ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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quinta-feira, dezembro 06, 2012

A beleza magoa-me. Aquela que importa, que rebenta com as desculpas idiotas que tenho por portas, aquela que humilha, aquela que gera pedidos quando a contenção elegante já não permite coisas como a deferência ou a classe. A dita classe que finje ignorar os dentes afiados do expoente do desejo, que parece adivinhar a auto-suficiência inexistente, que não se atreve a pedir  quando é só isso que quer, mesmo que pareça parvo ou fraco ou incongruente ou cúpido.
A beleza magoa-me porque traduz a sua poliformia no controlo das funções básicas do pensar, porque me leva pela mão para o desejo de universalizar, porque parece minha quando não é ou nunca o será.
A beleza magoa-me porque na ameaça de perfeição, esconde o que não pode ser porque nada o é. E ao sabê-la incompleta, descanso-me, e ao mesmo tempo, redescubro-a nos mais pequenos detalhes que parecem retirar-me daqui, colocar-me num local onde só ela existe, numa sala onde ela tudo inunda e passo a voar.
Este maravilhoso poema musica e filmado magoa-me.
Vejo-o uma e outra, e outra vez.
E tudo o que disse repete-se.
A beleza magoa-me... 
 
Nirvana
by Charles Bukowski
 
not much chance,
completely cut loose from
purpose,
he was a young man
riding a bus
through North Carolina
on the wat to somewhere
and it began to snow
and the bus stopped
at a little cafe
in the hills
and the passengers
entered.
he sat at the counter
with the others,
he ordered and the
food arived.
the meal was
particularly
good
and the
coffee.
the waitress was
unlike the women
he had
known.
she was unaffected,
there was a natural
humor which came
from her.
the fry cook said
crazy things.
the dishwasher.
in back,
laughed, a good
clean
pleasant
laugh.
the young man watched
the snow through the
windows.
he wanted to stay
in that cafe
forever.
the curious feeling
swam through him
that everything
was
beautiful
there,
that it would always
stay beautiful
there.
then the bus driver
told the passengers
that it was time
to board.
the young man
thought, I'll just sit
here, I'll just stay
here.
but then
he rose and followed
the others into the
bus.
he found his seat
and looked at the cafe
through the bus
window.
then the bus moved
off, down a curve,
downward, out of
the hills.
the young man
looked straight
foreward.
he heard the other
passengers
speaking
of other things,
or they were
reading
or
attempting to
sleep.
they had not
noticed
the
magic.
the young man
put his head to
one side,
closed his
eyes,
pretended to
sleep.
there was nothing
else to do-
just to listen to the
sound of the
engine,
the sound of the
tires
in the
snow.


 

Charles Bukowski's Nirvana from Patrick Biesemans on Vimeo.

quarta-feira, outubro 31, 2012

No universo das relações entre as pessoas as coisas podem ter dimensões assustadoras. De caos, de estranheza, até mesmo de surpresa e choque. E na proporção daquilo que se possa sentir, normalmente recusa-se aceitar a possibilidade de certas realidades. Certas dimensões comportamentais. Certas percepções. Essas percepções assentam na certeza de que ao amor, seja ele em que forma for, corresponde uma determinada dimensão ética. Há, pelo que se sente, a necessidade de uma validação do objecto do que se sente. Para que haja alguma justificação do caos, ele tem de assentar na certeza, pelo menos parcial, de que algo o justifica. Conforme o caos e a dor aumentam, aumentará igual e proporcionalmente o esforço e tenacidade numa crença assente na justificação do que toma conta de cada um de nós numa fase qualquer da vida. E à medida que os limites vão sendo esticados, a resiliência raivosa nos fundamentos de “qualidade” daquele(s) outro(s) são reforçados à guisa de cimento feito das memórias ou existências positivas. É um tandem ecléctico, uma sobreposição constante do bom perante o mau, como um guisado onde a qualidade da carne esconde o azedume do vinho com que a temperámos. Ou assim se espera. A chamada entrega ao aleatório nestes aspectos parece-me falaciosa. Posso estar enganado, mas julgo que ninguém, jamais, ignorará completamente a necessidade da dimensão ética e qualitativa dos seus afectos. Ainda que se admita que há variados elementos seguramente justificados na aleatoriedade do que “não se controla” (Valmont, anyone?), que são por sua vez traduzidos num juízo de “gosto e pronto e nada a fazer”, arrisco dizer que, em tempo algum, quando as cores da vivência afectiva começam a escurecer e passar de escarlate a um roxo de equimose mental constante (sim, porque as outras encerra um fenómeno à parte, ainda mais terrível), deixará de haver a tentação, para não dizer necessidade, de explicar algo da pele ética e qualitativa do objecto desse afecto. No turbilhão de certas infelicidades afectivas, de tomadas de consciência mais dolorosas e terríveis, assentes no pior dos medos de avaliação do(s) outro(s), gera-se um contramovimento, feito de algo que é até leal a um nível quase impensável, e que consiste em desmontar as evidencias escuras com as memórias das luzes que a mente o memória se recusam a apagar. Na cabeça, surgem as frases de “não pode ser assim”, “não é possível”, “tem de haver uma explicação”, “há isto mas por outro lado também há aquilo”, e por aí fora.
 
Ontem ouvi uma entrevista de Javier Marias em que o autor falava precisamente disto. Que as histórias, e não só as escritas, eram também muito feitas desta tensão, deste choque de percepção em antagonismo intenso com a teimosia afectiva que constantemente tenta “salvar” os seus objectos ou eleitos, se preferirem o termo mais elogioso. Essa recusa em crer é um paradoxo. Acaba por ser bela porque é feita de nada mais que uma entrega a uma percepção que é constituída apenas por dádiva, mas tem o seu lado pernicioso porque pode assentar em distorções teimosas de realidades, única e exclusivamente para salvar a justificação ou sentido de uma entrega significativa daquilo que de mais precioso temos para dar. Surge assim como uma encruzilhada, uma tensão constante, na qual a mente aceita conhecimento, transforma-o, retalha-se, entende, sente, desespera, esclarece-se, e pode simplesmente acabar por escolher a manutenção de dois universos distintos, e muitas vezes opostos, que dizem respeito a um único sujeito. Um deles será defendido ao impensável. O outro será entendido com o irrefutável de que é feita uma verdade. Até ao esgotamento da tal resiliência, e a dor vazia que ele representará. E por isso lhe resistimos tanto… e em muitos casos, infrutiferamente.

quinta-feira, outubro 25, 2012

ILÓGICA(???)

Reparo que, hoje em dia, os movimentos de reparo do mal estar social e de alma (sejam eles do foro “psi” ou das auto-ajudas com ervas mágicas ou tremuras de mão) , prendem-se com uma noção de “empowerment”, de “self-reliance” (desculpem o anglicismo, mas estas expressões parecem-me mais directas e adequadas), de resolução dos problemas através de uma qualquer ideia de auto-regeneração através de uma iluminação qualquer interior. Noutra óptica, sugere-se que os males, e falamos dos reactivos, que podem ser provocados pelo exterior ou pela insuficiência de felicidade que preside às relações entre as pessoas, sejam aplacados com um elixir de reconstrução que só é extraível através de uma terapia essencialmente solitária.
 
Sou só eu ou isto parece-me contraditório à partida?
 
 É mais ou menos como dizer que se deve ir de carros desde Braga ao Algarve para protestar contra as auto-estradas. Ou seja, o que à partida está mal, e em muitos casos o síndrome de tristeza e dano social e relacional tem normalmente origem em qualquer forma específica de solidão, é a terapia recomendada, porque se deve partir unicamente do próprio a resolução, então é porque de alguma forma a intervenção externa só serve como esclarecimento lapalissiano, num bem intencionado “desenrasca-te pá” e depois volta já arranjadinho.
 
Parece-me a mim, mas posso estar enganado, e provavelmente estou, que essa mecânica de empowerment acabaria por desqualificar todas as formas de ajuda à reconstrução das pessoas, ou mesmo à sua evolução. Ao achar que os outros não podem ajudar também a resolver, nem que seja pelo reconhecimento, alguns problemas e características menos bonitas, porque a malta tem é de conseguir resolver isso sozinho ( e já agora depressinha), não se está a defraudar o propósito de realmente conhecer e apoiar o outro, se de facto gostamos dele? Ou isto é a praia do Alex Garland, onde andamos todos a rezar para ninguém ser mordido por um tubarão porque, epá, é chato e tal…  
 
De onde é que se desenterra a ideia de que o conhecimento do outro só deve ser feito na medida do que esse traz de bom? Isso não é conhecer uma pessoa, é compor um anúncio para um site de encontros. É uma mentira, clássica, e de parca durabilidade, com resultados comprováveis. Se tudo depende de nós, a absoluta autossuficiência não deveria ser uma quimera, mas a lógica básica de tudo. Mais ainda, se a ideia de regeneração dos danos é uma qualquer espécie de partogénese militante, então para que raio precisamos uns dos outros???
 
 
P.S. - (Claro que aqui se deixa de fora o histrionismo, o complexo de holofote, os gritos ensurdecedores a avisar a milésima chegada do Lobo ou a autocentralidade histérica, porque isso é falso em si. Esses responsabilizam toda a gente pelo que nem sequer querem ser ajudados a ser. São uma espécie de divas sem qualquer arte correspondente ao estatuto desejado.)



quarta-feira, outubro 24, 2012

Um dos grandes esforços que a vivência tem é a manutenção das memórias na estrita medida em que queremos que elas vivam. E é um desafio porque, de certa forma, a realidade vai moldando a substancia que as constitui consoante os afectos e ju ízos as enquadram. E quando há dor à mistura, as linhas dos contornos tendem a ganhar determinada espessura e irregularidade.
 
 Isto acontece porque há um esforço paradoxal. Um esforço que cumula três valências aparentemente antagónicas:
 
1. Aquela que mantém a todo o custo a justificação do que se viveu/sentiu/optou etc;
 
2. Aquela que, perante a dor, deixa intacto o primeiro, mas justifica a própria dor de um fim/choque/conflito/desilusão, etc;
 
3. E uma terceira que faz uma imputação de responsabilidade ao detentor da memória, para decidir do empate entre estas duas tendências, e a justiça a fazer a cada uma delas.
 
  Este esforço surge como a validação interna, e apenas isso, de todas as formas de entrega que se possam pensar. É aquilo que, na linguagem mais interna e desprovida de fundamentos mais pragmáticos, permite que a importância de algumas coisas jamais se perca porque o enquadramento fazia todo o sentido com determinadas premissas. Mesmo que o furacão estivesse ao longe, o calor que se fazia sentir justificava a permanência na praia ( recomendo Get Shelter, com o Michael Shannon, só para esta imagem :) ). O tal esforço, permite-nos fazer justiça ao que acontece em cada instante, pelo sentido que faz nesse enquadramento, sob pena de sermos nós inúteis pela rendição que faríamos perante algo que não tinha essa importância. A memoria que persiste terá, assim, de viver do que a fundamentou, e como normalmente se deseja esquecer os estilhaçamentos, resta, por maioria de razão, aquilo que persiste pelo bem que representa(va).
 
A vivência da memória persistente terá então de ser vivida um pouco entre a noção de um segredo perene, e uma aceitação adaptativa. No fundo, é um juízo eclético feito de coração, no qual vive o que motivou as melhores das coisas. O que é uma vitória. Porque há poucas derrotas mais pesadas, e falo por mim, que aquelas, felizmente raras, onde se reconhece que o esforço remanescente nem a paz de um esquecimento mereceu, mas apenas um azedume persistente traduzido numa má intenção quase automática. Eu gosto de pensar que o que persiste comigo, nasce da positividade que nada conseguiu apagar, e que, por isso mesmo, jamais perde a sua importância na melhor das narrativas pessoais. Algo que, por viver onde faz sentido, espacial, temporal e conceptual, nunca perde a sua riqueza, e retira a horrível possibilidade do inútil. É arriscado e meio parvo. Mas em qualquer forma de sobrevivência, alguns meios são isto mesmo… acho eu. :)
 
 

sexta-feira, setembro 28, 2012

"O amor não é (só) uma coisa bonita. Em primeiro lugar não é uma coisa. Mas é então o quê? Um conceito? Bem, se assim fosse, era minimamente definível, por muitas que fossem as premissas. Bem, assim sendo, é algo. Mas quando nos refer...
imos a ele, há um reconhecimento genérico, portanto parece mais um conceito. Mas é universal? Bem, tenho dúvidas. Para deter universalidade, teria de conter uma ideia de pré-reconhecimento, e esta é mais uma antecâmara e verificação do próprio amor do que a sua definição. Os amantes, palavra correcta que infelizmente é utilizada de forma diversa no nosso léxico corrente, amam também porque se sentem em casa, e pela multiplicidade de questões adivinhadas num contexto onde a pele acaba por ajudar às respostas. Lá está o reconhecimento, o desejo do sabor do saber antes de saber. Portanto será o quê? Um paradigma? Mas de quê? De emoção? Uma coisa é quase certa. O amor não é um exemplo para nada. Face às outras emoções, é o tio fixe que anda de Harley ou a prima maluca que faz couch surfing nas casas da família inteira enquanto consegue convencer toda a gente a comprar o que parece artesanato mal amanhado. É como uma empresa que fecha num dia e abre no seguinte com outro nome, mas por falência mais externa do que interna, porque o objecto da sua actividade, em alguns casos, nunca cessa. Então vamos lá ver. O que é? É bonito? Gaita, passamos dos nomes aos adjectivos, mas deixa lá ver. Se pensarmos bem, um incêndio florestal, um maremoto ou um predador em pleno ataque têm a sua beleza agreste e terrível. Assim como as histórias e imagens que não dão murros no estômago com a pior forma de denúncia da verdade. Verdade… verdade… isto já me soa melhor. Se calhar estamos a chegar a qualquer lado. Será um estado? Mas estado como? As pessoas encontram-se a certa altura em estado amoroso? Como as moléculas? Talvez. Talvez as pessoas, ao amarem, se encontrem num estado muito peculiar, porque muitos denunciam uma vida dentro da vida, como moléculas aparentemente similares que reagem de formas diferentes quando a naturalidade dos processos não o determinaria. Como se ao ferver o leite, ele gelasse. Ou o contrário. É um estado? Talvez. Mas ao qual nunca se chega se se tiver sorte… ou pensando bem, azar, portanto como vêm, não pode ser apenas um estado. Será uma atitude? Então é possivelmente o pior de todos os designativos, porque as atitudes tidas, uma vez em “estado-amor”, reforçam qualquer teoria da borboleta em Pequim. Vão das que geram vida às que provocam morte. Não é uma atitude, assim como o vento não sopra sempre na direcção do mesmo ponto cardeal.
Bolas…
O melhor é mesmo “uma coisa…”
O amor não é uma coisa bonita. Não é só uma coisa bonita, vá lá…. O amor é, como se adivinha por uma ideia de lotaria empática, uma espécie de desejo transferido através do esvaziamento do próprio tornando-se este num siamês do outro, mas sem que este alguma vez lhe pertença. O amor é uma perseguição a um fogo-fátuo que até fala, mas cujo formato é em si uma mensagem escrita por aquela parcela de pensamento escondido atrás da nuca que escolhe a pele e não a boca ou os gestos para se manifestar. O amor não grita com ninguém senão com o seu portador. Mas todos o ouvem. Como uma ameaça velada mas tremenda, o amor vive da sua própria premissa de terror associado à vida que tem por isso mesmo. É esquizoide e caótico, mas, quando existe, tem uma integralidade estrutural inamovível. Portanto… é uma coisa, ou um estado, ou uma emoção, ou uma forma alternativa de energia e o grande fulcro da discussão entre inatismo transcendental e racionalismo mecanicista. No amor ninguém está certo e todos têm razão. Passa-se a mais cruel das fomes enterrado em pão. Só se explica quando não se faz entender. Traz à ideia plena de vida um certo desejo de morrer. É, em parte, a ameaça de uma doença, a vertigem da perda como real pertença. É a queda. E se há água ou granito lá em baixo, não depende de quem cai. Quem realmente entra, será que de lá sai?"
 
 

sábado, setembro 22, 2012

No escuro, é mais complicado ter insónias, e assim estender o que se pensa até que o tempo ameaça simplesmente parar. A certa altura não se tem optimismos ou pessimismos. As coisas passam, os fenómenos decorrem, sem no entanto realmente passarem. A vida abre-se, estranhamente contrariada, como se as opções não fossem dadas mas empurradas como carvão para dentro de um forno cujo fogo tem pretensões de perenidade. É um imenso volume na biblioteca que se encaixa, e o estrondo do eco é a denúncia do mais complicado tipo de histórias. As que teimam em ir devastando mesmo depois do estalido da contra-capa. 
As nossas.

sexta-feira, setembro 21, 2012

Nunca se deve subestimar até que ponto as coisas devem descer...
Até que ponto pode ser complicado, doloroso, aparentemente insuperável. Até que ponto o retrato na parede pode deterioriar-se ao insuportável, até parecer carne despedaçada, infecta.
E o que nunca, mas nunca se deve supor, é que ficará por aí...

quinta-feira, setembro 20, 2012


Eu não sou definitivamente mais que os outros. Muito pelo contrário. Relativamente a certas coisas, talvez tenha mais cuidado, ou talvez tenha a noção de que quanto menos mordidelas der na língua, melhor será para continuar a conseguir falar e dizer algo que seja inteligível e aprioristicamente não duvidoso. Falar com a língua demasiadas vezes mordida é como esperar que um tipo com uma costura feia num braço consiga levantar um saco de 50 quilos de cimento. Se o fizer, ou a costura é uma treta ou o saco está vazio. Ou então é um banho de sangue e aí não estamos a falar em prosápia ou hipocrisia, mas só mesmo parvoíce.

Se me dessem uma nota de 100€ por casa asneirada que fiz e que pensava não tornar a fazer, tinha os meus dois subsídios garantidos este ano. E alguma dessa asneirada teve depois de ser desmontada em exercícios de reconhecimento, de admissão de aleatoriedades, de fraquezas e atitudes tomadas não em estados de necessidade mas em plena pujança daquela fantástica tendência que têm os mamíferos bípedes em fazer merda. É chato, mas por vezes asneamos só porque sim. É como uma voz idiota que se põe aos pulos como um cartoon irritante, mas que acaba por dar ordens efectivas. É chato. É quase genérico. É, rufam os tambores, humano.

Mas depois existem outras coisas. Existe o calculismo. Os mísseis de “filhaputice” teleguiada disfarçados de propriedade e decência que, a ser verdadeira, até chegaria a ser enfadonha. Existe o gosto pela manobra, as estrategiazinhas de envenenamento lateral, que são como os movimentos de uma cobra cuspideira acabada de virar uma garrafa de carrascão. Ou seja, rapidamente detectáveis, e produtores de danos consideráveis. Existe toda uma pessoa que está bem à vista, mas que a sua detentora julga levar discreta no bolso. Existem as denúncias, a bufice, a indignidade pequenina de alcoviteiros de trazer por casa, como se Yago fosse capaz de se convencer a si e a outros da bondade dos seus métodos. Existe a maldade. Aquela mesquinha, pequenina, quotidiana, patética, mas ainda assim, perigosa e maledicente. É normalmente a defesa do indefensável a disparar em todos os sentidos, precisamente porque não tem pontaria para nada.

Essas pessoas, normalmente, passam por dois estágios. Causam tristeza e depois asco. E depois não há estágio algum, porque nem percebem a escatologia em que se tornaram, porque sempre a foram. Porque tudo é calculado para que isto passe despercebido ao mesmo tempo que se tiram os dividendos oriundos da carapaça impoluta de quem é bom em tudo o que é “recomendável”.  E nem com todas as formas de boca em todas as botijas, o admitem ou percebem sequer. Depois cai tudo. E o que resta por perto, se é que resta, em nada difere da coisa que de podre, passa ao estágio seguinte. Eu não sei qual é, mas deve ser algo perto do inexistente. Só fica mesmo os danos que causam. E só por isso, ainda valem menos a pena seja qual a forma como possam existir.

O que é chato. Para castigo já chega o governo, a mentalidade de reality show para mentecaptos (uma redundância, eu sei), e a Alexandra Solnado ( e mais umas coisas… :-) ).
Escrevo uma espécie de diário e no entanto questiono se ele me ajudará a recordar.
Talvez porque desconheço mesmo se através dele conseguirei alguma vez explicar alguma coisa.

O segredo está nos sapatos.

Disto isto assim, poderia ser algo que entusiasmasse parte do público feminino, mas a ideia é algo diferente. O segredo está nos sapatos. Nos nossos e nos dos outros, e nas dores que ambos causam. Nos outros são adivinhadas. Nos nossos são uma gaita. Passo as metáforas da pimenta e refrescos, a verdade é que em muitos casos até quem está habituado a andar na mais regalada das pantufas com a resistência de um casco sabe que a certa altura pode existir um prego no chão que deita isso tudo por terra.

Não basta saber como são os sapatos dos outros. É preciso saber como são calçados. Um par de meias ou dois? É que os sapatos podem estar largos, ou fazer muito frio. É necessário saber que a posição do pé pode fazer uma pantufa uma espécie de cama de faquir em versão plantar.

O problema dos círculos leva ao dos sapatos. Cedo ou tarde aquela bota dolorosa pode chegar ao nosso pé, e a eficácia da prevenção impede, em alguns casos, não as dores, mas os calos, as chagas e mesmo as infecções persistentes. Saber que se consegue imaginar o que é calçar outros sapatos, que se consegue pelo menos perceber porque não os calçamos, mas porque eles existem, permite que os donos do mais variado calçado possam andar lado a lado e apoiarem-se genuinamente nuns nos outros, quando o piso se revelar menos adequado a cada pé ou sapato.

É por isso que olhar para pés descalços em cima de almofadas não resulta. É por isso que achar que cada passada é sempre feita em cima dos ténis mais aderentes e absorventes de impacto que há, é falacioso. É por isso que perceber o formato do sapato, e caminhar com ele, é dar-lhe existência. É partilhar algo contra as agressões do piso. É criar um laço sem que com isso se misturem necessariamente atacadores, o que a todos impediria a marcha e a progressão.

O segredo está nos sapatos. Mas não só quando são novos ou aparentemente não doem, mas quando se consegue com que alguém adie o mais possível a substituição das meias solas porque um caminho verdadeiramente apoiado não desgasta tanto.

E cedo ou tarde, melhor ou pior, a porta do sapateiro surge. E mais importante do que ter com que pagar a reparação do sapato, é saber que caso o pé fique mesmo nu, alguém oferece os seus pés para pisar até que se chegue lá. E como qualquer outra coisa material, a manutenção, preservação e recuperação do calçado não se faz com intenções, ainda por cima dissipadas no tempo e substância. Faz-se, como dizia o outro, caminhando também. Ajudando a abrir carreiros se tiver de ser. Ajudando a diminuir os passos em falso. E sobretudo, a que não sejam pés nus o que afinal há quando se percebe que a caminhada é singular e solitária.

Como se vê, o segredo para chegar a qualquer lado, está nos sapatos. O resto toma conta de si mesmo.


 
 


Tentei ir para uma casa nova...
O apartamento até era simpático.
Mas sabemos sempre de onde viemos. Em tudo.
Por isso, volta-se a casa e reabrimo-la.
Peço encarecidamente que, quem aqui entrar e desejar vasculhar o passado deste edifício, me desculpe por muitas das coisas escritas que me envergonham nesse passado. Não os factos, mas a forma como foram escritos ou descritos. Mas foi o que foi possível na altura.
Não apaguei porque sinceramente acho que não se apagam diários. Eu fui eu que não fui capaz, sei lá porquê.
Portanto é daqui em diante.
De volta ao local de onde se calhar nunca saí, como nunca de facto saímos.
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....................(estática - o programa volta dentro de momentos)...........................................
 

...................................................................................................(estática).................................................
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