"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."
Há
uma certa ideia de que as coisas se tornam naquilo em que ficaram no seu último
momento. O que faz algum sentido, já que foi esse momento que o tornou decisivo
e levou à desagregação do mesmo. Se não resultou, é porque não prestava, se não
deu lucro, é porque a qualidade falhava, etc.
Ora
este discurso é, pelo menos, algo falacioso. E até algo desonesto, já que
presume que as visões sobre os fenómenos são uniformes, o que é um disparate,
ou que haja a justificação de um desforço, o que é, no mínimo, deselegante.
As
situações são feitas de várias componentes, boas e más, a não ser que sejam em
si uma desgraça desde o momento originário. E negar isso é um pouco fazer com
que a pessoa se negue a si, quase como se desmentisse aquilo que ela era, e por
inerência, acaba por ainda ser. A não ser que a pessoa não fosse tal coisa, e
aí a auto-evidência da resposta dispensa quaisquer dúvidas adicionais. É como
tentar atarraxar uma perna de mesa a uma bicicleta. Só o gesto é incompreensível,
mas auto-explicativo por isso mesmo.
No
fundo esta vertente é facilitadora. Porque se cremos na nossa verdade, no que
vimos, no que fizemos, e porque acreditámos a certa altura, foi porque nos
pareceu certo, porque nos trouxe uma vertente de querer que se transformou em
acreditar. Entrando a segunda em falência, a primeira sufoca. Como algumas moléculas,
pode até conseguir mudar de estado. Mas ainda assim é água. Ainda assim éramos
nós. Ainda assim, a certa altura, fizemos justiça ao que, por parecer maior que
nós, nos levou a direcionar o que conseguíamos porque o que fazia sentido
estava ali, naquele instante, naquela circunstância. Cair do alto desse balão provoca
lesões complicadas, cicatrizes que nunca mais fenecem, ainda que possamos
esquecer os perpetradores. Mas enquanto voávamos era bom. E talvez quando
comparadas a outras situações, algumas daquelas sejam como banhos que queimam necessariamente
para que saibamos da bondade dos conceitos, ainda que os destinatários se
tenham tornado impossíveis. É por isso que a certa altura, algumas coisas não
eram de facto feitas da maldade em que se revelaram. Nem que seja apenas porque
cremos nisso. Mesmo quando não resta mais nada. Mesmo quando pode afinal surgir
tudo.
segunda-feira, abril 08, 2013
Sendo que esta é a minha casa, e estou há 13 horas agarrado a um computador e ao powerpoint e centenas de pdf, e como o cansaço não é dos melhores conselheiros, e sinceramente também não me interessa qualquer espécie de escrutínio porque já via a utilidade que tal coisa tem, mais vale dar uns gritos e fazer pequenas reflexões sobre aquilo que é um olhar critico sobre a nossa vida. E o que é que se vê?
Os últimos anos de trabalho, de esforço, de um olhar vá, pelo menos aberto a hipóteses, a conjunturas mais plenas de uma porcaria de um raio de sol que teima em não aparecer, ou se aparece, vem gelado. Aquilo que constanto da natureza humana é que ela não me faz sentido algum, e parece mais sesnato sair dela, despindo tudo ao osso em cima do qual se escrevem as perguntas sem resposta, a essência contingente da vida onde a desconstrução pode surgir com um abraço ou simplesmente ser negada.
A natureza humana chateia-me demasiado com as suas ambiguidades, as suas bipolaridades que mais podem é ir, secretário de estado dixit, tomar no cu mas pelo menos que eu não me chateie tanto a mim, que não me aborreçam tanto as minhas parvoíces, as coisas pequenas que me parecem grandes e aquilo que não tenho senão opção de guardar cá dentro, cravadas a sangue por colheres rombas ou dedos sem sangue.
É uma merda reencontrar-me no desassossego, um pouco como aqueles tipos que só encontram os papéis no meio da confusão. É uma coisa de abjecção egada a ausência de desgraça mas que se sente assim, o túnel longo das minhas percepções, aquilo de que quero gritar ao céu, mesmo sabendo-o escuro, fechado, embalado pela total noção de que nada é nada, e que se o sentirmos, então é tudo. Amar com a cabeça e pensar com o coração, que ditame, que brilhantez desolada no meio das conclusões a que teimo em não chegar.
Chega-te para lá, digo-me.
Povoas-me demasiado. Povoo-me demasiado.
Chega.
quarta-feira, abril 03, 2013
«O
amor não é (só) uma coisa bonita. Em primeiro lugar não é uma coisa. Mas é
então o quê? Um conceito? Bem, se assim fosse, era minimamente definível, por
muitas que fossem as premissas. Bem, assim sendo, é algo. Mas quando nos
referimos a ele, há um reconhecimento genérico, portanto parece mais um
conceito. Mas é universal? Bem, tenho dúvidas. Para deter universalidade, teria
de conter uma ideia de pré-reconhecimento, e esta é mais uma antecâmara e
verificação do próprio amor do que a sua definição. Os amantes, palavra
correcta que infelizmente é utilizada de forma diversa no nosso léxico
corrente, amam também porque se sentem em casa, e pela multiplicidade de
questões adivinhadas num contexto onde a pele acaba por ajudar às respostas. Lá
está o reconhecimento, o desejo do sabor do saber antes de saber. Portanto será
o quê? Um paradigma? Mas de quê? De emoção? Uma coisa é quase certa. O amor não
é um exemplo para nada. Face às outras emoções, é o tio fixe que anda de Harley
ou a prima maluca que faz couch surfing nas casas da família inteira enquanto
consegue convencer toda a gente a comprar o que parece artesanato mal amanhado.
É como uma empresa que fecha num dia e abre no seguinte com outro nome, mas por
falência mais externa do que interna, porque o objecto da sua actividade, em
alguns casos, nunca cessa. Então vamos lá ver. O que é? É bonito? Gaita,
passamos dos nomes aos adjectivos, mas deixa lá ver. Se pensarmos bem, um
incêndio florestal, um maremoto ou um predador em pleno ataque têm a sua beleza
agreste e terrível. Assim como as histórias e imagens que não dão murros no
estômago com a pior forma de denúncia da verdade. Verdade… verdade… isto já me
soa melhor. Se calhar estamos a chegar a qualquer lado. Será um estado? Mas
estado como? As pessoas encontram-se a certa altura em estado amoroso? Como as
moléculas? Talvez. Talvez as pessoas, ao amarem, se encontrem num estado muito
peculiar, porque muitos denunciam uma vida dentro da vida, como moléculas
aparentemente similares que reagem de formas diferentes quando a naturalidade
dos processos não o determinaria. Como se ao ferver o leite, ele gelasse. Ou o
contrário. É um estado? Talvez. Mas ao qual nunca se chega se se tiver sorte…
ou pensando bem, azar, portanto como vêm, não pode ser apenas um estado. Será uma
atitude? Então é possivelmente o pior de todos os designativos, porque as
atitudes tidas, uma vez em “estado-amor”, reforçam qualquer teoria da borboleta
em Pequim. Vão das que geram vida às que provocam morte. Não é uma atitude,
assim como o vento não sopra sempre na direcção do mesmo ponto cardeal.
Bolas…
O melhor é mesmo “uma coisa…”
O amor não é uma coisa bonita. Não é só uma coisa
bonita, vá lá…. O amor é, como se adivinha por uma ideia de lotaria empática,
uma espécie de desejo transferido através do esvaziamento do próprio
tornando-se este num siamês do outro, mas sem que este alguma vez lhe pertença.
O amor é uma perseguição a um fogo-fátuo que até fala, mas cujo formato é em si
uma mensagem escrita por aquela parcela de pensamento escondido atrás da nuca
que escolhe a pele e não a boca ou os gestos para se manifestar. O amor não grita
com ninguém senão com o seu portador. Mas todos o ouvem. Como uma ameaça velada
mas tremenda, o amor vive da sua própria premissa de terror associado à vida
que tem por isso mesmo. É esquizoide e caótico, mas, quando existe, tem uma
integralidade estrutural inamovível. Portanto… é uma coisa, ou um estado, ou
uma emoção, ou uma forma alternativa de energia e o grande fulcro da discussão
entre inatismo transcendental e racionalismo mecanicista. No amor ninguém está
certo e todos têm razão. Passa-se a mais cruel das fomes enterrado em pão. Só
se explica quando não se faz entender. Traz à ideia plena de vida um certo
desejo de morrer. É, em parte, a ameaça de uma doença, a vertigem da perda como
real pertença. É a queda. E se há água ou granito lá em baixo, não depende de
quem cai.»
Há tempos comecei esta história,
como começara outra em tempos, que consegui acabar. Comecei aquilo que era uma
espécie de segundo exorcismo, não tanto de pessoas e tempos, mas de um
conceito. Da vivência do mesmo, da tremenda confusão e nó impossível de desatar
que são as percepções mistas. Mistas porque a racionalidade luta
desesperadamente contra a modulação dessas percepções.
É um pouco como a margem
interpretativa do julgador. Se os conceitos são suficientemente ricos, tão
diversas serão as suas possíveis interpretações. E mais. Mais variada será a
convicção para a interpretação prevendo a aplicação. Parece um bocado parvo
desejar que se pudesse antever os efeitos do amor na definição que a pessoa
tem, e posteriormente, passa a ter de si. Parece parvo porque além de serem os
prognósticos depois do jogo (será isto uma silepse?) mas invertidos, será que
permitiria de facto fazer o que seria necessário? Não faço ideia. Por isso
mesmo, talvez seja, para já, incapaz de escrever esta história. Porque tudo o
que me lembro nela é o que senti, aquilo que me permitiu imaginá-la e
reproduzi-la com a clareza de um ditado visual e sensorial. Porque tudo o que
me lembro nela é um confronto entre extremos tão díspares, que se diria que
nenhuma interpretação será possível porque ao afastar-se tanto das outras,
torna-se participante num diálogo de surdos em que se torna a capacidade de sentir
e agir perante um determinado cenário de sentir.
Sim, deixo esta história por aqui
por várias razões. Duvido que a saiba contar como foi, pelo menos por agora, não
sei se alguma vez o saberei, não faço bem ideia do que aconteceu, muito menos
do que fui, ou sou, e a teimosia que protege as coisas preciosas que existiram
luta selvaticamente com os factos que se empilham. Para exorcismos é necessário
saber recitar os textos. Se as letras andam aos saltos de um lado para o outro…
temos problemas, como é óbvio. E sorrio ao pensar nisto porque é este o caos e
a piada de certas coisas que aquilo a que chamamos vida nos traz, mas é também
a noção do quanto ferimos em nós de irrecuperabilidade, e que pode,
efectivamente, custar muito caro. E a moeda é o tempo. E o tempo é o único
truque mágico que de facto existe… mas não é panaceia. Os agressores e armas podem
desaparecer. Normalmente fazem-no. Nem sequer interessam à discussão a certa
altura. Mas as cicatrizes ficam. A plástica do real tem limites estreitos e nem
o tempo é mais que paliativo.