Sou anti clericalista e agnóstico. Tenho
os pés chatos, os dentes e o nariz torto. Sou tão teimoso quão curioso. Há
muito que julgo só em último caso. Odeio o relativismo absoluto. Sou o pior e mais insuportável dos estetas
porque só me toca a autenticidade de um todo. Sou dado a melancolias, insuflo o
cinzento de dias que não são meus. Rio-me genuinamente do génio de quem faz rir
genuinamente. Tenho as mulheres na conta de seres profundamente límbicos mas
sem sequer uma ameaça de qualquer sistema. Sou algo de pensador livre, graças
aos meus pais, ao padre Gonçalves (por oposição), ao Daffy Duck, Homem Aranha,
Professor Baltazar e o Kant. Acho que não se deve dar o peixe, mas não é
admissível negar as canas. Retenho uma quantidade parva de informação quase toda
inútil. Sou um geek cujo disfarce está cada vez pior. Vou aos limites quando
tem de ser e quando, recentemente, os ultrapassei, tive de pagar a justa
factura. Sou um crédulo. Coisas da boca para fora não existem. Está dito,
existe e responsabiliza. A começar pelos meus disparates. Sou grato, ou tento
ser. Sou algo isolacionista. Se me cruzam a linha de gelo, o polo norte é uma
espécie de sauna perto daquilo em que me torno. Emociono-me. Sou um
sentimentalista ocasional. Um racional teimoso. Um passional por vocação. Pago
as facturas da política da verdade, precisamente porque sei que não é possível
a ausência da mentira. Gosto de gostar. Sou grato pelo entusiasmo por coisas
que teimam em renovar-se. E por outras, feitas por estranhos, mas que afinal me
eram dirigidas.
Conclusão, não faço ideia do que se passa durante maior parte do tempo.
