«O
amor não é (só) uma coisa bonita. Em primeiro lugar não é uma coisa. Mas é
então o quê? Um conceito? Bem, se assim fosse, era minimamente definível, por
muitas que fossem as premissas. Bem, assim sendo, é algo. Mas quando nos
referimos a ele, há um reconhecimento genérico, portanto parece mais um
conceito. Mas é universal? Bem, tenho dúvidas. Para deter universalidade, teria
de conter uma ideia de pré-reconhecimento, e esta é mais uma antecâmara e
verificação do próprio amor do que a sua definição. Os amantes, palavra
correcta que infelizmente é utilizada de forma diversa no nosso léxico
corrente, amam também porque se sentem em casa, e pela multiplicidade de
questões adivinhadas num contexto onde a pele acaba por ajudar às respostas. Lá
está o reconhecimento, o desejo do sabor do saber antes de saber. Portanto será
o quê? Um paradigma? Mas de quê? De emoção? Uma coisa é quase certa. O amor não
é um exemplo para nada. Face às outras emoções, é o tio fixe que anda de Harley
ou a prima maluca que faz couch surfing nas casas da família inteira enquanto
consegue convencer toda a gente a comprar o que parece artesanato mal amanhado.
É como uma empresa que fecha num dia e abre no seguinte com outro nome, mas por
falência mais externa do que interna, porque o objecto da sua actividade, em
alguns casos, nunca cessa. Então vamos lá ver. O que é? É bonito? Gaita,
passamos dos nomes aos adjectivos, mas deixa lá ver. Se pensarmos bem, um
incêndio florestal, um maremoto ou um predador em pleno ataque têm a sua beleza
agreste e terrível. Assim como as histórias e imagens que não dão murros no
estômago com a pior forma de denúncia da verdade. Verdade… verdade… isto já me
soa melhor. Se calhar estamos a chegar a qualquer lado. Será um estado? Mas
estado como? As pessoas encontram-se a certa altura em estado amoroso? Como as
moléculas? Talvez. Talvez as pessoas, ao amarem, se encontrem num estado muito
peculiar, porque muitos denunciam uma vida dentro da vida, como moléculas
aparentemente similares que reagem de formas diferentes quando a naturalidade
dos processos não o determinaria. Como se ao ferver o leite, ele gelasse. Ou o
contrário. É um estado? Talvez. Mas ao qual nunca se chega se se tiver sorte…
ou pensando bem, azar, portanto como vêm, não pode ser apenas um estado. Será uma
atitude? Então é possivelmente o pior de todos os designativos, porque as
atitudes tidas, uma vez em “estado-amor”, reforçam qualquer teoria da borboleta
em Pequim. Vão das que geram vida às que provocam morte. Não é uma atitude,
assim como o vento não sopra sempre na direcção do mesmo ponto cardeal.
Bolas…
O melhor é mesmo “uma coisa…”
O amor não é uma coisa bonita. Não é só uma coisa
bonita, vá lá…. O amor é, como se adivinha por uma ideia de lotaria empática,
uma espécie de desejo transferido através do esvaziamento do próprio
tornando-se este num siamês do outro, mas sem que este alguma vez lhe pertença.
O amor é uma perseguição a um fogo-fátuo que até fala, mas cujo formato é em si
uma mensagem escrita por aquela parcela de pensamento escondido atrás da nuca
que escolhe a pele e não a boca ou os gestos para se manifestar. O amor não grita
com ninguém senão com o seu portador. Mas todos o ouvem. Como uma ameaça velada
mas tremenda, o amor vive da sua própria premissa de terror associado à vida
que tem por isso mesmo. É esquizoide e caótico, mas, quando existe, tem uma
integralidade estrutural inamovível. Portanto… é uma coisa, ou um estado, ou
uma emoção, ou uma forma alternativa de energia e o grande fulcro da discussão
entre inatismo transcendental e racionalismo mecanicista. No amor ninguém está
certo e todos têm razão. Passa-se a mais cruel das fomes enterrado em pão. Só
se explica quando não se faz entender. Traz à ideia plena de vida um certo
desejo de morrer. É, em parte, a ameaça de uma doença, a vertigem da perda como
real pertença. É a queda. E se há água ou granito lá em baixo, não depende de
quem cai.»
Há tempos comecei esta história,
como começara outra em tempos, que consegui acabar. Comecei aquilo que era uma
espécie de segundo exorcismo, não tanto de pessoas e tempos, mas de um
conceito. Da vivência do mesmo, da tremenda confusão e nó impossível de desatar
que são as percepções mistas. Mistas porque a racionalidade luta
desesperadamente contra a modulação dessas percepções.
É um pouco como a margem
interpretativa do julgador. Se os conceitos são suficientemente ricos, tão
diversas serão as suas possíveis interpretações. E mais. Mais variada será a
convicção para a interpretação prevendo a aplicação. Parece um bocado parvo
desejar que se pudesse antever os efeitos do amor na definição que a pessoa
tem, e posteriormente, passa a ter de si. Parece parvo porque além de serem os
prognósticos depois do jogo (será isto uma silepse?) mas invertidos, será que
permitiria de facto fazer o que seria necessário? Não faço ideia. Por isso
mesmo, talvez seja, para já, incapaz de escrever esta história. Porque tudo o
que me lembro nela é o que senti, aquilo que me permitiu imaginá-la e
reproduzi-la com a clareza de um ditado visual e sensorial. Porque tudo o que
me lembro nela é um confronto entre extremos tão díspares, que se diria que
nenhuma interpretação será possível porque ao afastar-se tanto das outras,
torna-se participante num diálogo de surdos em que se torna a capacidade de sentir
e agir perante um determinado cenário de sentir.
Sim, deixo esta história por aqui
por várias razões. Duvido que a saiba contar como foi, pelo menos por agora, não
sei se alguma vez o saberei, não faço bem ideia do que aconteceu, muito menos
do que fui, ou sou, e a teimosia que protege as coisas preciosas que existiram
luta selvaticamente com os factos que se empilham. Para exorcismos é necessário
saber recitar os textos. Se as letras andam aos saltos de um lado para o outro…
temos problemas, como é óbvio. E sorrio ao pensar nisto porque é este o caos e
a piada de certas coisas que aquilo a que chamamos vida nos traz, mas é também
a noção do quanto ferimos em nós de irrecuperabilidade, e que pode,
efectivamente, custar muito caro. E a moeda é o tempo. E o tempo é o único
truque mágico que de facto existe… mas não é panaceia. Os agressores e armas podem
desaparecer. Normalmente fazem-no. Nem sequer interessam à discussão a certa
altura. Mas as cicatrizes ficam. A plástica do real tem limites estreitos e nem
o tempo é mais que paliativo.
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