Há
uma certa ideia de que as coisas se tornam naquilo em que ficaram no seu último
momento. O que faz algum sentido, já que foi esse momento que o tornou decisivo
e levou à desagregação do mesmo. Se não resultou, é porque não prestava, se não
deu lucro, é porque a qualidade falhava, etc.
Ora
este discurso é, pelo menos, algo falacioso. E até algo desonesto, já que
presume que as visões sobre os fenómenos são uniformes, o que é um disparate,
ou que haja a justificação de um desforço, o que é, no mínimo, deselegante.
As
situações são feitas de várias componentes, boas e más, a não ser que sejam em
si uma desgraça desde o momento originário. E negar isso é um pouco fazer com
que a pessoa se negue a si, quase como se desmentisse aquilo que ela era, e por
inerência, acaba por ainda ser. A não ser que a pessoa não fosse tal coisa, e
aí a auto-evidência da resposta dispensa quaisquer dúvidas adicionais. É como
tentar atarraxar uma perna de mesa a uma bicicleta. Só o gesto é incompreensível,
mas auto-explicativo por isso mesmo.
No
fundo esta vertente é facilitadora. Porque se cremos na nossa verdade, no que
vimos, no que fizemos, e porque acreditámos a certa altura, foi porque nos
pareceu certo, porque nos trouxe uma vertente de querer que se transformou em
acreditar. Entrando a segunda em falência, a primeira sufoca. Como algumas moléculas,
pode até conseguir mudar de estado. Mas ainda assim é água. Ainda assim éramos
nós. Ainda assim, a certa altura, fizemos justiça ao que, por parecer maior que
nós, nos levou a direcionar o que conseguíamos porque o que fazia sentido
estava ali, naquele instante, naquela circunstância. Cair do alto desse balão provoca
lesões complicadas, cicatrizes que nunca mais fenecem, ainda que possamos
esquecer os perpetradores. Mas enquanto voávamos era bom. E talvez quando
comparadas a outras situações, algumas daquelas sejam como banhos que queimam necessariamente
para que saibamos da bondade dos conceitos, ainda que os destinatários se
tenham tornado impossíveis. É por isso que a certa altura, algumas coisas não
eram de facto feitas da maldade em que se revelaram. Nem que seja apenas porque
cremos nisso. Mesmo quando não resta mais nada. Mesmo quando pode afinal surgir
tudo.
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