ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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quinta-feira, maio 23, 2013



TENHO MEDO DAS MULHERES.

Parte I(??)

Tenho medo das mulheres.

Está decidido.

Não que isso seja uma novidade. De facto, não o é. Mas cada vez que chego a esta conclusão é uma ideia renovada. Tenho medo das mulheres. Tenho medo porque embora vivam dentro da verdade em muitas ocasiões, provavelmente mais do que os homens, a realidade dos factos que são delas mudam, conforme o vento lhes muda as franjas do cabelo na testa ou um fenómeno sensível numa improbabilidade do mundo lhes reorganiza a estratégia que nem tinham.

Tenho medo das mulheres porque, embora não seja, talvez, verdade, parecem poder ir a qualquer momento e por qualquer motivo. Temo-as porque ouvem os seu próprios gritos desde um período bem mais tenro da vida que aquele em que comecei a ouvir os meus. E assim, cansadas mas conscientes de si, não têm hesitações naquilo que realmente querem. Temo-as, porque a certa altura farão aquilo que bem entenderem, por pior que seja a explicação, por mais complicada que seja a consequência. As mulheres são de facto mais “fieis” que os homens. A si mesmas. Nada mais nem nada menos que isso. Em última análise, nada as deterá porque nem conseguem entender porque não são capazes de se deter a si mesmas. Mesmo quando querem. Talvez especialmente quando o querem fazer. É como se não conseguissem ultrajar a força da honestidade com que se respeitam pelo que realmente são.

Tenho medo das mulheres. Sei o que são capazes de criar, o que podem desfazer, e a forma como se podem evadir de um terreno terraplanado com a graça com que lá chegaram. Assim como levam os seus amores a sério, as suas destruições não são para brincadeiras. As suas manipulações são como uma sábia colocação de explosivos num prédio ainda aparentemente robusto. A força da dita fragilidade, associada a uma clara percepção de qual é o caminho, porque não estão fascinadas connosco como nós com elas, é do mais terríveis paradoxos da existência, e raramente lhe escapamos.

Tenho medo das mulheres mesmo quando são burras ou pusilânimes, porque ainda assim, as mulheres sabem exactamente onde andamos. Estamos perdidos. Elas fingem desnorte. Sabem que todos os nossos ruídos, gestos danças atrapalhadas são, em grande parte, por causa delas, por causa daquilo que nos fascina e teimam em não deixar entender. Talvez por piedade, sei lá. Talvez fosse bem pior se o deixassem. Teríamos de reagir em conformidade. E elas tornar-se-iam ainda mais temíveis.

Tenho medo das mulheres porque são capazes. Do melhor e do pior. E de ambos, disto mesmo nos intermédios.

Tenho medo das mulheres porque sei que só ouvem quando querem, só aceitam quando sentem, só constroem quando não podem evitar fazê-lo. Porque esperam que a liberdade que respira da sua capacidade possa de alguma forma ser aceite por todas as mecânicas do desejo, e que na impossibilidade disto mesmo reside muito do poder delas.

Tenho medo das mulheres porque manipulam mesmo pelos bons motivos. A maior parte das vezes, talvez mesmo apenas por esses. Porque sabem mais da morte, do amor, da perda, da resiliência, e têm pouca pachorra para ensinar. Porque a sua pedagogia está num reconhecimento de capacidade que esperam de outros, e a sua paciência é infinda quando percebem que isso pode brotar, não importa o custo.

Tenho medo das mulheres porque lhes escrevi muito e raramente recebi uma letra que fosse. Tenho medo, porque, ainda assim, elas conseguiam dizer muito mais coisas que eu. Até mesmo aquelas que nem sabiam estar a proferir ou emitir.

Tenho medo das mulheres porque não precisam do pedestal que, em algumas ocasiões, e ainda assim, lhes faço. Tenho medo das mulheres porque no assombramento de um amor de rendição parecem, ainda assim, belas porque livres. Tenho medo de algumas mulheres porque escolhem amar-me e raramente entendo o porquê. E ao buscá-lo, a sua escolha é dada numa bandeja feita de vidro translucido, mostrando que a dureza do chão pode estar logo ali.

Tenho medo das mulheres porque as endeusamos ao mesmo tempo que elas nos humanizam. Tenho medo das mulheres não quando me escapam, mas quando eu as deixo escapar. Tenho medo das mulheres porque amo o que não lhes entendo e me apaixono apenas pelo que vou percebendo.

Tenho medo das mulheres porque são elas.

Tenho medo das mulheres.

Está decidido.
 

 


























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