Quando algumas pessoas, que normalmente nos são
importantes, determinam que o mais pequeno estilhaço de ambiguidade, ainda que
involuntária, se instala no que dizemos ou fazemos, não há dicionário da Porto
Editora ou gramática de Lindley de Cintra que consiga comprovar o que a
ortografia e sintaxe, pelo menos, também poderia querer dizer. É uma leitura ou
audição selectiva. Assenta na perspectiva de que o mais desejado ou temido é
afinal o único manual de tradução.
Quem diz, procura explicar. Como não é um
manual para montar móveis, tenta traduzir o que vê nublado fazendo algum jus à nevoa
que vê. Não há, de todo, qualquer intenção de engano, a não ser que essa fosse
a intenção. Mas é precisamente isso que torna a explicação inútil. Porque não
acreditarão nela, ou porque acham que ela nem sequer existe.
Há não perceber e não querer perceber. Há desejar
um degrau e colocar o pé em cima dele antes de se saber de que é feito. Todas essas
acções têm consequências, e um tornozelo lixado porque as escadas são de
papelão, magoa quem tenta subir e quem vê. Porque não gosta da dor que vê, nem
se conforma com o facto de ser inútil a certeza de que ao pintá-lo de branco
raiado, de forma alguma o desejou mármore.
Por isso mais vale retirar as escadas. E
esperar que seguidamente se tenha a boa sorte de ir involuntariamente mais além
do que afinal se tem capacidade para dizer.
Como não rezo por absoluta convicção, terá de
ser por mecanismo de tentativa-erro.
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