ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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segunda-feira, agosto 08, 2011

A palavra porcaria tem uma dimensão que ultrapassa em muito a sua lógica imediata. Em primeiro lugar é uma palavra justa, pelo menos a maior parte das vezes. Assinala um estado de apodrecimento, de corrupção da matéria que, no entanto, pode não ser exactamente estrutural. Como assim? Bem, se eu deixar cair um maravilhoso e fresco pedaço de pão alentejano ao chão, em cima de uma porcaria de uma poça de lama ou de óleo, posso sempre colocá-lo em cima da mesa, agarrar numa faca e cortar o pedaço que está sujo. A porcaria colou-se, mas não tomou conta do objecto.
Doutra forma, de eu deixar um iogurte fora do frigorífico, ao sol, durante dois dias, fica uma porcaria. Torna-se uma porcaria, irrecuperável, feita em si mesma de tudo o que não presta, e uma vez entrada em qualquer sistema, vai fazer estragos, normalmente daqueles que necessitam de intervenção médica. O que fica apenas é a recordação de algo que era são, mas que se tornou uma porcaria.
E finalmente, há a terceira forma. Se alguém fizer uma ferida e infectar, aquela zona do corpo fica uma porcaria. O pus tem um cheiro pestilento e repugnante, mas no fundo é o produto da expulsão do corpo, quando este recusa a morte ou a porcaria. E no meio de um organismo são, a porcaria pulsa, porque o corpo a tenta expulsar, porque sabe que a sua corrupção pode tornar-se perigosa para a integridade de um sistema que não é, vá lá, pelo menos uma grande porcaria. É por isso que os meios curativos podem arder, mesmo, ou especialmente aqueles que podem abalar a própria estrutura na defesa que lhe fazem. E é a estrutura que se prepara para isso, que se prepara para as consequências de um reconhecimento através do qual, a muito duras e solitárias penas por vezes, nadar no meio da porcaria não significa de facto aceitar de ânimo leve qualquer confusão com ela.
O ardor da terapêutica é um pouco a lógica do merecimento e estar preparado para aceitar que qualquer recuperação nunca elimina a noção de dano é por sua vez dar uma luz límpida a tudo o que se reconstrói. A porcaria pode fortalecer o sistema do qual faz parte. A graxa ou óleo de motor são sujos, mas sem eles a engrenagem não funciona, nem sequer se optimiza. A porcaria é a própria catapulta das coisas que brilham. É a consistência da complexidade, é o que temos a descobrir nos outros, são aqueles dentes podres, mas bem afiados, de que a verdade também é feita.
A consciência é isso mesmo. É o que fazemos emergir da porcaria, e através da verdade mais conseguida (porque total, esqueçam lá isso), consegue talvez fazer bem mais do que a ilusão de linearidade. Essa linearidade é como um leite creme impecavelmente queimado. O problema é que quando se vai a partir a casca, percebe-se de que real material é feita aquela capa castanha ou preta, e o cheiro que sai do amarelo leitoso é tudo menos doce. E isso sim, é a porcaria que infecta e mata. Aquela que, enquanto não lhe mexerem, dura uma vida inteira.





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