É uma espécie de cobertor suave. É uma carícia venenosa, um falso descanso, uma dormência aparentemente confortável, mas estropiadora. Começa por retirar as incidências de intensidade a quase tudo, mas sempre precedida de picos de tais intensidades, como a velha metáfora de lâmpadas e pirilampos.
É difícil de explicar, como já seria a quem pudesse ou quisesse entender. Talvez porque não tenha nada a explicar, quando a película a preto e branco é tantas vezes elucidadora de detalhes.
É complicado de desenhar, esse cansaço. Um cansaço que agudiza todas as sensações à entrada, mas faz delas uma espécie de açorda informe e morna quando se processam. A percepção está lá. É como uma epidural que afinal deixa doer, mas sem localizar onde.
Há algo no mal negro que significa uma vantagem. Há avisos. Há lucidez. Há a percepção rendida mas jamais estúpida a um certo tipo de beijo diário que nada traz de bom. Eu sei que a língua é bífida. Não tenho percepções ou ilusões morfológicas. Sabe a cinza e nem por isso presta.
Mas enquanto se destacar face ao resto, é um dano, não exactamente um perigo. Há necessidades na tristeza que fazem do mundo uma viagem enrolada. Dá vontade de rir mesmo quando escurece. É um cobertor suave, que não aquece, mas não ilude.
É poder esperar. E ver o que aí vem.
A Primavera tem também beijos venenosos. O calor derivado é uma insistência da nudez à qual não nos permitimos porque nem sequer sabemos como despir o que já parece descarnado.
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