A criatividade pode também ser um sinal de cuidado
ou atenção. Como? Bem, porque ao conseguir, ou pelo tentar criar-se algo por ou
para alguém, há algo autonomamente genesíaco, que no fundo acaba por satisfazer
todos os intervenientes.
Julgo que dificilmente haverá algo mais
certeiro que prestar real atenção. Ver realmente o que se passa. O que está nos
cantos, o que a luz parece não iluminar completamente, completar delírios que
não têm a coragem de se fazer em qualquer tipo de voz. E perante isso, cria-se
dentro de um mote. O ponto sussurra umas palavras mas tudo o resto pode parecer
um paradoxo, um pouco como um improviso decorado.
A procura da originalidade, nos outros,
através de algo feito pelo próprio, não é bem uma procura. É uma descoberta. Quem
passa por qualquer espécie de musa interpreta um ditado, e o receptor limita-se
a ligar as linhas do que se ilumina dentro da cabeça. E não é assim tão difícil
uma abordagem diferente. Porque sendo algumas pessoas bem diferentes entre si,
e não temerosas ou desinteressadas dessa diferença, a leitura das pistas que
lançam permite criar pequenos ou grandes objectos a partir de indicações. Essas
indicações nem sabem que o são, mas funcionam como a etiqueta que sai
desobediente dos mais variados casacos de solidão confundidos com protecção. É assim
que, em alguns casos, as pessoas se sentem realmente tocadas. Talvez naquilo
que nem sabem bem expressar nos devidos termos que as satisfaçam.
No inverso desse caminho, há também a
necessidade de triar. Mas de o saber fazer. De saber receber o que são as boas
perguntas, o que se concretiza na “boa” invasão, no que parece assentar na
lógica do que realmente pode ser conhecer sem estragar.
É fácil?
Claro que não. Mas criar é parir. E após
parir, é preciso criar para crescer. Ser realmente atento pode salvar algum
mundo. Acho eu.