tais "falhas" tornassem as virtudes tão mais humanas, sinceras e palpáveis.
A natureza humana é vária, já la me dizia alguém, e embora negue violentamente o niilismo como sendo a pior forma de cobardia existente, a verdade é que há algo nos cantos escuros que enverga o fascínio das coisas complexas e passíveis de viagens de descoberta. E não há gozo maior que esse da viagem. Afinal, quando evoluímos, julgo que o tentamos fazer para fora dos nossos pântanos, mas é desonesto fingir que a lama não se colou às nossas vestes.
Não procuro avidamente a escuridão das coisas, mas ela dá-me alguma tranquilidade. É estúpido, eu sei, mas tendo a desconfiar de visões límpidas e bonitinhas das coisas. Odeio de morte os "felizinhos", a tontaria alegre que empurra qualquer coisa com mais substância com a barriga, chamando-lhe curva da felicidade e não o que é, excesso de peso devido a cú preguiçoso e pesado. E tanto pior se for metafórico/intelectual.
As pessoas "normais" e "muito felizes" assustam-me. É muito chato dizer isto, mas desconfio delas e das suas máximas açucaradas e permanentemente afundadas num anúncio de cerveja. Sou um fã muito maior dos cenários poeirentos de onde a ternura e a felicidade emergem como brilhos verdadeiros, não importando a superfície de onde refulgem. Deve ser por isso que (também) gosto de histórias brutais, inclementes, duras, mas de onde também jamais surja a cor podre da desesperança niilista que se traduz na dormência. Deve ser por isso que me surge um sorriso quando da boca do moralista surge a perversão, quando do honesto nasce a dúvida, quando do determinista aparece a questão, quando no pano alvo há a nódoa que lhe dá consistência ou função. Gosto quando nos conseguimos ultrapassar, mas quando não nos renegamos. Quando assumimos a nossa contribuição para o clube da escuridão, mas somos afinal filiados na associação luminosa. Quando sabemos que tudo nunca pode ser só um estado, e nos tornamos tão mais interessantes por termos dois hemisférios onde dia e noite, lá está, alternam.
Sou, por isso, um pessimista moderado. Não me alimento da fatalidade menos limpa, mas apenas das histórias onde esta vence, e especialmente aquelas onde ela vai à barrela. Para mais esclarecimentos, ver "Pequenas Mentiras entre Amigos", e alguém o explicará infinitamente melhor do que eu. Fingir que nada se passa, ou que está tudo bem, é uma mentira tão grave que pode chegar à morte.
E disso sim, não quero fazer qualquer parte...
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