ESTAÇÕES DIFERENTES
"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."
Stephen King - "Different Seasons"
Partilhar informação @ estacoesdiferentes@gmail.com
Stephen King - "Different Seasons"
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quarta-feira, maio 29, 2013
Há muitos
anos, vivia eu em casa dos meus pais como pré-adolescente que era, a minha rua
era liderada por um par de irmãos. Os irmãos “russos”. Aquele de quem mais me
lembro, e que no fundo era o líder incontestado, era o Zé. Zé Russo. Um pequeno
tretas, encantador, cheio de teorias que todos ouvíamos com atenção, fascinados
pela sua sabedoria inexistente mas convincente. Inquestionável mesmo. Ninguém
duvidava do Zé Russo, mesmo quando ele arranjava seringas, sabe-se lá onde as teria
obtido, as enchia com água e conseguia provocar pressão e assim projectar as
agulhas para empalar as lagartixas nos muros a perder a cal. Sim, isso mesmo. Mas os nossos globos
oculares estão todos intactos. Parece impossível, mas é verdade.
No entanto o
Zé Russo era um tretas, um sobrevivente, um desenrascado para além do que
talvez me fosse possível pensar. Embora visse bem o que ele tinha de fazer, e a
minha mãe, em várias ocasiões, lhe tivesse dado lanche e não só, havia algo na
sua natureza que se mantinha intocado. O Zé Russo era um miúdo mentiroso,
manipulador, líder natural, absolutamente desenrascado, capaz de sorrir em condições
que alguns de nós talvez nem gostem de imaginar, incluindo-me, mas jamais
maldoso ou agressivo. Bem pelo contrário. Adorava levar-nos nos seus delírios e
encantar-nos com as suas histórias largamente erradas mas tão deliciosas e
convincentes. Viva connosco e nós através dele. Talvez porque agora sinta que
as histórias que ele contava, por mais inventadas que fossem, afinal eram reais.
Eram produto da sua resiliência, daquilo que ele sabia que jamais o derrubaria,
como jamais alguém denunciaria os deliciosos erros factuais das suas histórias,
ainda que naquela altura soubesse como. Tendo a mania de ler desde muito cedo, eu
sabia que muitas coisas que ele contava estavam erradas, mas nunca contestei. Porque
queria que as histórias dele estivessem certas. Desejava ardentemente que o
tipo que escrevera aquele livro ou artigo que lera em casa estivesse errado,
que afinal não sabia nada, porque nunca perguntara ao Zé Russo como as coisas
realmente eram. E o topete que tinham aqueles que não sabiam perguntar as
coisas ao nosso sábio.
Metade dos
habitantes (então) jovens da minha rua, para não dizer mais de 70%, foram
ceifados pela heroína, ou qualquer outra coisa. Seria de pensar que que o Zé
Russo fosse um daqueles que encabeçasse as fileiras da transgressão e mesmo
mortalidade. Alguns dos rapazes que brincaram comigo e jogaram à bola ao lado
de um campo de silvas, estão mortos. Outros talvez desejassem estar. Outros
desapareceram. Uma delas, colega de escola preparatória, passou de uma crista
punk de cor verde a vestidinhos compostos de “soccer mom”. A M.J. era uma miúda
muito engraçada, dona de um nariz proeminente e voz feral, mas tinha uns olhos
meigos. Imagino que tenha escapado por pouco. Mas nunca com a graça ou o senso
de vitoria do Zé Russo. O contador de histórias e feitos das nossas pequenas
aventuras foi avistado pela minha mãe, há uns meses atrás. O cabelo loiro, a
tez pálida e os olhos azuis quase transparentes estavam lá. Levava um dos seus
pequenos pela mão, dono da mesma expressão sempre semi sorridente e traquina,
mesmo na face de um homem de quarenta e um anos, a quem a vida tinha castigado
de forma significativa. Viu a minha mãe e sorriu-lhe. Sorriu com o
reconhecimento de uma vida inteira que passara, como fazemos a algo que jamais
sai da nossa memória, mesmo que não figure do quotidiano dos nossos pensamentos
ou recordações mais prementes.
A minha mãe
ficou muito contente. O Zé Russo era um homem que escapara a todas as
armadilhas, resistira a tudo, mas também fizera e vira (quase) tudo. Estava bem,
foi a expressão que a minha mãe usou. Atravessara uma infância e adolescência de
fome e toda a serie de riscos e chegara ali, a qualquer lado onde se construíra
e pertencia. A minha mãe ficou contente, e eu também. Talvez porque em meio a
tantos futuros que não se adivinhavam ou se davam por mortos, surgia algo que
ultrapassara as piores histórias, nunca nos fazendo esquecer aquilo que fora
uma vida difícil, dura, mas salva por uma imaginação prolífera, uma resiliência
talvez escapista, mas que certamente o salvou perante as piores opções. As
lições de vida de um verdadeiro sobrevivente, as quais me dizem de forma
terrivelmente simples que mesmo as armadilhas mais subtis são visíveis.
O Zé Russo
talvez tenha sido o primeiro personagem em qualquer história que tenha escrito.
Mesmo que jamais me tenha referido a ele directamente. E é muito engraçado ver
uma personagem a viver bem para além de nós. Num mundo que não deveu a ninguém
sem ser a ele mesmo.
Ainda me
lembro que saltei de um segundo andar, baixo é certo, para um monte de areia,
num cenário de construção sem qualquer guarda, numa época em que isso era
considerado um disparate ou desperdício. Mas recordo que o Zé era sempre o
primeiro a fazer tudo. E a contar todas as histórias.
Estou muito
feliz por ele, onde quer que esteja.
segunda-feira, maio 27, 2013
Eu sabia que
ele não tinha desistido. Sabia. Não era possível. Era legível, estava em cada
gesto e em cada negação trapalhona e incapaz de convencer uma criança de quatro
anos. Eu sabia que ele não tinha desistido, mesmo que o reiterasse em alto e bom
som, como uma espécie de bravata que os olhos desmentiam com facilidade. O
desejo, assim como a nostalgia imorredoura, não ligam absolutamente nada ao que
nos sai da boca. Preferem dar brilhos e expressões aos olhos que se tornam são
o epíteto da denúncia.
Sabia que as
mensagens de telemóvel eram escritas até com outro ritmo. Que o segredo que ele
guardava consigo era feito da matéria que são todos os segredos reais, ou seja,
simultaneamente corrosiva e orientadora.
Falava com
ele e a negação saía com um sorriso cansado. As palavras eram veementes, mas
nunca as dava por terminadas sem admitir que o final que aceitara era um
imperativo lógico próprio da forma como tinha de viver a sua vida. Esse
imperativo falava de um controlo que ele não possuía, e que ornamentava a sua
bravata afectiva como talha dourada faria a algo com pretensões a ouro.
Custava-me
vê-lo assim. Sabia que a verdade a que ele se agarrava era aquela. À que ainda
se agarra. Mas também sei que em cada gesto que ele tem, há aquele desejo de
denúncia próprio de quem em tempos tudo sabotou para que destruíssem por ele.
Há simplesmente quem não suporte o amor na sua vertente cambiante, errática,
caótica e extraordinariamente perigosa. Há, assim, quem não se suporte a si
mesmo. E teime. Como ele teima.
Custa-me vê-lo assim. Porque provavelmente ele não se vê.
A Linha –
parte I
Há um
anúncio a uma marca de produtos de telecomunicações que fala numa linha que
separa o essencial do resto. A tal linha que não se cruza. Aquela que todos
temos como certa, mesmo que lhe desconheçamos a morfologia. Essa linha, dizem,
pode ser elástica. E é verdade. Pode ser tão elástica como a forma que
arranjamos de a suportar mais à frente ou mais atrás. É tão móvel como a nossa
percepção das realidades feitas a pele
interna, e não a um olho externamente objectivo, e por isso, talvez possuidor
de uma melhor mão no que diz respeito ao desenho do contorno real das coisas.
O problema
dessa linha é que ela bule com a esperança. Pode bem ser a história da forma
irresistível que se confronta com o objecto inamovível. Podem ser os extremos
de uma pessoa a reconhecer-se, e a certa altura, verificarem da sua mais que
previsível incapacidade coexistirem. Essa dialéctica pode dilacerar-nos ao ponto
do impensável, porque talvez puxem pelas duas tendências mais extremas de cada
um, e o que é pior, é que mesmo dentro da pessoa, ambas podem estar certas.
Como? Porque esperar pelo melhor e saber que não conseguiremos suportar tudo
são as escoras por onde toda a nossa água incontrolável anda, em ondas, em
repelões, em remoinhos, em tremendas e contraditórias correntes.
Num filme
meio parvo que vi no outro dia, mas que se inspirava numa obra maior
(Sensibilidade e Bom Senso – Janeu Austen), as personagens, cada uma delas meio
tonta depois de sofrer a sua respectiva castanhada afectiva, falavam
desassombradas das atitudes possíveis num cenário de perda ou ganho.
“Por vezes é
necessário entrar num jogo, mesmo que saibamos que o vamos perder.”
Ao que outra
personagem responde.
“E se não
jogamos precisamente porque sabemos que o mais provável é ganhar?”
Embora não
sejam exactamente estas as oposições a que me refiro, a verdade é que o
movimento percepção versus esperança coloca as mais complicadas das questões,
as mais arrevesadas das teimosias, e, sobretudo, é sempre, mas sempre produto
de uma qualquer fractura. Seja porque nos salvamos, seja porque ficamos
perenemente marcados.
A linha pode
até ser elástica, mas há uma altura em que a elasticidade é apenas forçada por
uma esperança afectiva que, como qualquer animal em situação muito séria,
lutará acima de si, até apoiado numa força que se calhar não tem, porque ao não
ter nada a perder, ainda assim se recusa a perder tudo. Não aceita, tem dentes,
morde, sangra, e move-se. A tal linha parece, por isso mesmo elástica, mas no
fim, todos sabemos o que fizemos, e acima de tudo, o que a linha cerca. A linha
intransponível cerca o único mundo que temos. E não aceita anexação hostil. Não
pode sequer. Como água e azeite, esse “dentro” e esse “fora” podem conviver,
mas sempre contiguamente. Não são o iguais, e por isso mesmo, não se podem
confundir em si mesmos. E ainda assim tentam. E ainda assim recusam as
fronteiras que nada mais são que a definição do que pode viver mas raramente
sobrevive.
A tal linha
não é elástica. Elástica é a forma como a vemos. Elástica é a capacidade de
teimar numa interpretação de factos tão dolorosamente claros, que a
incredulidade da capacidade de desejar se atreve a colocá-los em causa.
Elástico é querer à força, querer para além da morte porque não se consegue
crer nela. Essa elasticidade é mágica, e produz algumas das mais bonitas formas
de sentir e agir que consigo imaginar. A raiva, dor e desejo que daí saem são
tão profundamente intensas e verdadeiras, que não podemos deixar de as ouvir e
sentir o coração apertar nem que seja em respeito. Ou talvez porque o som de um
a partir nos seja familiar a todos, e por isso mesmo, há sempre a esperança que
de uma próxima vez seja diferente. Estúpido, é verdade, mas absolutamente
inevitável. Setenta por cento das possíveis formas de amor não sobreviveriam
sem isso. Pouco haveria a esperar. Ou a poder consertar-se com a possibilidade
dos tais terrenos poderem confundir-se entre si.
No gume
dessa lâmina, estão os piores e mais profundos golpes, paredes meias com a
ideia de salvação, seja ela qual for, ou seja qual for o formato e sofisticação
da mentira que nega a necessidade da sua existência. A verdade é que a tal
linha está lá. E podemos nunca a cruzar. Podem nunca a pisar. Mas ela não se
move. Não se desloca. E só é elástica enquanto conseguirmos não vê-la ou ouvi-la
porque o desejo é tremendamente opaco e nós gritamos demasiado alto.
Há uma linha
que separa as doenças do coração do rasgar irreparável do mesmo. E sabemos o
que ela é, ainda que nunca tenhamos de a invocar, ou perder tudo porque ela foi
pisada.
Há uma linha que nos separa do mundo. É precisamente aquela que o contorna. Se tivermos muita, mas muita sorte, não o veremos morrer pisoteado. E este é aquele tipo de sorte que definitivamente não se faz. E que pouquíssimas vezes se tem.
sexta-feira, maio 24, 2013
Sei que teimo em entender uma série de coisas por força de algo que
tenho, mas supostamente não se deve ter. Sei que temerei muito menos aquilo que
ao menos conseguir perceber. Nem que seja minimamente. Nem que seja por um
instante.
Por vezes o
medo, ou alguma forma de incompreensão, surge como um instinto. Vejo, ouço ou
como que adivinho uma pequena nevoa que não se dissipa, e isso leva-me a tentar
desmontar as suas moléculas. Se for vapor de água e não um mini-espectro
perdido, lá está, torna-se tudo muito mais fácil.
Tentar
entender, por força do medo, ao invés de reagir, é a defesa de um estado de
abrangência ou acolhimento. Assim, deixamos para trás aquilo que optámos não
ter precisamente porque ao perceber o que era, isso, ou nós, são capazes de uma
decisão que podem explicar. A quem? A si próprios, como é evidente.
Ao tentar
perceber, levo estupidamente a peito. O quê? Muita coisa. Demasiada. Mas levo.
Que fazer? Levo a peito porque trago comigo a tal importância que também não
consigo deixar de dar. E aí, a dificuldade em explicar é toda minha, porque se
posso passar bem alguns conceitos, a razão pelas quais eles se agigantam já é
quase tanto um mistério para mim como para quem se confronta com isso.
No fundo,
tento entender porque domo mal a minha capacidade de desconsiderar. Se bem que
melhorei muito. Evita-me, em certa medida, agruras com a sensibilidade, já
escudada com uma lucidez que aprimora o prato bom da balança até que eu o possa
ver tão perto, e o outro possa ignorá-lo por tão longe que se encontra.
Teimo em
dissecar porque mesmo na defesa das minhas “inexplicabilidades”, tenho de
arranjar uma tentativa de pelo menos as metaforizar. De lhes dar um corpo. Porque,
em muitos casos, são o que tenho para dar, porque são aquilo que sou.
E o melhor
mesmo é que consigo aprender. Consigo mesmo. E isso acaba por ser em si, uma
explicação. Uma paz.
A lucidez é algo que, como a sua ausência, surge sem que nada a anuncie especialmente, mas talvez tudo a peça. Ao contrário do que é muitas vezes pensado, conseguir pensar tem uma dupla valência. Os efeitos dessa valência podem ser bilaterais, de polos diferenciados de valoração, mas aquela raras vezes é má. Ou pelo menos completa ou predominantemente má.
A lucidez é um pouco como esta benfazeja
pomada que coloquei hoje nos meus lábios completamente gretados e feridos,
depois de quatro dias com cortes que não saravam. Primeiro o alívio. Depois a
capacidade de desfrutar da (nova) realidade. E depois ainda as possibilidades
que daí advêm.
Existem as tentativas de organização. Os meios
caminhos. O que lá fica. Os encontros e acordos a meio da ponte e a saciedade
luzidia de ver a água translucida a correr lá em baixo, como um caminho que
finalmente nos levará algures. E esse algures é evolutivo. É a vida que temos,
mas especial e felizmente, talvez aquela que possamos ter. Quando conseguimos (também)
pensar nela. Quando a conseguimos viver.
Sol...
(foto: Rodney Smith)
quinta-feira, maio 23, 2013
“The only joy in the world is to
begin. It is good to be alive because living is beginning, always, every
moment. When this sensation is lacking—as when one is in prison, or ill, or
stupid, or when living has become a habit—one might as well be dead.”
CESARE PAVESE, This Business of Living, Nov. 23,
1937
A ideia de renovação e recomeço, ou mesmo
início não é desconhecida. É certamente algo comum na mente da
maioria das pessoas o gozo de encontrar ou reencontrar uma novidade que cria
entusiasmo. Melhor ainda, depararmo-nos com a reinvenção que mais parece um
desejo nunca tido do que este ultimo em novidade feita de maturidade
transformadora.
Os começos, em meu modesto ver, são
afastamentos de véus. Os começos são como as listas reflectoras nas bermas das
estradas. Indicam qualquer coisa, dependendo apenas da potência dos faróis que
as iluminam. Mas ao vê-las, damos connosco a pensar que, de facto, pelo menos
estamos a ir algures. Estamos a ir. A bússola não é nossa, mas emprestaram-na
nem que seja por um pequeno pedaço de tempo. O melhor é aproveitar ao máximo a
ajuda.
Sem começos, sem a ideia de algo a seguir,
perseguir ou construir, há a imobilidade. A morte, por natureza, é a ausência. Neste
caso, das várias metáforas de morte, posso perfeitamente escolher a que a indica
como a ausência de movimento, pela inexistência sequer de uma ameaça de trilho.
A complexidade das pessoas, que tantas vezes
nos assombra como entristece, é uma lanterna no túnel da mina. Vê-se pouco. Teme-se
a derrocada dos calhaus de meia tonelada. Mas há ali mais uma passada possível.
Há ali mais uma pergunta a fazer. Há mais uma sensação de vida a ter, porque de
alguma forma o que existe não é passável, não é apenas suportável, não é cálido
ou meramente neutro. Começa-se quando se começa a tentar entender. Quando se
começa a tentar ver os encaixes, mal sabendo que o nosso puzzle se desconjunta
um pouco à medida que o vamos fazendo, tornando a tarefa a que nos propomos,
por mero desejo, igualmente inconcretizável.
Mas talvez esteja aí a graça. O crescimento. Começos
e não apenas continuidade. Porque sem a percepção de algo mais a ver, a
atalhar, a simplesmente reposicionar na forma de pensarmos sobre algo ou
alguém, tudo se torna um hábito. E como diz PAVESE, aí sim, mais vale estar
morto. Mesmo que não o pensássemos, já era um caso clássico de algo que antes
de o ser, já era.
TENHO MEDO
DAS MULHERES.
Parte I(??)
Tenho medo das mulheres.
Está decidido.
Não que isso seja uma novidade. De facto, não
o é. Mas cada vez que chego a esta conclusão é uma ideia renovada. Tenho medo
das mulheres. Tenho medo porque embora vivam dentro da verdade em muitas
ocasiões, provavelmente mais do que os homens, a realidade dos factos que são
delas mudam, conforme o vento lhes muda as franjas do cabelo na testa ou um
fenómeno sensível numa improbabilidade do mundo lhes reorganiza a estratégia
que nem tinham.
Tenho medo das mulheres porque, embora não
seja, talvez, verdade, parecem poder ir a qualquer momento e por qualquer
motivo. Temo-as porque ouvem os seu próprios gritos desde um período bem mais
tenro da vida que aquele em que comecei a ouvir os meus. E assim, cansadas mas
conscientes de si, não têm hesitações naquilo que realmente querem. Temo-as,
porque a certa altura farão aquilo que bem entenderem, por pior que seja a
explicação, por mais complicada que seja a consequência. As mulheres são de
facto mais “fieis” que os homens. A si mesmas. Nada mais nem nada menos que
isso. Em última análise, nada as deterá porque nem conseguem entender porque
não são capazes de se deter a si mesmas. Mesmo quando querem. Talvez
especialmente quando o querem fazer. É como se não conseguissem ultrajar a
força da honestidade com que se respeitam pelo que realmente são.
Tenho medo das mulheres. Sei o que são
capazes de criar, o que podem desfazer, e a forma como se podem evadir de um
terreno terraplanado com a graça com que lá chegaram. Assim como levam os seus
amores a sério, as suas destruições não são para brincadeiras. As suas
manipulações são como uma sábia colocação de explosivos num prédio ainda
aparentemente robusto. A força da dita fragilidade, associada a uma clara
percepção de qual é o caminho, porque não estão fascinadas connosco como nós
com elas, é do mais terríveis paradoxos da existência, e raramente lhe
escapamos.
Tenho medo das mulheres mesmo quando são
burras ou pusilânimes, porque ainda assim, as mulheres sabem exactamente onde
andamos. Estamos perdidos. Elas fingem desnorte. Sabem que todos os nossos
ruídos, gestos danças atrapalhadas são, em grande parte, por causa delas, por
causa daquilo que nos fascina e teimam em não deixar entender. Talvez por
piedade, sei lá. Talvez fosse bem pior se o deixassem. Teríamos de reagir em
conformidade. E elas tornar-se-iam ainda mais temíveis.
Tenho medo das mulheres porque são capazes.
Do melhor e do pior. E de ambos, disto mesmo nos intermédios.
Tenho medo das mulheres porque sei que só
ouvem quando querem, só aceitam quando sentem, só constroem quando não podem
evitar fazê-lo. Porque esperam que a liberdade que respira da sua capacidade
possa de alguma forma ser aceite por todas as mecânicas do desejo, e que na
impossibilidade disto mesmo reside muito do poder delas.
Tenho medo das mulheres porque manipulam
mesmo pelos bons motivos. A maior parte das vezes, talvez mesmo apenas por
esses. Porque sabem mais da morte, do amor, da perda, da resiliência, e têm
pouca pachorra para ensinar. Porque a sua pedagogia está num reconhecimento de
capacidade que esperam de outros, e a sua paciência é infinda quando percebem
que isso pode brotar, não importa o custo.
Tenho medo das mulheres porque lhes escrevi
muito e raramente recebi uma letra que fosse. Tenho medo, porque, ainda assim,
elas conseguiam dizer muito mais coisas que eu. Até mesmo aquelas que nem
sabiam estar a proferir ou emitir.
Tenho medo das mulheres porque não precisam
do pedestal que, em algumas ocasiões, e ainda assim, lhes faço. Tenho medo das
mulheres porque no assombramento de um amor de rendição parecem, ainda assim, belas
porque livres. Tenho medo de algumas mulheres porque escolhem amar-me e
raramente entendo o porquê. E ao buscá-lo, a sua escolha é dada numa bandeja
feita de vidro translucido, mostrando que a dureza do chão pode estar logo ali.
Tenho medo das mulheres porque as endeusamos
ao mesmo tempo que elas nos humanizam. Tenho medo das mulheres não quando me
escapam, mas quando eu as deixo escapar. Tenho medo das mulheres porque amo o
que não lhes entendo e me apaixono apenas pelo que vou percebendo.
Tenho medo das mulheres porque são elas.
Tenho medo das mulheres.
Está decidido.
«Kodiak bears are naturally diurnal, but when faced with competition, they can become more nocturnal. Yet the Kodiak bear is one that is very active during the daylight hours. Sometimes they will also be moving around at night but not often. They are very solitary in nature but they do not defend territories.
The females have a smaller range that they travel and it can often overlap that of males. Generally these types of relationships are fine and the males will ignore these females. There is only a problem when the supply of food available is low. Then the males will want to keep their territories all to themselves as well as the food that is found within it.
Many people are confused when they read that Kodiak Bears live alone as they have seen them in the wild in groups or in photos. What is very interesting is that they will tolerate each other when they have to. For example when there is ample food in one given location but not in others. They are intelligent enough to learn to get the food they need by working together than to starve. This is a very interesting concept that researchers are still looking into further.
Kodiak bears are very tolerant of human beings and try to ignore them as much as possible. They are much less violent than other coastal brown bears and mainland grizzly bears. They will not stalk humans like a black bear might. In fact over the last 100 years or so there have only been two recorded cases of bear fatalities on Kodiak island. Kodiak bears do not eat human beings like other coastal brown bears in the mainland.
This being said Kodiak bears do not like humans and you can't pet them. Most Kodiak bears will turn around if they see humans and run away. If you corner a bear, particularly a sow with cubs you better watch out because she will fight you if she feels threatened. She will also fight to the death if a male tries to harm her young.
Many Kodiak bears located near the city of Kodiak are well adjusted to being around humans and normally are on their best behavior. There are times where a Kodiak bear will try to share your fishing spot with you and might even help himself to your catch. They are more interested in the fish than you. Unfortunately many local bears die at the hands of an inexperience woodsman who runs into a bear and starts shooting. This is usually unnecessary.
There is a well documented story in the recent past here of an intoxicated man stumbling into a sow and her cubs in the woods where he was wandering. He got too close to the sow and she basically tackled him and held him down while her cubs scampered away. She then let the guy go without biting him. What does that tell you about a Kodiak bear.
[A primeira coisa que me ocorre dizer é...
PORQUE É QUE ELA NÃO ACEITA O CASACO??
A segunda é...
E SE FOSSE ELA QUE TIVESSE CARA DE COYOTE???
(e sinceramente não me venham chatear a cabeça com a ideia de que as mulheres olham para além das pessoas, que nem vou entrar nesse politicamente correcto)]
Mas isso não interessa.
O que me interessa aqui é a música, que é bem boa, o vídeo, que é ternurento, e sobretudo uma visualização singela daquilo que são coisas dadas ou oferecidas pelo simples desejo de o fazer, porque por vezes, por razões que assistem à forma como somos, ou nos construímos, apesar de toda a pancada possível, ainda conseguimos ser porque somos para além de nós. Porque sentimos coisas curiosas, engraçadas, meio parvas, mas que nos reformulam uma série de certezas.
Talvez não possamos viver assim, é verdade, o que pode ser uma pena.
Mas deixar que isso, ao menos internamente, viva e produza pequenos hiatos de fantasia consolada, é um dos ganhos de conseguir viver "apesar de".
Sim, apesar de. Apesar de nós próprios.
Apesar de não encaixarmos no contexto onde vivemos, é sempre bom sentir que, de certa forma, não se deixa de tentar porque se consegue arranjar propostas de refutação.
A teimosia também é vida. Ainda que interna, ainda que não nos safe.
Talvez por causa disso, diriam alguns...
quarta-feira, maio 22, 2013
"Em qualquer circunstância, julgo que o pior que podem fazer é deixar-me descansar. Deixar que me habitue a um status quo e posteriormente o triture como um simples estado de acalmia. O amorfismo pode ser terrivelmente violento. A não defesa uma agressão.
Em qualquer situação julgo que o pior que pode acontecer é deixarem-me aceitar. Deixarem que aceite como algo que é normal, que é ajustado, que se enquadra, sem que a realidade se mexa como talvez devesse. É deixarem que a coisa, por sua vez, deixe de fazer uma diferença. É deixar que a urgência se perca. é deixar que eu não me perca à procura de respostas, enquanto busco a criatividade de razões para fazer coisas, agregar pessoas, fazer pelo gosto de fazer, de ver algo onde nada havia.
Em qualquer circunstância o pior é deixar-me descansar. Deixar-me aceitar. Deixar com que morra um fogo seja de argumentação seja de resistência. O pior é deixarem-me morrer e continuar vivo. É que algo morto não cresce, especialmente não para fora de si e muito menos para fora ou apesar dos outros. O pior é deixarem-me morrer porque a morte é contagiosa." - Algures em 2011
terça-feira, maio 21, 2013
Tudo pode ser definido em instantes. Aquilo que é
importante, que pode mudar o curso de uma vida num ápice, pode também aceitar
modulações. Após uma crise significativa pode instalar-se uma calma estranha e
abrangente. Parece que, mesmo em meio a determinada tristeza ou baixa de humor,
pode surgir uma posteridade que filtra a vida que vivemos com a nitidez
cortante de uma manhã soalheira mas fria de Inverno. É, afinal, como se
pudéssemos ver cada detalhe, cada ruga de pele nos rostos que passam, cada
estalido do mecanismo a descarregar cada minuto que já não volta. É, afinal, um
ganho. Ou melhor, um reganhar. Ou um reposicionamento. Ou um novo olhar, um
novo par de óculos, uma nova conclusão acerca de determinadas ingenuidades que
ainda não havíamos assassinado e que, de alguma forma, até podem trazer a
promessa de outras.
Forçadas ou não, as aterragens têm uma dupla
valência. Como já vimos o terreno lá de cima, sabemos melhor onde pisar. E como
as asas não se vão, percebemos que talvez possamos voltar a levantar voo.
Ganhar liberdade assim é duro, e acima de tudo, quase uma cauterização. Mas é
no valor de um modelo de desencanto adaptado que está a possibilidade de
redescobrir, plantar, ou simplesmente exaurir um terreno. É sempre mais fácil
ver alternativas em dias de sol. Guardando algo absolutamente em nós, sabemos
que é nas suas formatações que estamos, chegamos, ou pertencemos ao que tiver
de ser.
É assim. Sabemo-lo antes de o formularmos. E
perseguimo-lo. Mesmo que o percamos.
É assim.
segunda-feira, maio 20, 2013
Suporto perfeitamente a solidão, mas quando a sei como tal.
Os seus abastardamentos são como morrer exangue, em lentidão. E eu tenho pouca pachorra para dores em crescendo, ameaças cada vez mais sérias, fotogramas de finais a meio do filme.
Uma coisa completamente diferente são aquelas feridas sérias, mas não mortais. Há algo no endurance calmo de uma possibilidade de reconstrução que talvez valha todo o tempo do mundo.
Não há ilusão sem possibilidade de verdade, por mais remota que seja.
Na maior parte dos casos, quando se é ingénuo intencionalmente, não se honra nem a inocência nem a possível beleza daquela verdade que pode ou não suceder. Não se honra nada. É apenas viver ligado a uma máquina, sem testamento vital que sequer os safe daquilo que se atrevem a fingir. É brincar á cabra cega sem venda ou ao quarto escuro com lente de contacto de infravermelhos.
Ninguém sabe, mas não é necessário. Quem vê, passa assim a desconhecer.
Quem sabe, sabe também que numa cegueira parcial há toda a visão possível. Aquela que nos diz para onde realmente podemos ir. Já não sós. Claro. Porque pode ser a única forma de cegueira não degenerativa. Para melhor ou pior, passaremos a ver.
Ou é solidão, ou não é.
E a partir daí, aí sim, logo decidimos.
Os seus abastardamentos são como morrer exangue, em lentidão. E eu tenho pouca pachorra para dores em crescendo, ameaças cada vez mais sérias, fotogramas de finais a meio do filme.
Uma coisa completamente diferente são aquelas feridas sérias, mas não mortais. Há algo no endurance calmo de uma possibilidade de reconstrução que talvez valha todo o tempo do mundo.
Não há ilusão sem possibilidade de verdade, por mais remota que seja.
Na maior parte dos casos, quando se é ingénuo intencionalmente, não se honra nem a inocência nem a possível beleza daquela verdade que pode ou não suceder. Não se honra nada. É apenas viver ligado a uma máquina, sem testamento vital que sequer os safe daquilo que se atrevem a fingir. É brincar á cabra cega sem venda ou ao quarto escuro com lente de contacto de infravermelhos.
Ninguém sabe, mas não é necessário. Quem vê, passa assim a desconhecer.
Quem sabe, sabe também que numa cegueira parcial há toda a visão possível. Aquela que nos diz para onde realmente podemos ir. Já não sós. Claro. Porque pode ser a única forma de cegueira não degenerativa. Para melhor ou pior, passaremos a ver.
Ou é solidão, ou não é.
E a partir daí, aí sim, logo decidimos.
Acabei mais uma história.
Dito assim, parece uma coisa inconsequente. no fundo talvez seja. Não há paradas e o mundo continua a girar e como dizia S. King, um bilião e meio de chineses não se poderiam estar mais a borrifar para o caso.
Mas acabar uma história tem algo que se lhe diga. Para mim é sempre um misto de alívio, alegria e angústia. vivo com aquelas personagens durante algum tempo. Em alguns casos, foram meses. E sei que elas não voltam, que não mais poderei "brincar" com a vida delas (que graça, como se não fosse a história que desse as ordens), nunca mais poderei sentar-me com elas dentro da sua central de pensamentos e saber exactamente o que as atormenta ou o que lhes causou um sorriso real.
É bom ver algo terminado. Ver que algum destino foi dado a uma visão que tive, a uma pequena alucinação através da qual me atrevi a mandar um par de buchas acerca de qualquer coisa numa realidade meio criada meio abastardada do "meu" real.
Com esta história termina o segundo livro de contos e short-stories. Mais duzentas páginas. Mais um punhado de tormentos, anseios ou simples vontade de contar algo.
Agora, estalar os dedos e venha a próxima.
(e já agora, convém rever as já terminadas para enviar algo decente para começar a colecionar as simpáticas cartas de rejeição...)
sexta-feira, maio 17, 2013
Não ganhaste.
Venci eu, espero.
Não ganhei a ninguém. Venci-me. Talvez de forma irrecuperável, talvez apenas para conhecer um buraco que se devora em profundidade.
Não sei o que fazes. Não sei bem o que fazer.
Sei pedir, sei que quero, sei que estendo os braços, e a calma não se compadece com o vazio. Sou injusto? Talvez. Desfaço-me nas desculpas que sei que não consigo dar. Dou o que tenho e sei que não posso fazer outra coisa. Porque não tenho outra coisa. E já esta é o que é
Não ganhaste.
Simplesmente provaste, através de acções que não são tuas, que o mundo pode ser uma tremenda e escura ameaça, mesmo quando deve ser bom.
Mostraste que de facto muitas coisas não fazem sentido, e que a mortalidade da esperança que temos num pequeno sentido, é tão arrasadora como o desejo que temos de a ver concretizada.
Perdi. Perdi eu.
Perdi a inocência estúpida que não tinha razão para ter. Recusei o pragmatismo ausente por receio, o que é a mesma coisa que dizer que não tenho qualquer lanterna. Talvez nem a tua. Talvez nunca a tenha tido.
Não ganhaste.
Mas está escuro. Não devia, mas está muito escuro.
E a partir daí já não sei nada. Já nada vejo.
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