ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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sexta-feira, setembro 28, 2012

"O amor não é (só) uma coisa bonita. Em primeiro lugar não é uma coisa. Mas é então o quê? Um conceito? Bem, se assim fosse, era minimamente definível, por muitas que fossem as premissas. Bem, assim sendo, é algo. Mas quando nos refer...
imos a ele, há um reconhecimento genérico, portanto parece mais um conceito. Mas é universal? Bem, tenho dúvidas. Para deter universalidade, teria de conter uma ideia de pré-reconhecimento, e esta é mais uma antecâmara e verificação do próprio amor do que a sua definição. Os amantes, palavra correcta que infelizmente é utilizada de forma diversa no nosso léxico corrente, amam também porque se sentem em casa, e pela multiplicidade de questões adivinhadas num contexto onde a pele acaba por ajudar às respostas. Lá está o reconhecimento, o desejo do sabor do saber antes de saber. Portanto será o quê? Um paradigma? Mas de quê? De emoção? Uma coisa é quase certa. O amor não é um exemplo para nada. Face às outras emoções, é o tio fixe que anda de Harley ou a prima maluca que faz couch surfing nas casas da família inteira enquanto consegue convencer toda a gente a comprar o que parece artesanato mal amanhado. É como uma empresa que fecha num dia e abre no seguinte com outro nome, mas por falência mais externa do que interna, porque o objecto da sua actividade, em alguns casos, nunca cessa. Então vamos lá ver. O que é? É bonito? Gaita, passamos dos nomes aos adjectivos, mas deixa lá ver. Se pensarmos bem, um incêndio florestal, um maremoto ou um predador em pleno ataque têm a sua beleza agreste e terrível. Assim como as histórias e imagens que não dão murros no estômago com a pior forma de denúncia da verdade. Verdade… verdade… isto já me soa melhor. Se calhar estamos a chegar a qualquer lado. Será um estado? Mas estado como? As pessoas encontram-se a certa altura em estado amoroso? Como as moléculas? Talvez. Talvez as pessoas, ao amarem, se encontrem num estado muito peculiar, porque muitos denunciam uma vida dentro da vida, como moléculas aparentemente similares que reagem de formas diferentes quando a naturalidade dos processos não o determinaria. Como se ao ferver o leite, ele gelasse. Ou o contrário. É um estado? Talvez. Mas ao qual nunca se chega se se tiver sorte… ou pensando bem, azar, portanto como vêm, não pode ser apenas um estado. Será uma atitude? Então é possivelmente o pior de todos os designativos, porque as atitudes tidas, uma vez em “estado-amor”, reforçam qualquer teoria da borboleta em Pequim. Vão das que geram vida às que provocam morte. Não é uma atitude, assim como o vento não sopra sempre na direcção do mesmo ponto cardeal.
Bolas…
O melhor é mesmo “uma coisa…”
O amor não é uma coisa bonita. Não é só uma coisa bonita, vá lá…. O amor é, como se adivinha por uma ideia de lotaria empática, uma espécie de desejo transferido através do esvaziamento do próprio tornando-se este num siamês do outro, mas sem que este alguma vez lhe pertença. O amor é uma perseguição a um fogo-fátuo que até fala, mas cujo formato é em si uma mensagem escrita por aquela parcela de pensamento escondido atrás da nuca que escolhe a pele e não a boca ou os gestos para se manifestar. O amor não grita com ninguém senão com o seu portador. Mas todos o ouvem. Como uma ameaça velada mas tremenda, o amor vive da sua própria premissa de terror associado à vida que tem por isso mesmo. É esquizoide e caótico, mas, quando existe, tem uma integralidade estrutural inamovível. Portanto… é uma coisa, ou um estado, ou uma emoção, ou uma forma alternativa de energia e o grande fulcro da discussão entre inatismo transcendental e racionalismo mecanicista. No amor ninguém está certo e todos têm razão. Passa-se a mais cruel das fomes enterrado em pão. Só se explica quando não se faz entender. Traz à ideia plena de vida um certo desejo de morrer. É, em parte, a ameaça de uma doença, a vertigem da perda como real pertença. É a queda. E se há água ou granito lá em baixo, não depende de quem cai. Quem realmente entra, será que de lá sai?"
 
 

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