ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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terça-feira, abril 30, 2013


Há uma certa ideia de que as coisas se tornam naquilo em que ficaram no seu último momento. O que faz algum sentido, já que foi esse momento que o tornou decisivo e levou à desagregação do mesmo. Se não resultou, é porque não prestava, se não deu lucro, é porque a qualidade falhava, etc.

Ora este discurso é, pelo menos, algo falacioso. E até algo desonesto, já que presume que as visões sobre os fenómenos são uniformes, o que é um disparate, ou que haja a justificação de um desforço, o que é, no mínimo, deselegante.

As situações são feitas de várias componentes, boas e más, a não ser que sejam em si uma desgraça desde o momento originário. E negar isso é um pouco fazer com que a pessoa se negue a si, quase como se desmentisse aquilo que ela era, e por inerência, acaba por ainda ser. A não ser que a pessoa não fosse tal coisa, e aí a auto-evidência da resposta dispensa quaisquer dúvidas adicionais. É como tentar atarraxar uma perna de mesa a uma bicicleta. Só o gesto é incompreensível, mas auto-explicativo por isso mesmo.

No fundo esta vertente é facilitadora. Porque se cremos na nossa verdade, no que vimos, no que fizemos, e porque acreditámos a certa altura, foi porque nos pareceu certo, porque nos trouxe uma vertente de querer que se transformou em acreditar. Entrando a segunda em falência, a primeira sufoca. Como algumas moléculas, pode até conseguir mudar de estado. Mas ainda assim é água. Ainda assim éramos nós. Ainda assim, a certa altura, fizemos justiça ao que, por parecer maior que nós, nos levou a direcionar o que conseguíamos porque o que fazia sentido estava ali, naquele instante, naquela circunstância. Cair do alto desse balão provoca lesões complicadas, cicatrizes que nunca mais fenecem, ainda que possamos esquecer os perpetradores. Mas enquanto voávamos era bom. E talvez quando comparadas a outras situações, algumas daquelas sejam como banhos que queimam necessariamente para que saibamos da bondade dos conceitos, ainda que os destinatários se tenham tornado impossíveis. É por isso que a certa altura, algumas coisas não eram de facto feitas da maldade em que se revelaram. Nem que seja apenas porque cremos nisso. Mesmo quando não resta mais nada. Mesmo quando pode afinal surgir tudo.

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