ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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segunda-feira, maio 27, 2013


Eu sabia que ele não tinha desistido. Sabia. Não era possível. Era legível, estava em cada gesto e em cada negação trapalhona e incapaz de convencer uma criança de quatro anos. Eu sabia que ele não tinha desistido, mesmo que o reiterasse em alto e bom som, como uma espécie de bravata que os olhos desmentiam com facilidade. O desejo, assim como a nostalgia imorredoura, não ligam absolutamente nada ao que nos sai da boca. Preferem dar brilhos e expressões aos olhos que se tornam são o epíteto da denúncia.


Sabia que as mensagens de telemóvel eram escritas até com outro ritmo. Que o segredo que ele guardava consigo era feito da matéria que são todos os segredos reais, ou seja, simultaneamente corrosiva e orientadora.


Falava com ele e a negação saía com um sorriso cansado. As palavras eram veementes, mas nunca as dava por terminadas sem admitir que o final que aceitara era um imperativo lógico próprio da forma como tinha de viver a sua vida. Esse imperativo falava de um controlo que ele não possuía, e que ornamentava a sua bravata afectiva como talha dourada faria a algo com pretensões a ouro.


Custava-me vê-lo assim. Sabia que a verdade a que ele se agarrava era aquela. À que ainda se agarra. Mas também sei que em cada gesto que ele tem, há aquele desejo de denúncia próprio de quem em tempos tudo sabotou para que destruíssem por ele. Há simplesmente quem não suporte o amor na sua vertente cambiante, errática, caótica e extraordinariamente perigosa. Há, assim, quem não se suporte a si mesmo. E teime. Como ele teima.


Custa-me vê-lo assim. Porque provavelmente ele não se vê.

  


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