ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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quarta-feira, novembro 22, 2017

BRAVO RAP!



Estou em processo de leitura e não há forma de concordar mais e mais alto tom com tudo o que aqui é magistralmente dito.
Na era da linguagem securitária e o controlo de tudo o que é discurso, é imperioso que se perceba que até uma besta como o Pedro Arroja tem direito a dizer as alarvidades que quiser. É necessário entender que os justiceiros sociais e os correctores do comportamento privado são apenas uma decomposição daquilo que nada tem a ver com cidadania e civilidade mas apenas e só controlo. Nos anos 50 queriam proibir os Comics do Super Homem porque as crianças podiam voar pela janela com panos vermelho ao pescoço, uma década mais tarde, era o Rock and Roll que era imoral, e nos dias de hoje é preciso ter um mecanismo ultra-sensível a qualquer agenda porque o discurso e as atitudes têm de ser vigiadas a todo o custo.
Eu lembro-me sempre do Juvenal e do que dizia acerca de quem guarda os guardas. Fico descansado que haja gente com mentes absolutamente impolutas e com 100% na caderneta da cidadania ao ponto de corrigir cada palavra do discurso, até no humor. Eu acho essa gente perigosa, e felizmente, por enquanto, ainda não conseguiram calar aqueles que sabem perfeitamente a diferença entre crimes, segregação e discriminação grave e mariquices (aproveito para elucidar ao policiamento social que esta expressão também se aplica e muito aos adeptos da heterossxualidade, e como qualquer pessoa com bom senso, nada tem a ver com orientação sexual...) que não interessam ao menino Jesus (viram, duas blasfémias sociais na mesma frase...?).
Recordo que pessoas com a mesma forma de pensar acharam bem queimar e tentar destruir embaixadas por causa de cartoons... Há quem tenha matado gente por causa disso, porque se sentiram "ofendidos" por algo dito por alguém. Isto dos Charlies volúveis é esquisito... É como ter o PC a condenar ( e bem, diga-se) tiques fascistas na Polónia e Hungria, mas a assobiar para o ar quando se fala em Angola ou Coreia do Norte, ou ter a direita a espumar com a Venezuela mas a falar pianinho das "sweat shops" na China e Malásia... Pois é... é do caraças.
Há largos anos que me debato com moralistas convictos, e normalmente nada de bom vem dali. Diz a experiência e a história que os moralistas são, não raras vezes, nada mais que cúpidos.
Experimentem estar um campo de basquetebol só com amigos africanos e negros, mais altos, mais fortes e melhores, e perceberão que quando brincam connosco ao dizer que os "brancos" saltam menos e outras coisas, fazem-no como brincadeira ou mera conversa circunstancial de competidores e não com intuito racista. E ainda que o fosse são... palavras e não exactamente um incitamento ao ódio...
O bom senso anda mesmo de férias na era das redes sociais de indignação diária. Isto é que deveria preocupar.
Tenho a edição autografada. Ainda bem.
NAJ ™ – 21/11/2017 - Estações Diferentes™


CARTA DE ALFORRIA EM CHINÊS? NÃO OBRIGADO.


No decorrer da nossa vida, tendo em conta as coisas que são e se foram tornando importantes, a situação de perda é uma hipótese a considerar. Se há situação recorrente na dinâmica entre as pessoas, é a possibilidade ou efetividade da perda. Assim como recorrente é também a forma canhestra como se lida com isso. Se há receitas certeiras para encaixar as perdas de algo importante, patenteie-se. Alguém vai ficar rico e depressa.
Essas perdas dificilmente se resolvem. Excluindo a morte, poder-se-á pensar que os outros casos de perda podem ser solucionados. Neste caso a possibilidade não é correlativa à probabilidade. É rara a recuperação, o que faz crer que nos casos do que nos é precioso, porque é raro, talvez fosse coerente achar que é na raridade que a raridade se compõe e recupera. Pois, talvez fosse. Mas para isso, é necessária informação. É necessário perceber o que sucede, e porquê. É necessário entender as razões pelas quais a corda se parte. É a tensão excessiva? Corrosão dos materiais por falta de uso? Um Deus Ex Machina na forma de uma tesoura? É o quê?
Bem sei que há uma espécie de folclore moderno segundo o qual as amizades, as raras, se mantêm e apoiam numa espécie de latência, ou seja, pronto a uso mesmo que poucos se use. É uma espécie de Spray Bala dos afectos. Passando o que pessoalmente penso sobre esta pérola autoindulgente, a verdade é que antes de chegar aqui, aconteceu uma perda. Não há maquilhagem que esconda a real noção daquilo que não está na agenda nem faz parte do circuito interno, mesmo que amabilidade, a cortesia e até mesmo a afabilidade surjam como um daqueles bonecos na caixa. Que diabo, até o sinistro macacos das moedas dizia ao transeunte que queria ser nosso amigo e ser como nós.
A verdade é que encaixo quase tudo bem. Chateia-me, magoa-me, como a qualquer um o faria, mas como dizem amiúde, fica tudo diluído numa calma estoica que se confundem com aceitação acrítica. Talvez até seja um silêncio feito das mil perguntas até achar a tal justificação para o sucedido, assente em mim. Mas há situações em que isso não ocorre. Fica apenas um senso de leve injustiça, (injustificado porque não podemos ou não devemos de maneira nenhuma chamar afectos à atenção – é um contrassenso em termos), associado a uma mágoa pela tal perda e porque não se consegue traçar um caminho que a explique. É tudo deixado num silêncio ou numa cortesia que, no fundo, e porque não contém qualquer agressão, fica na tal latência, talvez à espera de um fim de memória ou a habituação a um vazio.
Eu não me dou bem com isso. Em casas de banho e portas de saída prefiro sinais claros. Se tenho de perder, que seja efectivo e rápido, para que se passe à fase de convalescença enquanto se tenta não ficar absoluta e completamente cínico.
Simples.
NAJ ™ – 21/11/2017 - Estações Diferentes™



terça-feira, novembro 21, 2017

DICKENS, AH SEMPRE DICKENS...

Bill Maher dá o tratamento Dickens a Trump... E ainda assim é.. sei lá...



MORAL POR TRANSFERÊNCIA…? SE CALHAR NÃO…




Há uma espécie de pessoas que me faz alguma espécie. Encontro-os amiúde. Em mesas de jantar, em convívios, em toda a parte. São aqueles que definem o comportamento dos outros através das suas incapacidades próprias e geram a sua moralidade por fenómenos de transferência.
Concretizando.

São aquelas pessoas que mantêm uma coisa qualquer a que chamam relação ou seja lá o que for, que nada mais é que uma espécie de acordo profissionalizado em comunhão de mesa e leito (este último entenda-se muuuuuito latamente), e que vivem uma não existência baseada em todas e quaisquer manobras de diversão. Seja a profissão ou o curso de bolos ou os jogos do Benfica, tudo serve para diversificar de algo que nem os próprios sabem o que é, e que vivem num rame-rame perfeitamente admitido de algo que é nada, mas que se mantém por “objectivos superiores”.

E quais são?

Bom, por onde começar:

- As crianças. Esta malta parte do princípio que os miúdos são parvos e não pressentem que não existe clima afectivo. Ainda que isso seja arguível numa idade mais tenra, a verdade é que rapidamente se apercebem, porque são esponjas sensoriais e emocionais, que alguma merda não está bem, ou que está mesmo tudo uma merda. Numa outra perspectiva, as crianças são utilizadas como pisa papéis de um receio mortífero por uma solidão que, embora já existente, parece (estranhamente para mim, mas ok) melhor que a alternativa. A força do hábito, ainda que este seja algo parecido com água choca, é tremendo face a algo que pode nem conter um copo na equação.

- O sacrifício. Não sei bem o que isto quer dizer, mas demasiadas pessoas falam de algo como estar junto a quem seja como um sacrifício necessário para construir alguma coisa. Parece algo como ter de acartar centenas de carros de tijolos para depois contruir uma muralha que os aprisione. Não funciona, mas a malta não vai dar cabo disto porque, “é preciso aguentar”. Ocorrem-me muitas coisas acerca disto, e poucas delas simpáticas, mas acho que posso arriscar a dizer que a falta de lógica da qual isto padece é de tal forma gritante que só mesmo uma má-fé pode arguir o contrário. Tenho o máximo respeito por quem o admita e ainda assim faça, porque é uma opção, mas sonsice porque querem que as suas opções sejam validadas como a norma a seguir é que já me cheira a esturro.

- A moral. Sim, aquela abstração que ninguém sabe muito bem o que quer dizer, mas que as mesas de pessoas “decentes” e “equilibradas” não mencionam, mesmo que o chavascal de bastidores envergonhasse o Pasolini. A cartilha da adequação parece uma espécie de manual do escuteiro-mirim em versão sonsa, mas é repetido como texto bíblico em homilia.
Ora, se isto for uma opção pessoa, posso discordar, mas cada um enforca-se com a corda e o banco que desejar. Certamente que opções diversas são legitimas e cada um faz o que quer, ainda que eu, ou seja quem for, possa discordar da substância.

Já coisa bem diversa é a moral por fenómeno de transferência, ou seja, aquelas pessoas que até sabem que as escolhas acima são uma trampa fumegante, mas cuja forma de as legitimar é criticando opções diversas. Há gente, e muita mesmo, que sugere que alguém sujeito a uma agressão, ainda que ocasional, deve permanecer “em casa” por causa das crianças. Como se estas não fossem o primeiro motivo para a pessoa “cavar” dali e até levar os putos consigo. E isto é valido para situações em que as pessoas já não têm nenhuma ligação que não seja uma escala de tarefas, ou porque simplesmente já nada funciona. Apelam para uma consciência moral, profundamente sonsa e dissimulada, a partir da qual validam a sua morte lenta a partir de um dever-ser que só existe mesmo na sua cabeça e na diocese mais próxima. 

E é aqui que me encanita. Verificar que há pessoas que realmente justificam todas as formas de violência, seja ela efectiva ( penalmente relevante, física e mentalmente) ou mais diferida, como a que constitui as pessoas simplesmente não se sentirem bem onde estão, ou pior, não sentirem nada de nada senão a continuidade de uma estrada que anda em círculos, e sem paisagem. E ainda mais grave quando são os confidentes a minar decisões ou simples desabafos ou pedidos de apoio, com base na “moral superior”, que no fundo é algo que não significa merda nenhuma senão uma noção muito anacrónica de caladinho, remediado e lavadinho, versão afectivo/social. Que bom seria que estas pessoas cuidasse da sua vidinha e, ao menos, não passassem julgamento, quando têm suficientes esqueletos no armário para fazer uma nova capela dos ossos. Que não quer viver, ao menos que não passe essa ideia aos outros, e sobretudo não através de um mecanismo de propagação de medo e culpa usado por outros dogmatismo também tão cheios de asneiras e contradições…


NAJ ™ – 21/11/2017 - Estações Diferentes™




segunda-feira, novembro 20, 2017

INTERESSE




Achar que não se é, pelo menos um pouco, interesseiro nos afectos é tão irreal como julgar que algum afecto pode ser maioritariamente constituído por esse factor. Mas em que é que se é interesseiro? Em que medida? Como e porquê? Bem, talvez pelos melhores motivos. Ser interesseiro face às pessoas de quem se gosta ou que interessam faz parte do impulso que as mantém próximas. É porque se quer mesmo algo delas. Algo que só a elas pertence. Que só pode vir delas. Que se não interessasse, juntar-se-ia ao resto das inexistências. Se a coisa correr bem, quer-se sempre algo de alguém e vice-versa. E como nada pertence realmente a ninguém sem ser o próprio, é-se interesseiro porque algo só acontece em razão do que se quer. Do outro. De algo do outro. Portanto, nos afectos, não há ponto sem nó. É tudo linha. Para puxar alguma coisa.

NAJ ™ – 20/11/2013 - Estações Diferentes™



sexta-feira, novembro 17, 2017

LUTOS HIPOTÉTICOS




Sabendo bem mais do que desejaria sobre os reais, os lutos hipotéticos são, ainda assim, uma chatice. São chatos porque normalmente surgem na crista de uma dúvida com uma dose de probabilidade bem agarrada a uma alternativa, mas que se agarram aquela ideia final de incerteza, muitas vezes cimentada em passados ou factos sólidos. Os lutos hipotéticos podem ser vistos como aquele parente próximo acolhemos mas que, passado algum tempo, já nem sabemos se está a viver lá em casa ou não. Aparece muito ocasionalmente, faz uma festa como se a tivesse planeado connosco a cada dia precedente, e desaparece com a mesma imprevisibilidade como que apareceu.


Deixar as pessoas em alguns dos seus caminhos é chato, mas há solidez na definitividade que a torna pelo menos passível de uma reacção. A malta fica triste, estrebucha, faz toda a autoanálise possível e imaginária para descobrir qual a sua parcela de culpa, mas no fim dia, encaixa, processa e lá vai.
O que sucede nestas coisas, quanto a traumas e opiniões sobre o impacto de outros em cada um, varia de pessoa para pessoa, e entre um optimismo inconsciente (ou meramente parvo), e a criação de uma distância (algo) críptica, a qual analisa qualquer outro “aproximante” com um estilete capaz de fatiar medula. Não se recomenda nenhum dos dois, como é obvio, mas é quase impossível não fazer uma medição relativa a certas entregas e questionar a sua bondade intrínseca. É difícil um tipo não se sentir lorpa, ou pelo menos, no papel do infeliz que entra numa sala e, por isso mesmo, é o único que não sabe o que lá se passou.


As perdas, solturas e desaparecimentos são difíceis e doem. Ficam na mente como a análise de uma incapacidade própria e a nostalgia de lugares e contextos aos quais se “pertecia”. E quem não quer fazer parte integrante e contribuinte de algo? Alguma forma de pertença, como coisa rara,  ainda é a cenoura da maior parte da nossa interacção social e afectiva. É o escudo do mundo e contra o mundo quando é necessário. É a medida da nossa definição perante o que somos e fazemos. É o reflexo do valor medido e traduzido por poucos mas indefetíveis alguéns. E, ao contrário de tantas outras coisas, essa é uma premissa que não basta sugerir. Não se presume nunca. Se há lutos a fazer, que sejam reais. Hipóteses claras de perda são apenas um mal-estar adiado. Recuperando o velho adágio popular, “o que arde cura”, mas se vai ardendo sempre, mais vale cortar. 

NAJ ™ – 17/11/2017 - Estações Diferentes™