ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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sexta-feira, julho 05, 2013

Da Burrice

"O amor tudo mata quando morre,
detendo no seu movimento elementar,
a máquina que ilumina o coração do dia."

José Jorge Letria

 

Dizem que é preciso um enorme talento para fazer os outros sentirem-se especiais, queridos, únicos ou essenciais. Fazer e celebrar aquilo que as pessoas têm de melhor, é um talento, uma capacidade ímpar.

Mas muita gente desdenha e conhece mal a capacidade que existe em fazer os outros sentir-se uma trampa. Há níveis de dispensa de desprezo que ultrapassam a mais fértil das imaginações. Exige um requinte próprio de uma ausência de percepção do mundo, dos outros, uma sociopatia que enegrece tudo com o indistinto sabor da ausência de empatia, da total absorção interna da energia circundante, porque nada mais é perceptível.

Mas essas situações dependem de uma outra condição. Uma condição muito básica, um elemento primordial e essencial para o sucesso absoluto deste tipo de fenómeno. Essa capacidade de provocar a mais profunda sensação de auto-desgosto depende da burrice. Uma burrice enorme, uma espécie de boa-fé asinina que, a figurar no Larousse, é a mais enciclopédica definição de estupidez. É a epitome da parvoíce, a mais completa demonstração da convicção com que se é néscio.

Como sempre defendi na vida, qualquer agressão só existe na medida em que o agressor não possa ou escolha defender-se.

A natureza humana, como dizia uma amiga minha, é vária. E pouco bonita.

É muito triste, mas é só verdade.



quarta-feira, maio 29, 2013


Há muitos anos, vivia eu em casa dos meus pais como pré-adolescente que era, a minha rua era liderada por um par de irmãos. Os irmãos “russos”. Aquele de quem mais me lembro, e que no fundo era o líder incontestado, era o Zé. Zé Russo. Um pequeno tretas, encantador, cheio de teorias que todos ouvíamos com atenção, fascinados pela sua sabedoria inexistente mas convincente. Inquestionável mesmo. Ninguém duvidava do Zé Russo, mesmo quando ele arranjava seringas, sabe-se lá onde as teria obtido, as enchia com água e conseguia provocar pressão e assim projectar as agulhas para empalar as lagartixas nos muros a perder a cal.  Sim, isso mesmo. Mas os nossos globos oculares estão todos intactos. Parece impossível, mas é verdade.


No entanto o Zé Russo era um tretas, um sobrevivente, um desenrascado para além do que talvez me fosse possível pensar. Embora visse bem o que ele tinha de fazer, e a minha mãe, em várias ocasiões, lhe tivesse dado lanche e não só, havia algo na sua natureza que se mantinha intocado. O Zé Russo era um miúdo mentiroso, manipulador, líder natural, absolutamente desenrascado, capaz de sorrir em condições que alguns de nós talvez nem gostem de imaginar, incluindo-me, mas jamais maldoso ou agressivo. Bem pelo contrário. Adorava levar-nos nos seus delírios e encantar-nos com as suas histórias largamente erradas mas tão deliciosas e convincentes. Viva connosco e nós através dele. Talvez porque agora sinta que as histórias que ele contava, por mais inventadas que fossem, afinal eram reais. Eram produto da sua resiliência, daquilo que ele sabia que jamais o derrubaria, como jamais alguém denunciaria os deliciosos erros factuais das suas histórias, ainda que naquela altura soubesse como. Tendo a mania de ler desde muito cedo, eu sabia que muitas coisas que ele contava estavam erradas, mas nunca contestei. Porque queria que as histórias dele estivessem certas. Desejava ardentemente que o tipo que escrevera aquele livro ou artigo que lera em casa estivesse errado, que afinal não sabia nada, porque nunca perguntara ao Zé Russo como as coisas realmente eram. E o topete que tinham aqueles que não sabiam perguntar as coisas ao nosso sábio.


Metade dos habitantes (então) jovens da minha rua, para não dizer mais de 70%, foram ceifados pela heroína, ou qualquer outra coisa. Seria de pensar que que o Zé Russo fosse um daqueles que encabeçasse as fileiras da transgressão e mesmo mortalidade. Alguns dos rapazes que brincaram comigo e jogaram à bola ao lado de um campo de silvas, estão mortos. Outros talvez desejassem estar. Outros desapareceram. Uma delas, colega de escola preparatória, passou de uma crista punk de cor verde a vestidinhos compostos de “soccer mom”. A M.J. era uma miúda muito engraçada, dona de um nariz proeminente e voz feral, mas tinha uns olhos meigos. Imagino que tenha escapado por pouco. Mas nunca com a graça ou o senso de vitoria do Zé Russo. O contador de histórias e feitos das nossas pequenas aventuras foi avistado pela minha mãe, há uns meses atrás. O cabelo loiro, a tez pálida e os olhos azuis quase transparentes estavam lá. Levava um dos seus pequenos pela mão, dono da mesma expressão sempre semi sorridente e traquina, mesmo na face de um homem de quarenta e um anos, a quem a vida tinha castigado de forma significativa. Viu a minha mãe e sorriu-lhe. Sorriu com o reconhecimento de uma vida inteira que passara, como fazemos a algo que jamais sai da nossa memória, mesmo que não figure do quotidiano dos nossos pensamentos ou recordações mais prementes.


A minha mãe ficou muito contente. O Zé Russo era um homem que escapara a todas as armadilhas, resistira a tudo, mas também fizera e vira (quase) tudo. Estava bem, foi a expressão que a minha mãe usou. Atravessara uma infância e adolescência de fome e toda a serie de riscos e chegara ali, a qualquer lado onde se construíra e pertencia. A minha mãe ficou contente, e eu também. Talvez porque em meio a tantos futuros que não se adivinhavam ou se davam por mortos, surgia algo que ultrapassara as piores histórias, nunca nos fazendo esquecer aquilo que fora uma vida difícil, dura, mas salva por uma imaginação prolífera, uma resiliência talvez escapista, mas que certamente o salvou perante as piores opções. As lições de vida de um verdadeiro sobrevivente, as quais me dizem de forma terrivelmente simples que mesmo as armadilhas mais subtis são visíveis.


O Zé Russo talvez tenha sido o primeiro personagem em qualquer história que tenha escrito. Mesmo que jamais me tenha referido a ele directamente. E é muito engraçado ver uma personagem a viver bem para além de nós. Num mundo que não deveu a ninguém sem ser a ele mesmo.


Ainda me lembro que saltei de um segundo andar, baixo é certo, para um monte de areia, num cenário de construção sem qualquer guarda, numa época em que isso era considerado um disparate ou desperdício. Mas recordo que o Zé era sempre o primeiro a fazer tudo. E a contar todas as histórias.


Estou muito feliz por ele, onde quer que esteja.



segunda-feira, maio 27, 2013


Eu sabia que ele não tinha desistido. Sabia. Não era possível. Era legível, estava em cada gesto e em cada negação trapalhona e incapaz de convencer uma criança de quatro anos. Eu sabia que ele não tinha desistido, mesmo que o reiterasse em alto e bom som, como uma espécie de bravata que os olhos desmentiam com facilidade. O desejo, assim como a nostalgia imorredoura, não ligam absolutamente nada ao que nos sai da boca. Preferem dar brilhos e expressões aos olhos que se tornam são o epíteto da denúncia.


Sabia que as mensagens de telemóvel eram escritas até com outro ritmo. Que o segredo que ele guardava consigo era feito da matéria que são todos os segredos reais, ou seja, simultaneamente corrosiva e orientadora.


Falava com ele e a negação saía com um sorriso cansado. As palavras eram veementes, mas nunca as dava por terminadas sem admitir que o final que aceitara era um imperativo lógico próprio da forma como tinha de viver a sua vida. Esse imperativo falava de um controlo que ele não possuía, e que ornamentava a sua bravata afectiva como talha dourada faria a algo com pretensões a ouro.


Custava-me vê-lo assim. Sabia que a verdade a que ele se agarrava era aquela. À que ainda se agarra. Mas também sei que em cada gesto que ele tem, há aquele desejo de denúncia próprio de quem em tempos tudo sabotou para que destruíssem por ele. Há simplesmente quem não suporte o amor na sua vertente cambiante, errática, caótica e extraordinariamente perigosa. Há, assim, quem não se suporte a si mesmo. E teime. Como ele teima.


Custa-me vê-lo assim. Porque provavelmente ele não se vê.

  



A Linha – parte I


Há um anúncio a uma marca de produtos de telecomunicações que fala numa linha que separa o essencial do resto. A tal linha que não se cruza. Aquela que todos temos como certa, mesmo que lhe desconheçamos a morfologia. Essa linha, dizem, pode ser elástica. E é verdade. Pode ser tão elástica como a forma que arranjamos de a suportar mais à frente ou mais atrás. É tão móvel como a nossa percepção das realidades feitas  a pele interna, e não a um olho externamente objectivo, e por isso, talvez possuidor de uma melhor mão no que diz respeito ao desenho do contorno real das coisas.


O problema dessa linha é que ela bule com a esperança. Pode bem ser a história da forma irresistível que se confronta com o objecto inamovível. Podem ser os extremos de uma pessoa a reconhecer-se, e a certa altura, verificarem da sua mais que previsível incapacidade coexistirem. Essa dialéctica pode dilacerar-nos ao ponto do impensável, porque talvez puxem pelas duas tendências mais extremas de cada um, e o que é pior, é que mesmo dentro da pessoa, ambas podem estar certas. Como? Porque esperar pelo melhor e saber que não conseguiremos suportar tudo são as escoras por onde toda a nossa água incontrolável anda, em ondas, em repelões, em remoinhos, em tremendas e contraditórias correntes.


Num filme meio parvo que vi no outro dia, mas que se inspirava numa obra maior (Sensibilidade e Bom Senso – Janeu Austen), as personagens, cada uma delas meio tonta depois de sofrer a sua respectiva castanhada afectiva, falavam desassombradas das atitudes possíveis num cenário de perda ou ganho.   


“Por vezes é necessário entrar num jogo, mesmo que saibamos que o vamos perder.”


Ao que outra personagem responde.


“E se não jogamos precisamente porque sabemos que o mais provável é ganhar?”


Embora não sejam exactamente estas as oposições a que me refiro, a verdade é que o movimento percepção versus esperança coloca as mais complicadas das questões, as mais arrevesadas das teimosias, e, sobretudo, é sempre, mas sempre produto de uma qualquer fractura. Seja porque nos salvamos, seja porque ficamos perenemente marcados.


A linha pode até ser elástica, mas há uma altura em que a elasticidade é apenas forçada por uma esperança afectiva que, como qualquer animal em situação muito séria, lutará acima de si, até apoiado numa força que se calhar não tem, porque ao não ter nada a perder, ainda assim se recusa a perder tudo. Não aceita, tem dentes, morde, sangra, e move-se. A tal linha parece, por isso mesmo elástica, mas no fim, todos sabemos o que fizemos, e acima de tudo, o que a linha cerca. A linha intransponível cerca o único mundo que temos. E não aceita anexação hostil. Não pode sequer. Como água e azeite, esse “dentro” e esse “fora” podem conviver, mas sempre contiguamente. Não são o iguais, e por isso mesmo, não se podem confundir em si mesmos. E ainda assim tentam. E ainda assim recusam as fronteiras que nada mais são que a definição do que pode viver mas raramente sobrevive.


A tal linha não é elástica. Elástica é a forma como a vemos. Elástica é a capacidade de teimar numa interpretação de factos tão dolorosamente claros, que a incredulidade da capacidade de desejar se atreve a colocá-los em causa. Elástico é querer à força, querer para além da morte porque não se consegue crer nela. Essa elasticidade é mágica, e produz algumas das mais bonitas formas de sentir e agir que consigo imaginar. A raiva, dor e desejo que daí saem são tão profundamente intensas e verdadeiras, que não podemos deixar de as ouvir e sentir o coração apertar nem que seja em respeito. Ou talvez porque o som de um a partir nos seja familiar a todos, e por isso mesmo, há sempre a esperança que de uma próxima vez seja diferente. Estúpido, é verdade, mas absolutamente inevitável. Setenta por cento das possíveis formas de amor não sobreviveriam sem isso. Pouco haveria a esperar. Ou a poder consertar-se com a possibilidade dos tais terrenos poderem confundir-se entre si.


No gume dessa lâmina, estão os piores e mais profundos golpes, paredes meias com a ideia de salvação, seja ela qual for, ou seja qual for o formato e sofisticação da mentira que nega a necessidade da sua existência. A verdade é que a tal linha está lá. E podemos nunca a cruzar. Podem nunca a pisar. Mas ela não se move. Não se desloca. E só é elástica enquanto conseguirmos não vê-la ou ouvi-la porque o desejo é tremendamente opaco e nós gritamos demasiado alto.


Há uma linha que separa as doenças do coração do rasgar irreparável do mesmo. E sabemos o que ela é, ainda que nunca tenhamos de a invocar, ou perder tudo porque ela foi pisada.


Há uma linha que nos separa do mundo. É precisamente aquela que o contorna. Se tivermos muita, mas muita sorte, não o veremos morrer pisoteado. E este é aquele tipo de sorte que definitivamente não se faz. E que pouquíssimas vezes se tem. 

 


sexta-feira, maio 24, 2013


Sei que teimo em entender uma série de coisas por força de algo que tenho, mas supostamente não se deve ter. Sei que temerei muito menos aquilo que ao menos conseguir perceber. Nem que seja minimamente. Nem que seja por um instante.


Por vezes o medo, ou alguma forma de incompreensão, surge como um instinto. Vejo, ouço ou como que adivinho uma pequena nevoa que não se dissipa, e isso leva-me a tentar desmontar as suas moléculas. Se for vapor de água e não um mini-espectro perdido, lá está, torna-se tudo muito mais fácil.


Tentar entender, por força do medo, ao invés de reagir, é a defesa de um estado de abrangência ou acolhimento. Assim, deixamos para trás aquilo que optámos não ter precisamente porque ao perceber o que era, isso, ou nós, são capazes de uma decisão que podem explicar. A quem? A si próprios, como é evidente. 


Ao tentar perceber, levo estupidamente a peito. O quê? Muita coisa. Demasiada. Mas levo. Que fazer? Levo a peito porque trago comigo a tal importância que também não consigo deixar de dar. E aí, a dificuldade em explicar é toda minha, porque se posso passar bem alguns conceitos, a razão pelas quais eles se agigantam já é quase tanto um mistério para mim como para quem se confronta com isso.


No fundo, tento entender porque domo mal a minha capacidade de desconsiderar. Se bem que melhorei muito. Evita-me, em certa medida, agruras com a sensibilidade, já escudada com uma lucidez que aprimora o prato bom da balança até que eu o possa ver tão perto, e o outro possa ignorá-lo por tão longe que se encontra.


Teimo em dissecar porque mesmo na defesa das minhas “inexplicabilidades”, tenho de arranjar uma tentativa de pelo menos as metaforizar. De lhes dar um corpo. Porque, em muitos casos, são o que tenho para dar, porque são aquilo que sou.


E o melhor mesmo é que consigo aprender. Consigo mesmo. E isso acaba por ser em si, uma explicação. Uma paz.








A lucidez é algo que, como a sua ausência, surge sem que nada a anuncie especialmente, mas talvez tudo a peça. Ao contrário do que é muitas vezes pensado, conseguir pensar tem uma dupla valência. Os efeitos dessa valência podem ser bilaterais, de polos diferenciados de valoração, mas aquela raras vezes é má. Ou pelo menos completa ou predominantemente má.

A lucidez é um pouco como esta benfazeja pomada que coloquei hoje nos meus lábios completamente gretados e feridos, depois de quatro dias com cortes que não saravam. Primeiro o alívio. Depois a capacidade de desfrutar da (nova) realidade. E depois ainda as possibilidades que daí advêm.

Existem as tentativas de organização. Os meios caminhos. O que lá fica. Os encontros e acordos a meio da ponte e a saciedade luzidia de ver a água translucida a correr lá em baixo, como um caminho que finalmente nos levará algures. E esse algures é evolutivo. É a vida que temos, mas especial e felizmente, talvez aquela que possamos ter. Quando conseguimos (também) pensar nela. Quando a conseguimos viver.

Sol...
(foto: Rodney Smith)
 

quinta-feira, maio 23, 2013


“The only joy in the world is to begin. It is good to be alive because living is beginning, always, every moment. When this sensation is lacking—as when one is in prison, or ill, or stupid, or when living has become a habit—one might as well be dead.”

CESARE PAVESE, This Business of Living, Nov. 23, 1937
 
A ideia de renovação e recomeço, ou mesmo início não é desconhecida. É certamente algo comum na mente da maioria das pessoas o gozo de encontrar ou reencontrar uma novidade que cria entusiasmo. Melhor ainda, depararmo-nos com a reinvenção que mais parece um desejo nunca tido do que este ultimo em novidade feita de maturidade transformadora.

Os começos, em meu modesto ver, são afastamentos de véus. Os começos são como as listas reflectoras nas bermas das estradas. Indicam qualquer coisa, dependendo apenas da potência dos faróis que as iluminam. Mas ao vê-las, damos connosco a pensar que, de facto, pelo menos estamos a ir algures. Estamos a ir. A bússola não é nossa, mas emprestaram-na nem que seja por um pequeno pedaço de tempo. O melhor é aproveitar ao máximo a ajuda.

Sem começos, sem a ideia de algo a seguir, perseguir ou construir, há a imobilidade. A morte, por natureza, é a ausência. Neste caso, das várias metáforas de morte, posso perfeitamente escolher a que a indica como a ausência de movimento, pela inexistência sequer de uma ameaça de trilho.

A complexidade das pessoas, que tantas vezes nos assombra como entristece, é uma lanterna no túnel da mina. Vê-se pouco. Teme-se a derrocada dos calhaus de meia tonelada. Mas há ali mais uma passada possível. Há ali mais uma pergunta a fazer. Há mais uma sensação de vida a ter, porque de alguma forma o que existe não é passável, não é apenas suportável, não é cálido ou meramente neutro. Começa-se quando se começa a tentar entender. Quando se começa a tentar ver os encaixes, mal sabendo que o nosso puzzle se desconjunta um pouco à medida que o vamos fazendo, tornando a tarefa a que nos propomos, por mero desejo, igualmente inconcretizável.

Mas talvez esteja aí a graça. O crescimento. Começos e não apenas continuidade. Porque sem a percepção de algo mais a ver, a atalhar, a simplesmente reposicionar na forma de pensarmos sobre algo ou alguém, tudo se torna um hábito. E como diz PAVESE, aí sim, mais vale estar morto. Mesmo que não o pensássemos, já era um caso clássico de algo que antes de o ser, já era.





 



TENHO MEDO DAS MULHERES.

Parte I(??)

Tenho medo das mulheres.

Está decidido.

Não que isso seja uma novidade. De facto, não o é. Mas cada vez que chego a esta conclusão é uma ideia renovada. Tenho medo das mulheres. Tenho medo porque embora vivam dentro da verdade em muitas ocasiões, provavelmente mais do que os homens, a realidade dos factos que são delas mudam, conforme o vento lhes muda as franjas do cabelo na testa ou um fenómeno sensível numa improbabilidade do mundo lhes reorganiza a estratégia que nem tinham.

Tenho medo das mulheres porque, embora não seja, talvez, verdade, parecem poder ir a qualquer momento e por qualquer motivo. Temo-as porque ouvem os seu próprios gritos desde um período bem mais tenro da vida que aquele em que comecei a ouvir os meus. E assim, cansadas mas conscientes de si, não têm hesitações naquilo que realmente querem. Temo-as, porque a certa altura farão aquilo que bem entenderem, por pior que seja a explicação, por mais complicada que seja a consequência. As mulheres são de facto mais “fieis” que os homens. A si mesmas. Nada mais nem nada menos que isso. Em última análise, nada as deterá porque nem conseguem entender porque não são capazes de se deter a si mesmas. Mesmo quando querem. Talvez especialmente quando o querem fazer. É como se não conseguissem ultrajar a força da honestidade com que se respeitam pelo que realmente são.

Tenho medo das mulheres. Sei o que são capazes de criar, o que podem desfazer, e a forma como se podem evadir de um terreno terraplanado com a graça com que lá chegaram. Assim como levam os seus amores a sério, as suas destruições não são para brincadeiras. As suas manipulações são como uma sábia colocação de explosivos num prédio ainda aparentemente robusto. A força da dita fragilidade, associada a uma clara percepção de qual é o caminho, porque não estão fascinadas connosco como nós com elas, é do mais terríveis paradoxos da existência, e raramente lhe escapamos.

Tenho medo das mulheres mesmo quando são burras ou pusilânimes, porque ainda assim, as mulheres sabem exactamente onde andamos. Estamos perdidos. Elas fingem desnorte. Sabem que todos os nossos ruídos, gestos danças atrapalhadas são, em grande parte, por causa delas, por causa daquilo que nos fascina e teimam em não deixar entender. Talvez por piedade, sei lá. Talvez fosse bem pior se o deixassem. Teríamos de reagir em conformidade. E elas tornar-se-iam ainda mais temíveis.

Tenho medo das mulheres porque são capazes. Do melhor e do pior. E de ambos, disto mesmo nos intermédios.

Tenho medo das mulheres porque sei que só ouvem quando querem, só aceitam quando sentem, só constroem quando não podem evitar fazê-lo. Porque esperam que a liberdade que respira da sua capacidade possa de alguma forma ser aceite por todas as mecânicas do desejo, e que na impossibilidade disto mesmo reside muito do poder delas.

Tenho medo das mulheres porque manipulam mesmo pelos bons motivos. A maior parte das vezes, talvez mesmo apenas por esses. Porque sabem mais da morte, do amor, da perda, da resiliência, e têm pouca pachorra para ensinar. Porque a sua pedagogia está num reconhecimento de capacidade que esperam de outros, e a sua paciência é infinda quando percebem que isso pode brotar, não importa o custo.

Tenho medo das mulheres porque lhes escrevi muito e raramente recebi uma letra que fosse. Tenho medo, porque, ainda assim, elas conseguiam dizer muito mais coisas que eu. Até mesmo aquelas que nem sabiam estar a proferir ou emitir.

Tenho medo das mulheres porque não precisam do pedestal que, em algumas ocasiões, e ainda assim, lhes faço. Tenho medo das mulheres porque no assombramento de um amor de rendição parecem, ainda assim, belas porque livres. Tenho medo de algumas mulheres porque escolhem amar-me e raramente entendo o porquê. E ao buscá-lo, a sua escolha é dada numa bandeja feita de vidro translucido, mostrando que a dureza do chão pode estar logo ali.

Tenho medo das mulheres porque as endeusamos ao mesmo tempo que elas nos humanizam. Tenho medo das mulheres não quando me escapam, mas quando eu as deixo escapar. Tenho medo das mulheres porque amo o que não lhes entendo e me apaixono apenas pelo que vou percebendo.

Tenho medo das mulheres porque são elas.

Tenho medo das mulheres.

Está decidido.
 

 


























 
«Kodiak bears are naturally diurnal, but when faced with competition, they can become more nocturnal. Yet the Kodiak bear is one that is very active during the daylight hours. Sometimes they will also be moving around at night but not often. They are very solitary in nature but they do not defend territories.
 
The females have a smaller range that they travel and it can often overlap that of males. Generally these types of relationships are fine and the males will ignore these females. There is only a problem when the supply of food available is low. Then the males will want to keep their territories all to themselves as well as the food that is found within it.
 
Many people are confused when they read that Kodiak Bears live alone as they have seen them in the wild in groups or in photos. What is very interesting is that they will tolerate each other when they have to. For example when there is ample food in one given location but not in others. They are intelligent enough to learn to get the food they need by working together than to starve. This is a very interesting concept that researchers are still looking into further.
 
 
Kodiak bears are very tolerant of human beings and try to ignore them as much as possible. They are much less violent than other coastal brown bears and mainland grizzly bears. They will not stalk humans like a black bear might. In fact over the last 100 years or so there have only been two recorded cases of bear fatalities on Kodiak island. Kodiak bears do not eat human beings like other coastal brown bears in the mainland.
 
This being said Kodiak bears do not like humans and you can't pet them. Most Kodiak bears will turn around if they see humans and run away. If you corner a bear, particularly a sow with cubs you better watch out because she will fight you if she feels threatened. She will also fight to the death if a male tries to harm her young.
 
Many Kodiak bears located near the city of Kodiak are well adjusted to being around humans and normally are on their best behavior. There are times where a Kodiak bear will try to share your fishing spot with you and might even help himself to your catch. They are more interested in the fish than you. Unfortunately many local bears die at the hands of an inexperience woodsman who runs into a bear and starts shooting. This is usually unnecessary.
 
There is a well documented story in the recent past here of an intoxicated man stumbling into a sow and her cubs in the woods where he was wandering. He got too close to the sow and she basically tackled him and held him down while her cubs scampered away. She then let the guy go without biting him. What does that tell you about a Kodiak bear.
 
Up to a quarter of the male bears will not hibernate if it is warm enough and there is a food source nearby. So does a Kodiak bear have a good temper? Not necessarily. They have just learned to coexist with their human counterparts. Probably better than we have.»
 
 
 

 

[A primeira coisa que me ocorre dizer é...
PORQUE É QUE ELA NÃO ACEITA O CASACO??
A segunda é...
E SE FOSSE ELA QUE TIVESSE CARA DE COYOTE???
(e sinceramente não me venham chatear a cabeça com a ideia de que as mulheres olham para além das pessoas, que nem vou entrar nesse politicamente correcto)]
 
Mas isso não interessa.
O que me interessa aqui é a música, que é bem boa, o vídeo, que é ternurento, e sobretudo uma visualização singela daquilo que são coisas dadas ou oferecidas pelo simples desejo de o fazer, porque por vezes, por razões que assistem à forma como somos, ou nos construímos, apesar de toda a pancada possível, ainda conseguimos ser porque somos para além de nós. Porque sentimos coisas curiosas, engraçadas, meio parvas, mas que nos reformulam uma série de certezas.
Talvez não possamos viver assim, é verdade, o que pode ser uma pena.
Mas deixar que isso, ao menos internamente, viva e produza pequenos hiatos de fantasia consolada, é um dos ganhos de conseguir viver "apesar de".
Sim, apesar de. Apesar de nós próprios.
Apesar de não encaixarmos no contexto onde vivemos, é sempre bom sentir que, de certa forma, não se deixa de tentar porque se consegue arranjar propostas de refutação.
A teimosia também é vida. Ainda que interna, ainda que não nos safe.
Talvez por causa disso, diriam alguns...




quarta-feira, maio 22, 2013

 
"Em qualquer circunstância, julgo que o pior que podem fazer é deixar-me descansar. Deixar que me habitue a um status quo e posteriormente o triture como um simples estado de acalmia. O amorfismo pode ser terrivelmente violento.  A não defesa uma agressão.  
Em qualquer situação julgo que o pior que pode acontecer é deixarem-me aceitar. Deixarem que aceite como algo que é normal, que é ajustado, que se enquadra, sem que a realidade se mexa como talvez devesse. É deixarem que a coisa, por sua vez, deixe de fazer uma diferença. É deixar que a urgência se perca. é deixar que eu não me perca à procura de respostas, enquanto busco a criatividade de razões para fazer coisas, agregar pessoas, fazer pelo gosto de fazer, de ver algo onde nada havia.
Em qualquer circunstância o pior é deixar-me descansar. Deixar-me aceitar. Deixar com que morra um fogo seja de argumentação seja de resistência. O pior é deixarem-me morrer e continuar vivo. É que algo morto não cresce, especialmente não para fora de si e muito menos para fora ou apesar dos outros. O pior é deixarem-me morrer porque a morte é contagiosa." - Algures em 2011
 
 
 



terça-feira, maio 21, 2013


Não tenho máximas para as vergonhas nos impulso do sangue.
Nem soluções.
Tenho sim, curiosidades.
Limites?
Veremos.

Tudo pode ser definido em instantes. Aquilo que é importante, que pode mudar o curso de uma vida num ápice, pode também aceitar modulações. Após uma crise significativa pode instalar-se uma calma estranha e abrangente. Parece que, mesmo em meio a determinada tristeza ou baixa de humor, pode surgir uma posteridade que filtra a vida que vivemos com a nitidez cortante de uma manhã soalheira mas fria de Inverno. É, afinal, como se pudéssemos ver cada detalhe, cada ruga de pele nos rostos que passam, cada estalido do mecanismo a descarregar cada minuto que já não volta. É, afinal, um ganho. Ou melhor, um reganhar. Ou um reposicionamento. Ou um novo olhar, um novo par de óculos, uma nova conclusão acerca de determinadas ingenuidades que ainda não havíamos assassinado e que, de alguma forma, até podem trazer a promessa de outras.

Forçadas ou não, as aterragens têm uma dupla valência. Como já vimos o terreno lá de cima, sabemos melhor onde pisar. E como as asas não se vão, percebemos que talvez possamos voltar a levantar voo. Ganhar liberdade assim é duro, e acima de tudo, quase uma cauterização. Mas é no valor de um modelo de desencanto adaptado que está a possibilidade de redescobrir, plantar, ou simplesmente exaurir um terreno. É sempre mais fácil ver alternativas em dias de sol. Guardando algo absolutamente em nós, sabemos que é nas suas formatações que estamos, chegamos, ou pertencemos ao que tiver de ser.

É assim. Sabemo-lo antes de o formularmos. E perseguimo-lo. Mesmo que o percamos.

É assim.

 


 



segunda-feira, maio 20, 2013

Suporto perfeitamente a solidão, mas quando a sei como tal.
Os seus abastardamentos são como morrer exangue, em lentidão. E eu tenho pouca pachorra para dores em crescendo, ameaças cada vez mais sérias, fotogramas de finais a meio do filme.
Uma coisa completamente diferente são aquelas feridas sérias, mas não mortais. Há algo no endurance calmo de uma possibilidade de reconstrução que talvez valha todo o tempo do mundo.
Não há ilusão sem possibilidade de verdade, por mais remota que seja.
Na maior parte dos casos, quando se é ingénuo intencionalmente, não se honra nem a inocência nem a possível beleza daquela verdade que pode ou não suceder. Não se honra nada. É apenas viver ligado a uma máquina, sem testamento vital que sequer os safe daquilo que se atrevem a fingir. É brincar á cabra cega sem venda ou ao quarto escuro com lente de contacto de infravermelhos.
Ninguém sabe, mas não é necessário. Quem vê, passa assim a desconhecer.  
Quem sabe, sabe também que numa cegueira parcial há toda a visão possível. Aquela que nos diz para onde realmente podemos ir. Já não sós. Claro. Porque pode ser a única forma de cegueira não degenerativa. Para melhor ou pior, passaremos a ver.
Ou é solidão, ou não é.
E a partir daí, aí sim, logo decidimos.




Acabei mais uma história.
Dito assim, parece uma coisa inconsequente. no fundo talvez seja. Não há paradas e o mundo continua a girar e como dizia S. King, um bilião e meio de chineses não se poderiam estar mais a borrifar para o caso.
Mas acabar uma história tem algo que se lhe diga. Para mim é sempre um misto de alívio, alegria e angústia. vivo com aquelas personagens durante algum tempo. Em alguns casos, foram meses. E sei que elas não voltam, que não mais poderei "brincar" com a vida delas (que graça, como se não fosse a história que desse as ordens), nunca mais poderei sentar-me com elas dentro da sua central de pensamentos e saber exactamente o que as atormenta ou o que lhes causou um sorriso real.
É bom ver algo terminado. Ver que algum destino foi dado a uma visão que tive, a uma pequena alucinação através da qual me atrevi a mandar um par de buchas acerca de qualquer coisa numa realidade meio criada meio abastardada do "meu" real.
Com esta história termina o segundo livro de contos e short-stories. Mais duzentas páginas. Mais um punhado de tormentos, anseios ou simples vontade de contar algo.
Agora, estalar os dedos e venha a próxima.
(e já agora, convém rever as já terminadas para enviar algo decente para começar a colecionar as simpáticas cartas de rejeição...)
 
 
 

sexta-feira, maio 17, 2013

 
Não ganhaste.
Venci eu, espero.
Não ganhei a ninguém. Venci-me. Talvez de forma irrecuperável, talvez apenas para conhecer um buraco que se devora em profundidade.
Não sei o que fazes. Não sei bem o que fazer.
Sei pedir, sei que quero, sei que estendo os braços, e a calma não se compadece com o vazio. Sou injusto? Talvez. Desfaço-me nas desculpas que sei que não consigo dar. Dou o que tenho e sei que não posso fazer outra coisa. Porque não tenho outra coisa. E já esta é o que é
Não ganhaste.
Simplesmente provaste, através de acções que não são tuas, que o mundo pode ser uma tremenda e escura ameaça, mesmo quando deve ser bom.
Mostraste que de facto muitas coisas não fazem sentido, e que a mortalidade da esperança que temos num pequeno sentido, é tão arrasadora como o desejo que temos de a ver concretizada.
Perdi. Perdi eu.
Perdi a inocência estúpida que não tinha razão para ter. Recusei o pragmatismo ausente por receio, o que é a mesma coisa que dizer que não tenho qualquer lanterna. Talvez nem a tua. Talvez nunca a tenha tido.
Não ganhaste.
Mas está escuro. Não devia, mas está muito escuro.
E a partir daí já não sei nada. Já nada vejo.
 
 

segunda-feira, maio 06, 2013

As personagens recomeçam hoje a ter o seu destino.
Algumas morrerão, outras nem por isso.
Haverá destinos. Caminhos. Direcções.
E foi a última ameaça que permiti.
A última.

terça-feira, abril 30, 2013


Há uma certa ideia de que as coisas se tornam naquilo em que ficaram no seu último momento. O que faz algum sentido, já que foi esse momento que o tornou decisivo e levou à desagregação do mesmo. Se não resultou, é porque não prestava, se não deu lucro, é porque a qualidade falhava, etc.

Ora este discurso é, pelo menos, algo falacioso. E até algo desonesto, já que presume que as visões sobre os fenómenos são uniformes, o que é um disparate, ou que haja a justificação de um desforço, o que é, no mínimo, deselegante.

As situações são feitas de várias componentes, boas e más, a não ser que sejam em si uma desgraça desde o momento originário. E negar isso é um pouco fazer com que a pessoa se negue a si, quase como se desmentisse aquilo que ela era, e por inerência, acaba por ainda ser. A não ser que a pessoa não fosse tal coisa, e aí a auto-evidência da resposta dispensa quaisquer dúvidas adicionais. É como tentar atarraxar uma perna de mesa a uma bicicleta. Só o gesto é incompreensível, mas auto-explicativo por isso mesmo.

No fundo esta vertente é facilitadora. Porque se cremos na nossa verdade, no que vimos, no que fizemos, e porque acreditámos a certa altura, foi porque nos pareceu certo, porque nos trouxe uma vertente de querer que se transformou em acreditar. Entrando a segunda em falência, a primeira sufoca. Como algumas moléculas, pode até conseguir mudar de estado. Mas ainda assim é água. Ainda assim éramos nós. Ainda assim, a certa altura, fizemos justiça ao que, por parecer maior que nós, nos levou a direcionar o que conseguíamos porque o que fazia sentido estava ali, naquele instante, naquela circunstância. Cair do alto desse balão provoca lesões complicadas, cicatrizes que nunca mais fenecem, ainda que possamos esquecer os perpetradores. Mas enquanto voávamos era bom. E talvez quando comparadas a outras situações, algumas daquelas sejam como banhos que queimam necessariamente para que saibamos da bondade dos conceitos, ainda que os destinatários se tenham tornado impossíveis. É por isso que a certa altura, algumas coisas não eram de facto feitas da maldade em que se revelaram. Nem que seja apenas porque cremos nisso. Mesmo quando não resta mais nada. Mesmo quando pode afinal surgir tudo.

segunda-feira, abril 08, 2013

 
Sendo que esta é a minha casa, e estou há 13 horas agarrado a um computador e ao powerpoint e centenas de pdf, e como o cansaço não é dos melhores conselheiros, e sinceramente também não me interessa qualquer espécie de escrutínio porque já via a utilidade que tal coisa tem, mais vale dar uns gritos e fazer pequenas reflexões sobre aquilo que é um olhar critico sobre a nossa vida. E o que é que se vê?
Os últimos anos de trabalho, de esforço, de um olhar vá, pelo menos aberto a hipóteses, a conjunturas mais plenas de uma porcaria de um raio de sol que teima em não aparecer, ou se aparece, vem gelado. Aquilo que constanto da natureza humana é que ela não me faz sentido algum, e parece mais sesnato sair dela, despindo tudo ao osso em cima do qual se escrevem as perguntas sem resposta, a essência contingente da vida onde a desconstrução pode surgir com um abraço ou simplesmente ser negada.
A natureza humana chateia-me demasiado com as suas ambiguidades, as suas bipolaridades que mais podem é ir, secretário de estado dixit, tomar no cu mas pelo menos que eu não me chateie tanto a mim, que não me aborreçam tanto as minhas parvoíces, as coisas pequenas que me parecem grandes e aquilo que não tenho senão opção de guardar cá dentro, cravadas a sangue por colheres rombas ou dedos sem sangue.
É uma merda reencontrar-me no desassossego, um pouco como aqueles tipos que só encontram os papéis no meio da confusão. É uma coisa de abjecção egada a ausência de desgraça mas que se sente assim, o túnel longo das minhas percepções, aquilo de que quero gritar ao céu, mesmo sabendo-o escuro, fechado, embalado pela total noção de que nada é nada, e que se o sentirmos, então é tudo. Amar com a cabeça e pensar com o coração, que ditame, que brilhantez desolada no meio das conclusões a que teimo em não chegar.
Chega-te para lá, digo-me.
Povoas-me demasiado. Povoo-me demasiado.
Chega.
 

quarta-feira, abril 03, 2013


«O amor não é (só) uma coisa bonita. Em primeiro lugar não é uma coisa. Mas é então o quê? Um conceito? Bem, se assim fosse, era minimamente definível, por muitas que fossem as premissas. Bem, assim sendo, é algo. Mas quando nos referimos a ele, há um reconhecimento genérico, portanto parece mais um conceito. Mas é universal? Bem, tenho dúvidas. Para deter universalidade, teria de conter uma ideia de pré-reconhecimento, e esta é mais uma antecâmara e verificação do próprio amor do que a sua definição. Os amantes, palavra correcta que infelizmente é utilizada de forma diversa no nosso léxico corrente, amam também porque se sentem em casa, e pela multiplicidade de questões adivinhadas num contexto onde a pele acaba por ajudar às respostas. Lá está o reconhecimento, o desejo do sabor do saber antes de saber. Portanto será o quê? Um paradigma? Mas de quê? De emoção? Uma coisa é quase certa. O amor não é um exemplo para nada. Face às outras emoções, é o tio fixe que anda de Harley ou a prima maluca que faz couch surfing nas casas da família inteira enquanto consegue convencer toda a gente a comprar o que parece artesanato mal amanhado. É como uma empresa que fecha num dia e abre no seguinte com outro nome, mas por falência mais externa do que interna, porque o objecto da sua actividade, em alguns casos, nunca cessa. Então vamos lá ver. O que é? É bonito? Gaita, passamos dos nomes aos adjectivos, mas deixa lá ver. Se pensarmos bem, um incêndio florestal, um maremoto ou um predador em pleno ataque têm a sua beleza agreste e terrível. Assim como as histórias e imagens que não dão murros no estômago com a pior forma de denúncia da verdade. Verdade… verdade… isto já me soa melhor. Se calhar estamos a chegar a qualquer lado. Será um estado? Mas estado como? As pessoas encontram-se a certa altura em estado amoroso? Como as moléculas? Talvez. Talvez as pessoas, ao amarem, se encontrem num estado muito peculiar, porque muitos denunciam uma vida dentro da vida, como moléculas aparentemente similares que reagem de formas diferentes quando a naturalidade dos processos não o determinaria. Como se ao ferver o leite, ele gelasse. Ou o contrário. É um estado? Talvez. Mas ao qual nunca se chega se se tiver sorte… ou pensando bem, azar, portanto como vêm, não pode ser apenas um estado. Será uma atitude? Então é possivelmente o pior de todos os designativos, porque as atitudes tidas, uma vez em “estado-amor”, reforçam qualquer teoria da borboleta em Pequim. Vão das que geram vida às que provocam morte. Não é uma atitude, assim como o vento não sopra sempre na direcção do mesmo ponto cardeal.

Bolas…

O melhor é mesmo “uma coisa…”

O amor não é uma coisa bonita. Não é só uma coisa bonita, vá lá…. O amor é, como se adivinha por uma ideia de lotaria empática, uma espécie de desejo transferido através do esvaziamento do próprio tornando-se este num siamês do outro, mas sem que este alguma vez lhe pertença. O amor é uma perseguição a um fogo-fátuo que até fala, mas cujo formato é em si uma mensagem escrita por aquela parcela de pensamento escondido atrás da nuca que escolhe a pele e não a boca ou os gestos para se manifestar. O amor não grita com ninguém senão com o seu portador. Mas todos o ouvem. Como uma ameaça velada mas tremenda, o amor vive da sua própria premissa de terror associado à vida que tem por isso mesmo. É esquizoide e caótico, mas, quando existe, tem uma integralidade estrutural inamovível. Portanto… é uma coisa, ou um estado, ou uma emoção, ou uma forma alternativa de energia e o grande fulcro da discussão entre inatismo transcendental e racionalismo mecanicista. No amor ninguém está certo e todos têm razão. Passa-se a mais cruel das fomes enterrado em pão. Só se explica quando não se faz entender. Traz à ideia plena de vida um certo desejo de morrer. É, em parte, a ameaça de uma doença, a vertigem da perda como real pertença. É a queda. E se há água ou granito lá em baixo, não depende de quem cai.»

 
Há tempos comecei esta história, como começara outra em tempos, que consegui acabar. Comecei aquilo que era uma espécie de segundo exorcismo, não tanto de pessoas e tempos, mas de um conceito. Da vivência do mesmo, da tremenda confusão e nó impossível de desatar que são as percepções mistas. Mistas porque a racionalidade luta desesperadamente contra a modulação dessas percepções.

É um pouco como a margem interpretativa do julgador. Se os conceitos são suficientemente ricos, tão diversas serão as suas possíveis interpretações. E mais. Mais variada será a convicção para a interpretação prevendo a aplicação. Parece um bocado parvo desejar que se pudesse antever os efeitos do amor na definição que a pessoa tem, e posteriormente, passa a ter de si. Parece parvo porque além de serem os prognósticos depois do jogo (será isto uma silepse?) mas invertidos, será que permitiria de facto fazer o que seria necessário? Não faço ideia. Por isso mesmo, talvez seja, para já, incapaz de escrever esta história. Porque tudo o que me lembro nela é o que senti, aquilo que me permitiu imaginá-la e reproduzi-la com a clareza de um ditado visual e sensorial. Porque tudo o que me lembro nela é um confronto entre extremos tão díspares, que se diria que nenhuma interpretação será possível porque ao afastar-se tanto das outras, torna-se participante num diálogo de surdos em que se torna a capacidade de sentir e agir perante um determinado cenário de sentir.

Sim, deixo esta história por aqui por várias razões. Duvido que a saiba contar como foi, pelo menos por agora, não sei se alguma vez o saberei, não faço bem ideia do que aconteceu, muito menos do que fui, ou sou, e a teimosia que protege as coisas preciosas que existiram luta selvaticamente com os factos que se empilham. Para exorcismos é necessário saber recitar os textos. Se as letras andam aos saltos de um lado para o outro… temos problemas, como é óbvio. E sorrio ao pensar nisto porque é este o caos e a piada de certas coisas que aquilo a que chamamos vida nos traz, mas é também a noção do quanto ferimos em nós de irrecuperabilidade, e que pode, efectivamente, custar muito caro. E a moeda é o tempo. E o tempo é o único truque mágico que de facto existe… mas não é panaceia. Os agressores e armas podem desaparecer. Normalmente fazem-no. Nem sequer interessam à discussão a certa altura. Mas as cicatrizes ficam. A plástica do real tem limites estreitos e nem o tempo é mais que paliativo.

quarta-feira, fevereiro 20, 2013



A criatividade pode também ser um sinal de cuidado ou atenção. Como? Bem, porque ao conseguir, ou pelo tentar criar-se algo por ou para alguém, há algo autonomamente genesíaco, que no fundo acaba por satisfazer todos os intervenientes.

Julgo que dificilmente haverá algo mais certeiro que prestar real atenção. Ver realmente o que se passa. O que está nos cantos, o que a luz parece não iluminar completamente, completar delírios que não têm a coragem de se fazer em qualquer tipo de voz. E perante isso, cria-se dentro de um mote. O ponto sussurra umas palavras mas tudo o resto pode parecer um paradoxo, um pouco como um improviso decorado.

A procura da originalidade, nos outros, através de algo feito pelo próprio, não é bem uma procura. É uma descoberta. Quem passa por qualquer espécie de musa interpreta um ditado, e o receptor limita-se a ligar as linhas do que se ilumina dentro da cabeça. E não é assim tão difícil uma abordagem diferente. Porque sendo algumas pessoas bem diferentes entre si, e não temerosas ou desinteressadas dessa diferença, a leitura das pistas que lançam permite criar pequenos ou grandes objectos a partir de indicações. Essas indicações nem sabem que o são, mas funcionam como a etiqueta que sai desobediente dos mais variados casacos de solidão confundidos com protecção. É assim que, em alguns casos, as pessoas se sentem realmente tocadas. Talvez naquilo que nem sabem bem expressar nos devidos termos que as satisfaçam.

No inverso desse caminho, há também a necessidade de triar. Mas de o saber fazer. De saber receber o que são as boas perguntas, o que se concretiza na “boa” invasão, no que parece assentar na lógica do que realmente pode ser conhecer sem estragar.

É fácil?

Claro que não. Mas criar é parir. E após parir, é preciso criar para crescer. Ser realmente atento pode salvar algum mundo. Acho eu.

quinta-feira, janeiro 31, 2013


Quando algumas pessoas, que normalmente nos são importantes, determinam que o mais pequeno estilhaço de ambiguidade, ainda que involuntária, se instala no que dizemos ou fazemos, não há dicionário da Porto Editora ou gramática de Lindley de Cintra que consiga comprovar o que a ortografia e sintaxe, pelo menos, também poderia querer dizer. É uma leitura ou audição selectiva. Assenta na perspectiva de que o mais desejado ou temido é afinal o único manual de tradução.

Quem diz, procura explicar. Como não é um manual para montar móveis, tenta traduzir o que vê nublado fazendo algum jus à nevoa que vê. Não há, de todo, qualquer intenção de engano, a não ser que essa fosse a intenção. Mas é precisamente isso que torna a explicação inútil. Porque não acreditarão nela, ou porque acham que ela nem sequer existe.

Há não perceber e não querer perceber. Há desejar um degrau e colocar o pé em cima dele antes de se saber de que é feito. Todas essas acções têm consequências, e um tornozelo lixado porque as escadas são de papelão, magoa quem tenta subir e quem vê. Porque não gosta da dor que vê, nem se conforma com o facto de ser inútil a certeza de que ao pintá-lo de branco raiado, de forma alguma o desejou mármore.

Por isso mais vale retirar as escadas. E esperar que seguidamente se tenha a boa sorte de ir involuntariamente mais além do que afinal se tem capacidade para dizer.

Como não rezo por absoluta convicção, terá de ser por mecanismo de tentativa-erro.