ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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quarta-feira, outubro 24, 2012

Um dos grandes esforços que a vivência tem é a manutenção das memórias na estrita medida em que queremos que elas vivam. E é um desafio porque, de certa forma, a realidade vai moldando a substancia que as constitui consoante os afectos e ju ízos as enquadram. E quando há dor à mistura, as linhas dos contornos tendem a ganhar determinada espessura e irregularidade.
 
 Isto acontece porque há um esforço paradoxal. Um esforço que cumula três valências aparentemente antagónicas:
 
1. Aquela que mantém a todo o custo a justificação do que se viveu/sentiu/optou etc;
 
2. Aquela que, perante a dor, deixa intacto o primeiro, mas justifica a própria dor de um fim/choque/conflito/desilusão, etc;
 
3. E uma terceira que faz uma imputação de responsabilidade ao detentor da memória, para decidir do empate entre estas duas tendências, e a justiça a fazer a cada uma delas.
 
  Este esforço surge como a validação interna, e apenas isso, de todas as formas de entrega que se possam pensar. É aquilo que, na linguagem mais interna e desprovida de fundamentos mais pragmáticos, permite que a importância de algumas coisas jamais se perca porque o enquadramento fazia todo o sentido com determinadas premissas. Mesmo que o furacão estivesse ao longe, o calor que se fazia sentir justificava a permanência na praia ( recomendo Get Shelter, com o Michael Shannon, só para esta imagem :) ). O tal esforço, permite-nos fazer justiça ao que acontece em cada instante, pelo sentido que faz nesse enquadramento, sob pena de sermos nós inúteis pela rendição que faríamos perante algo que não tinha essa importância. A memoria que persiste terá, assim, de viver do que a fundamentou, e como normalmente se deseja esquecer os estilhaçamentos, resta, por maioria de razão, aquilo que persiste pelo bem que representa(va).
 
A vivência da memória persistente terá então de ser vivida um pouco entre a noção de um segredo perene, e uma aceitação adaptativa. No fundo, é um juízo eclético feito de coração, no qual vive o que motivou as melhores das coisas. O que é uma vitória. Porque há poucas derrotas mais pesadas, e falo por mim, que aquelas, felizmente raras, onde se reconhece que o esforço remanescente nem a paz de um esquecimento mereceu, mas apenas um azedume persistente traduzido numa má intenção quase automática. Eu gosto de pensar que o que persiste comigo, nasce da positividade que nada conseguiu apagar, e que, por isso mesmo, jamais perde a sua importância na melhor das narrativas pessoais. Algo que, por viver onde faz sentido, espacial, temporal e conceptual, nunca perde a sua riqueza, e retira a horrível possibilidade do inútil. É arriscado e meio parvo. Mas em qualquer forma de sobrevivência, alguns meios são isto mesmo… acho eu. :)
 
 

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