ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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sexta-feira, setembro 29, 2017

ESTUPIDEZ OU SINDROME POLÍTICO DE ESTOCOLMO

Pela primeira vez, desde que exerço o direito máximo da democracia, irei votar em branco. Os candidatos na minha autarquia - Oeiras - são de uma miséria franciscana tal que simplesmente parece um dever de conscienciosa mostrar o quão inadequados parecem ser todos. O vazio de conteúdo é arrasador. 

O concelho onde resido apresta-se a dar maioria absoluta a um criminoso condenado precisamente por desbaratar e locupletar-se com dinheiros e bens públicos no exercício do cargo ao qual parece que será reconduzido. Na autarquia com maior número de licenciados per capita, dizem, os munícipes preparam-se para reeleger um ex-autarca corrupto porque "rouba mas faz", uma das frases mais estúpidas que alguma vez foi proferida, sendo o nível de palermice da mesma apenas equivalente à sua eficácia na mentalidade colectiva.

Não consigo perceber. Não consigo mesmo entender porque se coloca não uma raposa mas um carcaju (glutão ou wolverine) dentro de um galinheiro.




(O) QUE(M) INTERESSA(?)




Há situações comuns, ou arrisco a dizer, quase genéricas no que diz respeito à vida das pessoas. Uma dessas situações prende-se com os laços afectivos e a sua dinâmica. Em suma, como surgem, vivem e podem ou não findar ou entrar em estado de dormência ou latência. A complexidade destes fenómenos prende-se não com um dever abstracto das pessoas umas para com as outras, mas da chamada expectativa criada pelo próprio laço. No fundo, quando o comportamento de um significante, seja em que medida for, tem uma constância, é natural que a perturbação desta linearidade leve os envolvidos a estranhar, reagir ou simplesmente deixar. 

Embora não subscreva de todo a frase do Pedro Mexia – “Talvez seja verdade que ninguém gosta realmente de ninguém”, sei o que ele quer dizer, ou pelo menos entendo o que ele diz com uma dose mais moderada de aplicabilidade. No meu caso, acho que é lixado perceber até que ponto as pessoas poderão sair de si mesmas por causa de um qualquer outro, motivado apenas pela afeição que lhes têm. Claro que som isto não abdico por um segundo da absoluta necessidade da reciprocidade ou troca imanente.

Julgo que a dinâmica de interesse real entre pessoas, nomeadamente entre amigos, surge da mistura certa entre dádiva e expectativa, não porque se entre numa lógica competitiva de troca de favores e gestos, mas porque a acção e presença daqueles de quem gostamos é essencial. Se relembrarmos a literatura (e não só) e deixarmos de parte ideias idiotas e tendenciosas que consideram nisto qualquer relação romântica necessária, pensemos em Holmes e Watson, House e Wilson, Gamgee e Baggins, Poirot e Hastings, Steed e Peel, Redding e Dufresne, Claiborne e Donovan, LaChance Chambers e por aí fora, percebemos que há na génese de laços uma dualidade inescapável – constância e diferenciação pelo gesto a mais, pelo que não é igual para outros na dinâmica da cumplicidade e intensidade emocional. Reforçando este ponto, recordo uma história engraçada contada por Frank Darabont a propósito do seu Shawshank Redemption, na qual este contava ter recebido cartas de homens, agradecendo-lhe a perspectiva da sua obra (mais propriamente de Stephen King, mas adiante) que reflectia a relação emocional entre dois homens, sem a componente romântica. Esta perspectiva parece-me riquíssima porque pode ser claramente extrapolada para a ideia da multiplicidade de afectos que podem ou não seguir uma linha “normalizada”, mas que assentam numa premissa base – é uma certa presença teimosa que faz a diferença na solidez emocional, seja num par de amantes ou em dois amigos que, relembrando o autor, “se agarram um ao outro para não afundarem”. 

A chave está (parece-me) numa coisa tão simples de conceber como aparentemente complicada de realizar. Trata-se de interesse, do facto do outro nos interessar realmente e nos interessar o que este faz, produz, cria ou como a vida lhe corre menos bem ou por linhas mais tortas. A diferença está num gesto ou conjunto deles que significam a vontade de comunicar triunfos e derrotas, bem como entusiasmos tão idiossicráticos que só aquela(s) pessoa(s) entenderão porque estamos aos gritos ao telefone ou aos pulos na fila para um filme ou convenção de caçadores de borboletas.

É claro que, por milhares de motivos, o que está acima não é passível de ocorrer com muitas pessoas. Seja porque o tempo é finito ou porque há sempre uma multiplicidade de escolhas e/ou engulhos convicentes e imperativamente alterantivos. Mas façamos um exercício de memória. Quando foi a última vez que compraram um presente para alguém porque sim? Quando tiraram uma fotografia de algo que sabiam que essa pessoa gostaria? Quando foi a ultima vez que lhes escreveram uma carta, postal ou até um e-mail? Quando é que pensaram mesmo num presente de aniversário ou Natal que reflectisse, dentro do razoável, algo mesmo indicado para aquela(s) pessoa(s)? Quando foi a ultima vez que, a fazer zapping, se depararam com o filme preferido daquela(s) pessoa(s) e enviaram um sms a recordar-lhes isso? A lista é infinda, assim como são os pormenores que fazem ou podem fazer a diferença, bem como a dimensão do que é a “vida moderna” e como isso simplesmente é esquecido ou remetido para um subentendido new age e parvo segundo o qual as acções e presenças mínimas são pressentidas, não tendo de ser exercidas. 

Quem nunca pecou nisto que lance a pedreira. É um facto. Mas, como em tudo, é a persistência, a perenidade da ausência que faz o dano ou faz desaparecer a robustez (e talvez mesmo a necessidade) do laço. Principalmente quando um detalhe certeiro faz uma diferença significativa, apenas e só porque do outro lado alguém fez algo por nos sem razão alguma senão o gosto que teve nisso. Por tudo e por nada, como ouvi em tempos recuados. Ao menos alguma vez, diria. 

Afinal, o que interessa? Até se mostrar, nunca sabemos. Não é?  

NAJ ™ – 29/09/2017 - Estações Diferentes™
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METÁFORAS...OU TALVEZ NÃO






quinta-feira, setembro 28, 2017

GRATIDÃO VS ÁGUA NO BICO...




A experiência diz-me que muitas vezes não há um equilíbrio mínimo entre aquilo que é supostamente devido ou exigível ou qual a essência da gratidão e o chamado cálculo de promissórias, água no bico, agenda oculta, o que lhe quiserem chamar. 

Há uma grande diferença entre dar algo e reservar uma expectativa de que essa dádiva, feita sem qualquer intuito, possa gerar uma dialéctica de troca de riqueza relacional entre as pessoas e a dádiva que tem uma espécie de etiqueta com letras pequenas e cláusulas duvidosas. 

Há quem dê porque esse é o impulso, porque naquele instante há a vontade de sair de si e chegar até ao outro. É também uma forma de consolidar, de acrescentar algo mais de solidez pelo simples gosto de proporcionar prazer ou querer acrescentar algo. Qualquer tipo de relação entre as pessoas sobrevive à custa dessa dialéctica, da gestão adaptada mas natural das expectativas, da forma como se trocam quereres através da capacidade de receber. quem dá desta forma espera poder criar o impulso para poder receber, mas na génese da atitude não está a primazia da retribuição como elemento justificativo. Não é na necessidade da troca que se fundamenta o gesto originado de uma vontade de fazer bem ou dar algo a alguém. É porque alguém motivou um impulso criativo, de acrescentar, de tocar, de fazer, de chegar lá. E por isso damos, porque o afecto assim o determina.

Depois há quem dê porque faz parte da estratégia. Porque no momento da dádiva já há uma espécie de retorno necessário previsto. A génese da atitude é como que diferida, assenta não na vontade autónoma, mas quase num investimento, uma espécie de adubo humano “à força”, um constante teste no formato de uma conta corrente (não?) assumida. Quem assim dá, rapidamente esquece a lógica que assiste a uma dialéctica afectiva. 

Erra por duas razões.
- A primeira, porque se a sua atitude não cria qualquer espécie de efeito de ricochete no outro, então o outro é simplesmente um sugador inerte de energia, e o erro divide-se por dois, um pelo desejo do ganho calculado, e o outro pela inércia do objecto do afecto ou acção.
- A segunda porque, normalmente, a sua conta corrente é de uma avidez terrível, assente numa objectividade de números e factos fechados, quando deveria simplesmente basear-se numa troca de naturalidades assente na vontade. No fundo, “toma lá dá cá” porque apetece, porque as pessoas motivam a isso, porque da expectativa à exigência vai um mundo de diferença que normalmente se organiza por uma coisa chamada empatia. E a empatia raramente se coaduna com a voracidade de egos que, convencidos de que só se defendem, acham que tudo lhes é devido, da exacta forma como o configuram. No fundo, ao darem, já imaginam o ganho. Ao contribuírem, é para serem reconhecidos como tal. E ao terem de dividir, mostram-se o expoente máximo da incapacidade. Tudo redunda numa espécie de dádiva com elástico, tudo atribuído como se se tratassem de perguntas fechadas.
 

É humano e normal esperarmos algo daqueles a quem (nos) damos, mas se a génese da atitude é a devolução necessária da bola de jogo, e com juros, então o mais provável é que nem seja das pessoas que gostam, mas apenas da utilidade material que ela, ou o que dela provier, poderá ter para os seus intuitos, sejam eles de que natureza forem, dentro dos grandes conceitos, a saber, prazer, afecto, posse, ego.
É importantíssimo ser grato e saber retribuir. O que me parece algo grave surge quando em cada impulso só soa o alarme interno da exigência retributiva. Esvazia a generosidade, e potencia o despotismo do ego. Essas pessoas acabam por não dar nada a ninguém e a predar tudo o que puderem em todos.




NAJ ™ – 03/05/2012 - Estações Diferentes™
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