Quando penso que a coisa não pode descer mais, eis que
encontro sempre uma pérola que prova que nada é mais democrático que a
estupidez. Há gente a defender o que sucedeu em Paris como uma consequência
possível quando “não se respeitam certos valores ou crenças”. Como as receitas
de bacalhau, há mil e uma maneiras de provar que isto é imbecil e mesmo
perigoso do ponto de vista dos princípios, mas se como diz o velho adágio, a
pena é mais poderosa que a espada, talvez a estes “defensores” do “respeito”
lhes possa ocorrer o que significa a liberdade de expressão e o sangue que
custou para a estabelecer no que designamos normalmente como Estado de Direito.
O humor não tem
vacas sagradas, e se de facto a questão do bom ou mau gosto é debatível, não é
com violência, assassinato e qualquer patrocínio a uma forma de delito de
opinião, com base em falsas ideias de “respeito”. É curioso como o que li,
vindo de gente religiosa, nunca se reverte quando as religiões organizadas
mantêm um “índex” de livros proibidos, não se coíbem de emitir juízos idiotas e
misóginos (adorei a do imã saudita que dizia que conduzir reduzia a fertilidade
feminina), insultam e menorizam orientações sexuais diversas da sua cartilha, e
poderíamos continuar… Que diriam estes arautos do respeito se soubessem que a
“querida” Madre Teresa de Calcutá, nos anos 70, apoiou o referendo irlandês na
questão da impossibilidade de divórcio, mesmo que existissem maus tratos e toda
a série de sevícias entre cônjuges? Ou
que dizia a populações pobres e sujeitas a todo o tipo de DST que o
preservativo era pecado? Pois, e isto a mim ofende-me profundamente, o que se
calhar me motivaria a dizer que um balázio era a solução. Imbecil e primário,
não é? Pois… agora vamos lá pensar um bocadinho sobre esta analogia?
Aconselho a leitura de um livro de um dos meus
heróis (C. CHitchens - «Deus não é grande»), infelizmente já falecido, e rever algumas das caricaturas dos artistas
do Charlie Hebdo, e pensar até que ponto a parvoíce surge mascarada de
politicamente correcto, ainda por cima quando se fala de organizações e
personagens que tanto ofendem o mundo e que, ainda assim, há quem ache que
devem ser isentos de crítica ou sátira.
Como dizia o Bill Maher, em nome da consistência e
honestidade intelectual mínima, não há dois lados para uma questão quando um
deles é estúpido. No caso em apreço, das “consequências possíveis pela falta de
respeito”, a premissa é auto demonstrativa, pela constante falta de respeito
que os “ofendidos” dispensam pelo mundo todo a toda a hora.
Como dizia o
prisioneiro V - “Behind
this mask there is more than just flesh. Beneath this mask there is an idea...
and ideas are bulletproof.”
Acrescento,
“à prova de medo”.
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