A palavra porcaria tem uma dimensão que ultrapassa em muito a sua lógica imediata. Em primeiro lugar é uma palavra justa, pelo menos a maior parte das vezes. Assinala um estado de apodrecimento, de corrupção da matéria que, no entanto, pode não ser exactamente estrutural. Como assim? Bem, se eu deixar cair um maravilhoso e fresco pedaço de pão alentejano ao chão, em cima de uma porcaria de uma poça de lama ou de óleo, posso sempre colocá-lo em cima da mesa, agarrar numa faca e cortar o pedaço que está sujo. A porcaria colou-se, mas não tomou conta do objecto.
Doutra forma, de eu deixar um iogurte fora do frigorífico, ao sol, durante dois dias, fica uma porcaria. Torna-se uma porcaria, irrecuperável, feita em si mesma de tudo o que não presta, e uma vez entrada em qualquer sistema, vai fazer estragos, normalmente daqueles que necessitam de intervenção médica. O que fica apenas é a recordação de algo que era são, mas que se tornou uma porcaria.
E finalmente, há a terceira forma. Se alguém fizer uma ferida e infectar, aquela zona do corpo fica uma porcaria. O pus tem um cheiro pestilento e repugnante, mas no fundo é o produto da expulsão do corpo, quando este recusa a morte ou a porcaria. E no meio de um organismo são, a porcaria pulsa, porque o corpo a tenta expulsar, porque sabe que a sua corrupção pode tornar-se perigosa para a integridade de um sistema que não é, vá lá, pelo menos uma grande porcaria. É por isso que os meios curativos podem arder, mesmo, ou especialmente aqueles que podem abalar a própria estrutura na defesa que lhe fazem. E é a estrutura que se prepara para isso, que se prepara para as consequências de um reconhecimento através do qual, a muito duras e solitárias penas por vezes, nadar no meio da porcaria não significa de facto aceitar de ânimo leve qualquer confusão com ela.
O ardor da terapêutica é um pouco a lógica do merecimento e estar preparado para aceitar que qualquer recuperação nunca elimina a noção de dano é por sua vez dar uma luz límpida a tudo o que se reconstrói. A porcaria pode fortalecer o sistema do qual faz parte. A graxa ou óleo de motor são sujos, mas sem eles a engrenagem não funciona, nem sequer se optimiza. A porcaria é a própria catapulta das coisas que brilham. É a consistência da complexidade, é o que temos a descobrir nos outros, são aqueles dentes podres, mas bem afiados, de que a verdade também é feita.
A consciência é isso mesmo. É o que fazemos emergir da porcaria, e através da verdade mais conseguida (porque total, esqueçam lá isso), consegue talvez fazer bem mais do que a ilusão de linearidade. Essa linearidade é como um leite creme impecavelmente queimado. O problema é que quando se vai a partir a casca, percebe-se de que real material é feita aquela capa castanha ou preta, e o cheiro que sai do amarelo leitoso é tudo menos doce. E isso sim, é a porcaria que infecta e mata. Aquela que, enquanto não lhe mexerem, dura uma vida inteira.
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