TENHO MEDO
DAS MULHERES.
Parte I(??)
Tenho medo das mulheres.
Está decidido.
Não que isso seja uma novidade. De facto, não
o é. Mas cada vez que chego a esta conclusão é uma ideia renovada. Tenho medo
das mulheres. Tenho medo porque embora vivam dentro da verdade em muitas
ocasiões, provavelmente mais do que os homens, a realidade dos factos que são
delas mudam, conforme o vento lhes muda as franjas do cabelo na testa ou um
fenómeno sensível numa improbabilidade do mundo lhes reorganiza a estratégia
que nem tinham.
Tenho medo das mulheres porque, embora não
seja, talvez, verdade, parecem poder ir a qualquer momento e por qualquer
motivo. Temo-as porque ouvem os seu próprios gritos desde um período bem mais
tenro da vida que aquele em que comecei a ouvir os meus. E assim, cansadas mas
conscientes de si, não têm hesitações naquilo que realmente querem. Temo-as,
porque a certa altura farão aquilo que bem entenderem, por pior que seja a
explicação, por mais complicada que seja a consequência. As mulheres são de
facto mais “fieis” que os homens. A si mesmas. Nada mais nem nada menos que
isso. Em última análise, nada as deterá porque nem conseguem entender porque
não são capazes de se deter a si mesmas. Mesmo quando querem. Talvez
especialmente quando o querem fazer. É como se não conseguissem ultrajar a
força da honestidade com que se respeitam pelo que realmente são.
Tenho medo das mulheres. Sei o que são
capazes de criar, o que podem desfazer, e a forma como se podem evadir de um
terreno terraplanado com a graça com que lá chegaram. Assim como levam os seus
amores a sério, as suas destruições não são para brincadeiras. As suas
manipulações são como uma sábia colocação de explosivos num prédio ainda
aparentemente robusto. A força da dita fragilidade, associada a uma clara
percepção de qual é o caminho, porque não estão fascinadas connosco como nós
com elas, é do mais terríveis paradoxos da existência, e raramente lhe
escapamos.
Tenho medo das mulheres mesmo quando são
burras ou pusilânimes, porque ainda assim, as mulheres sabem exactamente onde
andamos. Estamos perdidos. Elas fingem desnorte. Sabem que todos os nossos
ruídos, gestos danças atrapalhadas são, em grande parte, por causa delas, por
causa daquilo que nos fascina e teimam em não deixar entender. Talvez por
piedade, sei lá. Talvez fosse bem pior se o deixassem. Teríamos de reagir em
conformidade. E elas tornar-se-iam ainda mais temíveis.
Tenho medo das mulheres porque são capazes.
Do melhor e do pior. E de ambos, disto mesmo nos intermédios.
Tenho medo das mulheres porque sei que só
ouvem quando querem, só aceitam quando sentem, só constroem quando não podem
evitar fazê-lo. Porque esperam que a liberdade que respira da sua capacidade
possa de alguma forma ser aceite por todas as mecânicas do desejo, e que na
impossibilidade disto mesmo reside muito do poder delas.
Tenho medo das mulheres porque manipulam
mesmo pelos bons motivos. A maior parte das vezes, talvez mesmo apenas por
esses. Porque sabem mais da morte, do amor, da perda, da resiliência, e têm
pouca pachorra para ensinar. Porque a sua pedagogia está num reconhecimento de
capacidade que esperam de outros, e a sua paciência é infinda quando percebem
que isso pode brotar, não importa o custo.
Tenho medo das mulheres porque lhes escrevi
muito e raramente recebi uma letra que fosse. Tenho medo, porque, ainda assim,
elas conseguiam dizer muito mais coisas que eu. Até mesmo aquelas que nem
sabiam estar a proferir ou emitir.
Tenho medo das mulheres porque não precisam
do pedestal que, em algumas ocasiões, e ainda assim, lhes faço. Tenho medo das
mulheres porque no assombramento de um amor de rendição parecem, ainda assim, belas
porque livres. Tenho medo de algumas mulheres porque escolhem amar-me e
raramente entendo o porquê. E ao buscá-lo, a sua escolha é dada numa bandeja
feita de vidro translucido, mostrando que a dureza do chão pode estar logo ali.
Tenho medo das mulheres porque as endeusamos
ao mesmo tempo que elas nos humanizam. Tenho medo das mulheres não quando me
escapam, mas quando eu as deixo escapar. Tenho medo das mulheres porque amo o
que não lhes entendo e me apaixono apenas pelo que vou percebendo.
Tenho medo das mulheres porque são elas.
Tenho medo das mulheres.
Está decidido.
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