ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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segunda-feira, maio 27, 2013


A Linha – parte I


Há um anúncio a uma marca de produtos de telecomunicações que fala numa linha que separa o essencial do resto. A tal linha que não se cruza. Aquela que todos temos como certa, mesmo que lhe desconheçamos a morfologia. Essa linha, dizem, pode ser elástica. E é verdade. Pode ser tão elástica como a forma que arranjamos de a suportar mais à frente ou mais atrás. É tão móvel como a nossa percepção das realidades feitas  a pele interna, e não a um olho externamente objectivo, e por isso, talvez possuidor de uma melhor mão no que diz respeito ao desenho do contorno real das coisas.


O problema dessa linha é que ela bule com a esperança. Pode bem ser a história da forma irresistível que se confronta com o objecto inamovível. Podem ser os extremos de uma pessoa a reconhecer-se, e a certa altura, verificarem da sua mais que previsível incapacidade coexistirem. Essa dialéctica pode dilacerar-nos ao ponto do impensável, porque talvez puxem pelas duas tendências mais extremas de cada um, e o que é pior, é que mesmo dentro da pessoa, ambas podem estar certas. Como? Porque esperar pelo melhor e saber que não conseguiremos suportar tudo são as escoras por onde toda a nossa água incontrolável anda, em ondas, em repelões, em remoinhos, em tremendas e contraditórias correntes.


Num filme meio parvo que vi no outro dia, mas que se inspirava numa obra maior (Sensibilidade e Bom Senso – Janeu Austen), as personagens, cada uma delas meio tonta depois de sofrer a sua respectiva castanhada afectiva, falavam desassombradas das atitudes possíveis num cenário de perda ou ganho.   


“Por vezes é necessário entrar num jogo, mesmo que saibamos que o vamos perder.”


Ao que outra personagem responde.


“E se não jogamos precisamente porque sabemos que o mais provável é ganhar?”


Embora não sejam exactamente estas as oposições a que me refiro, a verdade é que o movimento percepção versus esperança coloca as mais complicadas das questões, as mais arrevesadas das teimosias, e, sobretudo, é sempre, mas sempre produto de uma qualquer fractura. Seja porque nos salvamos, seja porque ficamos perenemente marcados.


A linha pode até ser elástica, mas há uma altura em que a elasticidade é apenas forçada por uma esperança afectiva que, como qualquer animal em situação muito séria, lutará acima de si, até apoiado numa força que se calhar não tem, porque ao não ter nada a perder, ainda assim se recusa a perder tudo. Não aceita, tem dentes, morde, sangra, e move-se. A tal linha parece, por isso mesmo elástica, mas no fim, todos sabemos o que fizemos, e acima de tudo, o que a linha cerca. A linha intransponível cerca o único mundo que temos. E não aceita anexação hostil. Não pode sequer. Como água e azeite, esse “dentro” e esse “fora” podem conviver, mas sempre contiguamente. Não são o iguais, e por isso mesmo, não se podem confundir em si mesmos. E ainda assim tentam. E ainda assim recusam as fronteiras que nada mais são que a definição do que pode viver mas raramente sobrevive.


A tal linha não é elástica. Elástica é a forma como a vemos. Elástica é a capacidade de teimar numa interpretação de factos tão dolorosamente claros, que a incredulidade da capacidade de desejar se atreve a colocá-los em causa. Elástico é querer à força, querer para além da morte porque não se consegue crer nela. Essa elasticidade é mágica, e produz algumas das mais bonitas formas de sentir e agir que consigo imaginar. A raiva, dor e desejo que daí saem são tão profundamente intensas e verdadeiras, que não podemos deixar de as ouvir e sentir o coração apertar nem que seja em respeito. Ou talvez porque o som de um a partir nos seja familiar a todos, e por isso mesmo, há sempre a esperança que de uma próxima vez seja diferente. Estúpido, é verdade, mas absolutamente inevitável. Setenta por cento das possíveis formas de amor não sobreviveriam sem isso. Pouco haveria a esperar. Ou a poder consertar-se com a possibilidade dos tais terrenos poderem confundir-se entre si.


No gume dessa lâmina, estão os piores e mais profundos golpes, paredes meias com a ideia de salvação, seja ela qual for, ou seja qual for o formato e sofisticação da mentira que nega a necessidade da sua existência. A verdade é que a tal linha está lá. E podemos nunca a cruzar. Podem nunca a pisar. Mas ela não se move. Não se desloca. E só é elástica enquanto conseguirmos não vê-la ou ouvi-la porque o desejo é tremendamente opaco e nós gritamos demasiado alto.


Há uma linha que separa as doenças do coração do rasgar irreparável do mesmo. E sabemos o que ela é, ainda que nunca tenhamos de a invocar, ou perder tudo porque ela foi pisada.


Há uma linha que nos separa do mundo. É precisamente aquela que o contorna. Se tivermos muita, mas muita sorte, não o veremos morrer pisoteado. E este é aquele tipo de sorte que definitivamente não se faz. E que pouquíssimas vezes se tem. 

 


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