ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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sexta-feira, fevereiro 06, 2015


A ideia da solução necessárias das coisas, ou de algumas coisas, é uma ideia simpática, mas nem sempre correcta.

Diz-se que não pode chover sempre, é verdade, mas há estragos causados pela chuva que não são revertidos pela aparição superveniente do sol. A alternatividade do positivo face ao negativo deriva da natureza das coisas, mas nem sempre carrega todos os efeitos consigo. As pessoas que nos são próximas podem, efectivamente, criar danos que não são passíveis de debelar. São as frases que não se podem retirar, as percepções que não se pode fingir desconhecer, as ausências e pequenas crueldades que ficam na mente, em loop, à espera de uma panaceia que não há alquimista que conheça.

A tragédia doméstica de cada vida talvez seja quantidade de coisas e factos que gravam marcas na forma como se vai vivendo o que é considerado normal. E não raras vezes, a pertença a um qualquer grupo de pretensos interesses, por sua vez ditos afectivos, não indica minimamente o conhecimento ou empatia mútua. Por vezes pertence-se porque se encaixa, mas quando questionadas as razões pelas quais se gosta de quem gosta ou faz parte, são mais notórias as dissensões que as proximidades. Aliás, adoro a ideia de "somos tão diversos e ainda assim tão amigos", o que é, em duas palavras, uma mentira piedosa. Uma falácia socialmente adequada. As diferenças, quando cravadas a uma certa profundidade, geram tolerâncias, não afectos. Porque os afectos são, como tantas vezes foi já dito, as casas em que se reconhece um coração que confundimos com o nosso. Uma pré-percepção, uma sensação de história antiga mesmo quando há cronologia curta, um entendimento ao nível dos silêncios, das pequenas e escondidas coisas que são gritadas todos os dias ao desconhecimento como uma bandeira falada de identidade.

Há coisas que podem gerar aprendizagens. Geram sempre. Mas nem sempre boas. Algumas não servem para nada senão para perceber coisas que seria melhor não entender como tal. Deixam marcas, poluem e nunca se vão embora. é o efeito da chuva ácida que sol algum desvanece. Resta, nesses casos, um controlo de danos, uma prevenção e um olhar para um carreiro mal explorado. Mas, creio eu, as dores reais são feitas dos desencontros que não vão a lado nenhum, cuja alternativa nem sequer é a pergunta feita na encruzilhada. São feitas do nada, da impotência, da inercia e apatia. Passa-se muito tempo a pensar nisto, mesmo que disfarçado com coisas imbecis como substâncias que brincam com o hipotálamo ou  um sentido de humor falso à prova de bala, que soa sempre a um bobo da corte que não sabe quando parar.

Por vezes não há remédio para a perda pela morte, para o desencontro, para a crueldade, para o desamor. Por vezes não há nenhum osso mais forte a crescer da fractura. Por vezes há apenas uma cicatriz e uma moinha persistente, que tenta ser enterrada pelo desejo eclético e natural de ser mais feliz no próximo minuto que neste. Com sorte, não é enterrada, mas confunde-se na paisagem, ou torna-se uma tatuagem mal desenhada no meio de dez perfeitas. Mas não sai da pele. Está e estará lá.
E quando desaparece, não é pelo perdão, mas pelo esquecimento. O que é bem pior que a acrimónia, ao contrário do que tanto se diz. Não há nada pior que o nada.

Tenho um ódio profundo pelo que, ao longo do tempo, me foi dando esta percepção. E ainda pior é no caso em que me ensinaram a esquecer. Quando não perdoo, esqueço. Parece paradoxal, mas é a mais directa das lógicas. A mente expulsa o insuportável, tornando-o inexistente. Não consigo pensar em nada que seja pior que isso. Quando consigo não pensar em alguma coisa.



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