ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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segunda-feira, setembro 11, 2017

PARADOXOS E O BURRO DO SHREK



 Em tempos disseram-me que eu era uma rocha. Depois, que eu era desconfiado por natureza. Depois ainda que eu era duro e até mesmo frio quando contemplado com coisas menos organizadas ou emotivas. Este era um discurso constante e mesmo defendido com unhas e dentes, apesar de desmontado quase sempre, mas raramente mudou.
Associado a isto, existia a questão atinente à minha pretensa resistência. Culpado desse desiderato alheio, sempre fiquei meio perdido entre dar razão e perceber que se calhar deveria meter a boca no trombone e protestar, até agressivamente se tivesse de ser. A verdade é que isso nunca ocorreu e acho que a suprema elegância isolacionista que a minha mãe me passou levou-se sempre a tentar a dignidade da saída suave. Por mais que me custasse, eu não ia por o braço no ar. Esta atitude, obviamente, enferma de uma estupidez primária, porque faz com que haja uma expectativa de leitura das nuances ais ou menos sofisticadas por parte daqueles que eu considero(ava) que me conheciam bem e, pasme-se, receariam magoar-me, desconsiderar-me ou perder-me. O nível da burrice crescia com o paradoxo que era a minha manutenção da muralha como uma positividade inquestionável. Sim pá, sou resistente e isso é a coisa a fazer. Ora esta afirmação tem duas verdades mas uma incorreção. Sendo a coisa a fazer, deveria ser imune aos isolamentos e “abandonos” supervenientes. O meu respeito pela liberdade alheia deveria (e porra, é) ser superior a todas as consequências associadas ao facto de sermos “desejados” ou parte de algo num momento, para depois simplesmente passarmos a uma nota de rodapé ou arquivo pouco usado, sem que se saiba exatamente o processo que nos tornou “notícias de ontem”.
Ora o paradoxo instala-se porque uma pessoa fica sem saber bem o que fazer. Uma alta autoestima certamente fará uma de duas coisas. Ou ignora porque a sua satisfação consigo simplesmente varre qualquer perturbação da ideia que a pessoa tem de si, ou mete a boca no trombone e estrebucha com a indignação de que acha que vale bem mais do que aquilo com que aparentemente o presenteiam, especialmente se começa por ser bem mais do que aquilo que leva à reclamação.
Uma autoestima assim-assim começa e acaba a fazer perguntas, especialmente se o comportamento dito normal não sofre alterações mas os resultados do mesmo não podem ser mais diferenciados em determinados momentos da vida e da dialéctica. O clichê de bestial a besta é mais sofisticado. Passa a haver a ausência de uma serie de pequenos mas fundamentais detalhes, que em nada colocam em causa a cortesia ou a ideia de que somos “queridos” por alguém. As fugas subtis que mais incapacitam as reacções. Se procurarmos bem vemos que não há um desvalor, uma crítica injusta ou uma má acção directa. Há apenas um esvair, um pouco como uma bebida deliciosíssima que, apesar disso, evaporou ao sol.
Uma autoestima de merda acabará por ver tudo isso como síndroma de “Learned Helplessness”, um termo bem mais bonito que Abandono Aprendido, mas que é de fácil análise.
A verdade é que o questionamento da força face a uma serie de virtudes da vulnerabilidade como proximidade ou um direito a uma identidade sensível é, na maior parte dos casos, um falso conselho ou opinião. Não vou dizer que a intenção é em si falaciosa, mas há obviamente um desejo dissimulado. Se abrirmos a comporta daquela tal vulnerabilidade reclamada e glorificada, não será entendido como o correr de um regato de água preciosa, mas uma barragem no limite que, uma vez aberta, leva tudo à frente, incluindo o eu “receptor”, o qual, desde o início, sabia que não sabia nadar. A força é desejada, porque significa uma espécie de recuo digno perante a mudança de atitude. Não há o histrionismo e sim uma contenção entendida como aceitação e que, em suma, chateia pouco ou nada. E é de facto digna essa atitude, entroncada ou não com clichês estafadíssimos sobre a liberdade como caminho de retorno daquilo que é “nosso”. Mas é ao mesmo tempo uma espécie de renúncia dorida em razão da dúvida que cada um tem para consigo acerca daquilo a que “tem direito” no que concerne ao afecto dos outros e do seu para com eles. Os despóticos, neuróticos e exacerbadamente egoístas acharão que tudo é falha para com eles e nada falha dos próprios. E custa-me admitir que este tipo de atitude “Burro do Shrek com Esteroides” tem bem mais resultados do que se calhar deveria ter, mas também é verdade que desconheço qual a medida equilibrada entre a tal elegância no abandono e a justa reclamação.
Independentemente do que se possa retirar do tema, a verdade é só uma. O que muda quando aparentemente não mudamos? Qual foi a transformação? Onde passamos a falhar ou quando se esgotou o nosso arsenal? Há ou não o direito ou pelo menos o dever, de cada um para si mesmo, de pelo menos explicar porque o novo estatuto não é agradável, ainda que o assumamos. Sim, assume-se porque não há opção sempre que a alternativa é a liberdade. O limite máximo ou mínimo de qualquer coisa está na manifestação da vontade, do querer, do reflexo que deixa de haver, na naturalidade que passa a ter se ser construída ao invés de gerida. Pode custar como o diabo, e essa é a grande dúvida, mas não é negociável. Como dizia Tim Minchin, é como um orgasmo. Se pensarmos demasiadamente no mesmo, ele vai-se. A diferença aqui é que não há forma de reabilitar uma naturalidade senão a partir daquilo que somos. O problema é que se continuamos a ser e a naturalidade se vai, é impossível não questionar a razão pela qual passámos da mensagem necessária no momento de quase morte ou certo triunfo para os receptores da notícia já tratada pela tal elegância que não quer ser (debalde) confundida com distância.
Eu cá gosto dos meus. Sinto-lhes a falta quando faltam. Apetece-me dizer-lhes que tudo o que faço, de alguma forma, os tem em mente porque embora seja um “quase-solitário” por deformação pessoal, a verdade é que sem a troca afectiva dos que chegam cá, ainda que de diferentes formas, começo a padecer da chamada tristeza autossuficiente, coisa elegante (lá está ela) mas profundamente corrosiva para as competências sociais que permitem, como é mesmo(?), ah sim, gozar a vida ou parte dela. E fazê-lo com e também por causa de alguns outros.  
Eis-me então perante essa dúvida, essa terrível premissa alternativa. Devo continuar no silencio do meu promontório de calhau, ou cutucar o ombro e dizer que se calhar, ao menos, quero saber porquê?
Fica esta ideia, e acho que talvez ela explique qual a opção que tomei.
Espero.

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