Hoje disse a alguém que a principal virtude e
simultaneamente a maior ausente é a compaixão. A compaixão é, afinal, um
exercício simples. À partida parece o simples acto de estender a mão, misturado
com uma panaceia de várias formas de perdão. Mas isso é reduzi-la. A compaixão
é, para mim, uma forma de afecto em potência. Parte de uma capacidade abstracta
para depois ser aplicada a um ou mais sujeitos concretos. A compaixão é a
capacidade de gostar antes mesmo de a conseguirmos direccionar. Permite, em
passos muitos simples, abrir todos os dedos da mão para poder agarrar. Ser
compassivo é, ao contrário do que se possa pensar, ser muito criterioso nas
oportunidades que se dão. Porque uma vez despedaçado esse abstracto, é todo o
coração que endurece, nem que seja mais um bocadinho. Em termos de pequenos
crimes, poucos são piores que o estilhaçar da compaixão.
A compaixão é a capacidade de gostar por
redenção quando ainda a desconhecemos. É o que permite ultrapassar as barreiras
mais evidentes da protecção, porque não nos protegemos ao querer entrar. A
compaixão permite acolher as mil mensagens que o contidas nos gritos mudos de
olhos cheios. É o que conforta a solidão mais cheia de multidões. É, mais que
um acto de bondade, uma antecipação da mesma. Faz bem ao ser possível
imaginá-la e mesmo na maior das descrenças, respeitá-la pelo que representa. A
compaixão é deixar descansar. É deixar o frio lá fora. É o irmão mais velho que
mostra os dentes, o aroma do lanche da avó que acabou de afastar os rufiões, as
luzes na estrada depois de andar no bosque em noite de lua nova. A compaixão
despendida nasce de um querer que surge antes de ser vontade. E vive ao sair de
cada um para bem de alguém. Assim sendo,
restarão dúvidas quanto à sua raridade?

Sem comentários:
Publicar um comentário