No universo das relações entre as pessoas as coisas podem ter dimensões assustadoras. De caos, de estranheza, até mesmo de surpresa e choque. E na proporção daquilo que se possa sentir, normalmente recusa-se aceitar a possibilidade de certas realidades. Certas dimensões comportamentais. Certas percepções. Essas percepções assentam na certeza de que ao amor, seja ele em que forma for, corresponde uma determinada dimensão ética. Há, pelo que se sente, a necessidade de uma validação do objecto do que se sente. Para que haja alguma justificação do caos, ele tem de assentar na certeza, pelo menos parcial, de que algo o justifica. Conforme o caos e a dor aumentam, aumentará igual e proporcionalmente o esforço e tenacidade numa crença assente na justificação do que toma conta de cada um de nós numa fase qualquer da vida. E à medida que os limites vão sendo esticados, a resiliência raivosa nos fundamentos de “qualidade” daquele(s) outro(s) são reforçados à guisa de cimento feito das memórias ou existências positivas. É um tandem ecléctico, uma sobreposição constante do bom perante o mau, como um guisado onde a qualidade da carne esconde o azedume do vinho com que a temperámos. Ou assim se espera.
A chamada entrega ao aleatório nestes aspectos parece-me falaciosa. Posso estar enganado, mas julgo que ninguém, jamais, ignorará completamente a necessidade da dimensão ética e qualitativa dos seus afectos. Ainda que se admita que há variados elementos seguramente justificados na aleatoriedade do que “não se controla” (Valmont, anyone?), que são por sua vez traduzidos num juízo de “gosto e pronto e nada a fazer”, arrisco dizer que, em tempo algum, quando as cores da vivência afectiva começam a escurecer e passar de escarlate a um roxo de equimose mental constante (sim, porque as outras encerra um fenómeno à parte, ainda mais terrível), deixará de haver a tentação, para não dizer necessidade, de explicar algo da pele ética e qualitativa do objecto desse afecto. No turbilhão de certas infelicidades afectivas, de tomadas de consciência mais dolorosas e terríveis, assentes no pior dos medos de avaliação do(s) outro(s), gera-se um contramovimento, feito de algo que é até leal a um nível quase impensável, e que consiste em desmontar as evidencias escuras com as memórias das luzes que a mente o memória se recusam a apagar. Na cabeça, surgem as frases de “não pode ser assim”, “não é possível”, “tem de haver uma explicação”, “há isto mas por outro lado também há aquilo”, e por aí fora.
Ontem ouvi uma entrevista de Javier Marias em que o autor falava precisamente disto. Que as histórias, e não só as escritas, eram também muito feitas desta tensão, deste choque de percepção em antagonismo intenso com a teimosia afectiva que constantemente tenta “salvar” os seus objectos ou eleitos, se preferirem o termo mais elogioso.
Essa recusa em crer é um paradoxo. Acaba por ser bela porque é feita de nada mais que uma entrega a uma percepção que é constituída apenas por dádiva, mas tem o seu lado pernicioso porque pode assentar em distorções teimosas de realidades, única e exclusivamente para salvar a justificação ou sentido de uma entrega significativa daquilo que de mais precioso temos para dar. Surge assim como uma encruzilhada, uma tensão constante, na qual a mente aceita conhecimento, transforma-o, retalha-se, entende, sente, desespera, esclarece-se, e pode simplesmente acabar por escolher a manutenção de dois universos distintos, e muitas vezes opostos, que dizem respeito a um único sujeito. Um deles será defendido ao impensável. O outro será entendido com o irrefutável de que é feita uma verdade. Até ao esgotamento da tal resiliência, e a dor vazia que ele representará. E por isso lhe resistimos tanto… e em muitos casos, infrutiferamente.