ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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quarta-feira, outubro 31, 2012

No universo das relações entre as pessoas as coisas podem ter dimensões assustadoras. De caos, de estranheza, até mesmo de surpresa e choque. E na proporção daquilo que se possa sentir, normalmente recusa-se aceitar a possibilidade de certas realidades. Certas dimensões comportamentais. Certas percepções. Essas percepções assentam na certeza de que ao amor, seja ele em que forma for, corresponde uma determinada dimensão ética. Há, pelo que se sente, a necessidade de uma validação do objecto do que se sente. Para que haja alguma justificação do caos, ele tem de assentar na certeza, pelo menos parcial, de que algo o justifica. Conforme o caos e a dor aumentam, aumentará igual e proporcionalmente o esforço e tenacidade numa crença assente na justificação do que toma conta de cada um de nós numa fase qualquer da vida. E à medida que os limites vão sendo esticados, a resiliência raivosa nos fundamentos de “qualidade” daquele(s) outro(s) são reforçados à guisa de cimento feito das memórias ou existências positivas. É um tandem ecléctico, uma sobreposição constante do bom perante o mau, como um guisado onde a qualidade da carne esconde o azedume do vinho com que a temperámos. Ou assim se espera. A chamada entrega ao aleatório nestes aspectos parece-me falaciosa. Posso estar enganado, mas julgo que ninguém, jamais, ignorará completamente a necessidade da dimensão ética e qualitativa dos seus afectos. Ainda que se admita que há variados elementos seguramente justificados na aleatoriedade do que “não se controla” (Valmont, anyone?), que são por sua vez traduzidos num juízo de “gosto e pronto e nada a fazer”, arrisco dizer que, em tempo algum, quando as cores da vivência afectiva começam a escurecer e passar de escarlate a um roxo de equimose mental constante (sim, porque as outras encerra um fenómeno à parte, ainda mais terrível), deixará de haver a tentação, para não dizer necessidade, de explicar algo da pele ética e qualitativa do objecto desse afecto. No turbilhão de certas infelicidades afectivas, de tomadas de consciência mais dolorosas e terríveis, assentes no pior dos medos de avaliação do(s) outro(s), gera-se um contramovimento, feito de algo que é até leal a um nível quase impensável, e que consiste em desmontar as evidencias escuras com as memórias das luzes que a mente o memória se recusam a apagar. Na cabeça, surgem as frases de “não pode ser assim”, “não é possível”, “tem de haver uma explicação”, “há isto mas por outro lado também há aquilo”, e por aí fora.
 
Ontem ouvi uma entrevista de Javier Marias em que o autor falava precisamente disto. Que as histórias, e não só as escritas, eram também muito feitas desta tensão, deste choque de percepção em antagonismo intenso com a teimosia afectiva que constantemente tenta “salvar” os seus objectos ou eleitos, se preferirem o termo mais elogioso. Essa recusa em crer é um paradoxo. Acaba por ser bela porque é feita de nada mais que uma entrega a uma percepção que é constituída apenas por dádiva, mas tem o seu lado pernicioso porque pode assentar em distorções teimosas de realidades, única e exclusivamente para salvar a justificação ou sentido de uma entrega significativa daquilo que de mais precioso temos para dar. Surge assim como uma encruzilhada, uma tensão constante, na qual a mente aceita conhecimento, transforma-o, retalha-se, entende, sente, desespera, esclarece-se, e pode simplesmente acabar por escolher a manutenção de dois universos distintos, e muitas vezes opostos, que dizem respeito a um único sujeito. Um deles será defendido ao impensável. O outro será entendido com o irrefutável de que é feita uma verdade. Até ao esgotamento da tal resiliência, e a dor vazia que ele representará. E por isso lhe resistimos tanto… e em muitos casos, infrutiferamente.

quinta-feira, outubro 25, 2012

ILÓGICA(???)

Reparo que, hoje em dia, os movimentos de reparo do mal estar social e de alma (sejam eles do foro “psi” ou das auto-ajudas com ervas mágicas ou tremuras de mão) , prendem-se com uma noção de “empowerment”, de “self-reliance” (desculpem o anglicismo, mas estas expressões parecem-me mais directas e adequadas), de resolução dos problemas através de uma qualquer ideia de auto-regeneração através de uma iluminação qualquer interior. Noutra óptica, sugere-se que os males, e falamos dos reactivos, que podem ser provocados pelo exterior ou pela insuficiência de felicidade que preside às relações entre as pessoas, sejam aplacados com um elixir de reconstrução que só é extraível através de uma terapia essencialmente solitária.
 
Sou só eu ou isto parece-me contraditório à partida?
 
 É mais ou menos como dizer que se deve ir de carros desde Braga ao Algarve para protestar contra as auto-estradas. Ou seja, o que à partida está mal, e em muitos casos o síndrome de tristeza e dano social e relacional tem normalmente origem em qualquer forma específica de solidão, é a terapia recomendada, porque se deve partir unicamente do próprio a resolução, então é porque de alguma forma a intervenção externa só serve como esclarecimento lapalissiano, num bem intencionado “desenrasca-te pá” e depois volta já arranjadinho.
 
Parece-me a mim, mas posso estar enganado, e provavelmente estou, que essa mecânica de empowerment acabaria por desqualificar todas as formas de ajuda à reconstrução das pessoas, ou mesmo à sua evolução. Ao achar que os outros não podem ajudar também a resolver, nem que seja pelo reconhecimento, alguns problemas e características menos bonitas, porque a malta tem é de conseguir resolver isso sozinho ( e já agora depressinha), não se está a defraudar o propósito de realmente conhecer e apoiar o outro, se de facto gostamos dele? Ou isto é a praia do Alex Garland, onde andamos todos a rezar para ninguém ser mordido por um tubarão porque, epá, é chato e tal…  
 
De onde é que se desenterra a ideia de que o conhecimento do outro só deve ser feito na medida do que esse traz de bom? Isso não é conhecer uma pessoa, é compor um anúncio para um site de encontros. É uma mentira, clássica, e de parca durabilidade, com resultados comprováveis. Se tudo depende de nós, a absoluta autossuficiência não deveria ser uma quimera, mas a lógica básica de tudo. Mais ainda, se a ideia de regeneração dos danos é uma qualquer espécie de partogénese militante, então para que raio precisamos uns dos outros???
 
 
P.S. - (Claro que aqui se deixa de fora o histrionismo, o complexo de holofote, os gritos ensurdecedores a avisar a milésima chegada do Lobo ou a autocentralidade histérica, porque isso é falso em si. Esses responsabilizam toda a gente pelo que nem sequer querem ser ajudados a ser. São uma espécie de divas sem qualquer arte correspondente ao estatuto desejado.)



quarta-feira, outubro 24, 2012

Um dos grandes esforços que a vivência tem é a manutenção das memórias na estrita medida em que queremos que elas vivam. E é um desafio porque, de certa forma, a realidade vai moldando a substancia que as constitui consoante os afectos e ju ízos as enquadram. E quando há dor à mistura, as linhas dos contornos tendem a ganhar determinada espessura e irregularidade.
 
 Isto acontece porque há um esforço paradoxal. Um esforço que cumula três valências aparentemente antagónicas:
 
1. Aquela que mantém a todo o custo a justificação do que se viveu/sentiu/optou etc;
 
2. Aquela que, perante a dor, deixa intacto o primeiro, mas justifica a própria dor de um fim/choque/conflito/desilusão, etc;
 
3. E uma terceira que faz uma imputação de responsabilidade ao detentor da memória, para decidir do empate entre estas duas tendências, e a justiça a fazer a cada uma delas.
 
  Este esforço surge como a validação interna, e apenas isso, de todas as formas de entrega que se possam pensar. É aquilo que, na linguagem mais interna e desprovida de fundamentos mais pragmáticos, permite que a importância de algumas coisas jamais se perca porque o enquadramento fazia todo o sentido com determinadas premissas. Mesmo que o furacão estivesse ao longe, o calor que se fazia sentir justificava a permanência na praia ( recomendo Get Shelter, com o Michael Shannon, só para esta imagem :) ). O tal esforço, permite-nos fazer justiça ao que acontece em cada instante, pelo sentido que faz nesse enquadramento, sob pena de sermos nós inúteis pela rendição que faríamos perante algo que não tinha essa importância. A memoria que persiste terá, assim, de viver do que a fundamentou, e como normalmente se deseja esquecer os estilhaçamentos, resta, por maioria de razão, aquilo que persiste pelo bem que representa(va).
 
A vivência da memória persistente terá então de ser vivida um pouco entre a noção de um segredo perene, e uma aceitação adaptativa. No fundo, é um juízo eclético feito de coração, no qual vive o que motivou as melhores das coisas. O que é uma vitória. Porque há poucas derrotas mais pesadas, e falo por mim, que aquelas, felizmente raras, onde se reconhece que o esforço remanescente nem a paz de um esquecimento mereceu, mas apenas um azedume persistente traduzido numa má intenção quase automática. Eu gosto de pensar que o que persiste comigo, nasce da positividade que nada conseguiu apagar, e que, por isso mesmo, jamais perde a sua importância na melhor das narrativas pessoais. Algo que, por viver onde faz sentido, espacial, temporal e conceptual, nunca perde a sua riqueza, e retira a horrível possibilidade do inútil. É arriscado e meio parvo. Mas em qualquer forma de sobrevivência, alguns meios são isto mesmo… acho eu. :)