ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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sexta-feira, setembro 01, 2017

EXCERTO 1...


«Na rua mais acima, atrás do jardim dos medronheiros, existia a biblioteca. É uma das muitas coisas que tenho pena é que nunca a tenhas visto em funcionamento. O edifício ainda lá está mas parece um idoso de semblante triste abandonado numa trincheira felizmente preservada pela mancha florestal que rodeia o ainda existente bairro, como sabes, mas na altura em que eu tinha dez ou onze anos, aquela imensa casa estava viva. A porta principal era dupla, larga alta, feita de vidro grosso e riscado e madeira pesada. Guinchava nos gonzos sempre que a abríamos, com uma saudação tão arrepiante como familiar. O enorme corredor guinava à esquerda e pouco à frente existia uma porta que dava acesso a uma sala de espectáculos povoada por um palco e cadeiras construídos em madeira maciça e escura. O palco estava coberto por uma cortina de cor de veludo grosso e cor de sangue antigo e tudo tinha o cheiro do tempo que passa e histórias que não se querem perder. Sempre que passava por lá inspirava o aroma da sala e ainda hoje, enquanto escrevo isto, gostaria de ter poder descrever o que o odor me provoca, mesmo em memória. Era o cheiro a casa. A familiaridade.
Em frente à sala de espectáculos, uma escada larga e batida pelo tempo subia em caracol ao andar superior. As luzes das janelas, quando os dias soalheiros e compridos estavam quase a acabar, desenhavam retângulos amarelados na pedra polida e amolgada por milhões de passos. Por vezes sentava-me naquela escada só para sentir o calor da luz na cabeça ou nas pernas e ler um pouco. Não era muito frequente porque queria sempre chegar ao primeiro andar e a que lá estava.
A escada dava acesso a um corredor largo. Uma série de portas, antigas como tudo o resto, permaneciam fechadas à chave, provocando-nos com a promessa de segredos e tesouros que certamente encerravam, esquecidos de toda a gente, até por quem os teria lá arrumado. Não me ocorria sequer pensar que algumas dessas portas davam acesso à sala onde eu entrava todos os dias que pudesse.
No meio de todas essas portas, no entanto, havia uma especial e bem maior que as outras. Estava sempre aberta entre as oito da manhã e as sete da tarde dos dias de semana e dava acesso à antiga biblioteca municipal. Era o meu local favorito de todos. Não havia sala ou sítio que gostasse mais que entrar naquela sala e ver as estantes de madeira escurecida, com as grades algo enferrujadas que guardavam os livros com tenacidade. As mesas eram grandes, pesadas, de tampo inclinado, ideais para abrir em enorme Atlas ou fazer desenhos a partir das ilustrações dos primeiros volumes de Asterix ou Blake e Mortimer que lá existiam. Seria normal então que os fins-de-semana fossem um profundo aborrecimento. Era uma atitude que os meus pais e amigos não entendiam, reacção que me acompanhou em tantas outras coisas até à idade adulta ou mesmo até… Bem, adiante.
A biblioteca tinha um guardião. Tu provavelmente ainda te lembras do Sitio do Pica-pau Amarelo, por isso posso apenas dizer-te que o Pedro, o bibliotecário, era uma espécie de Visconde de Sabugosa à civil e consideravelmente gago. Alto e magro como um espeto, tinha um nariz adunco, óculos grossos, uma cabeleira farta e desalinhada e um sorriso bondoso. Quando entrávamos na sua biblioteca, tínhamos sempre de preencher uma pequena ficha. Quando te digo que era cada vez que entrássemos, não brinco. Se saíssemos para ir à casa de banho ou a casa comer um pão com manteiga e beber um Toddy, teríamos de preencher nova ficha ao voltar. Isto ocorria quer demorássemos cinco ou cinquenta minutos. Sem falhar. A ficha era absolutamente espartana. Nome, idade e profissão. Recordo que também foi ali que treinei as minhas primeiras letras, para além dos cadernos da primária.
Devo estar a aborrecer-te com isto, mas verás que poucas coisas na vida da tua mãe foram mais importantes do que aquela sala, aqueles livros e tudo o que se passou à volta daquele local, daquele bairro e daquelas pessoas.
Ainda mal começámos.»

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