ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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sexta-feira, setembro 08, 2017

“PORREIRO”


Há um paradoxo com qual julgo que só um certo tipo pessoas se deparam. Não porque sejam melhores que outras, não porque lidem melhor ou pior com certas coisas, não, talvez, porque tenham mais amor abstracto a certa forma de agir ou entender o contributo de outros. Sinceramente, esse paradoxo surge porque lhes é natural agir assim. Surge porque, ao escolher, elegem uma atitude que possa de alguma forma reflectir pelo menos parte do que gostariam que fosse feito por eles. Não porque achem que há algum dever ou um livro de regras não escritas. Sentem-no simplesmente porque há algo noutros que leva a que a vida possa ser algo melhor com a presença deles e, como se sabe, a definição de presença varia muito.


Esse paradoxo tem duas componentes:



 - A incapacidade quase organiza de manter um ressentimento prolongado ou rancor;



- A forma como isso não impede que certos fenómenos sejam, por isso mesmo, dados como naturais. Em suma, uma acção menos boa, um afastamento ou simples perda de interesse e coisas quejandas, são vistas como definições do remediável inevitável. Concretizando ainda mais, é quase criada a expectativa de que nunca há um efectivo estrago irremediável. É uma expectativa que nem o chega a ser porque, no fundo, nunca se acha que há algum problema. A pessoa é porreira.



Ora isto é tramado.



O designado “porreiro” parte do pressuposto que qualquer atitude deve pelo menos ter uma tentativa de entendimento. Nunca sabemos exactamente as lutas alheias, e fazer uma avaliação imediata das atitudes materiais pode significar um julgamento precipitado. Ninguém ignora que há problemas que podem ser de tal forma avassaladores que sugam o tempo que qualquer pessoa tem para ser… pessoa. Perante algo que parece surgir de forma contrária ao que era pelo menos um normal decurso das atitudes e relação entre pessoas, o esforço surge em libertar e deferir entendimento para depois. Ou pelo menos tentar. E como em tudo, há níveis de execução mínimos, diria assim.



E é precisamente com isto que o paradoxo se forma, bem como os seus efeitos.



Ao fazer-se este esforço, seja através de uma espera ou de simplesmente tentar encaixar determinadas atitudes como normais porque acima de tudo são livres, surgem várias conclusões que, com o passar de tempo ou a repetição de comportamentos geram cansaço, incompreensão ou simples tristeza.



São eles:

- A primeira conclusão. Nem sequer se acha que o destinatário é “porreiro”. É algo diferente. Como não é importante, a conclusão ou reacção que tire será indiferente. Se ficar em silencio e não chatear, ainda melhor. Aí o porreiro passa a algo pior, como passável ou iludido. É uma treta, mas não é exactamente novo. Aqueles que nunca o fizeram ou a quem nunca aconteceu ao menos uma vez que levantem a mão… Pois…



- A segunda é talvez a mais complexa. Há a confiança no conceito inabalável ou a morfologia natural do porreiro, mas julga-se que os efeitos dos actos acima descritos ( uma acção menos boa, um afastamento ou simples perda de interesse e etc…) são sempre minimizáveis. São importantes, talvez, mas não relevantes. Não é bem uma falta, é mais uma expectativa de que a definição que fizeram do porreiro se mantenha e prolongue, porque no fundo, se conclui que a perda ou não existirá ou, a existir, não interessará muito (ver parágrafo anterior).

Esta forma de agir gera máximas de parede muito patetas como “os amigos não precisam de estar presentes mas apenas estar” (macacos me mordam se sei o que isto quer dizer…), ou “um amigo é aquele que sabe tudo sobre ti e ainda assim gosta de ti” (o que até pode ser verdade mas é preciso saber da pessoas para não a julgar e gostar dela.) e outras pérolas que se vendem em chapas de metal na Tiger ou Alley Hop e lojas afins.



A verdade é que considero uma vitória a incapacidade de guardar um rancor, um desgosto ou mesmo uma embirração ou zanga activa. É bom ter o reflexo de tentar entender primeiro e só perante o desrazoável ter uma acção negativa. Há uma multiplicidade de reacções dos “porreiros”. No meu caso, admitindo que pela conjugação de alguns elementos da definição, me posso considerar um, a reacção é uma não reacção. Concretamente, é encher a bucha da desfeita, mastigar o calhau de alguma tristeza inevitável, e pensar que afinal toda a nossa boa intenção perante alguém pode mesmo não ter qualquer relevância. Não é o Inferno que está cheio de boas intenções, mas sim o silêncio. Como há quem ache que é um meio declarativo, dá-se o nada, e com ele, as mil perguntas que não são nem serão feitas em dialéctica, mas do porreiro para si mesmo. É uma forma leve de esquizofrenia ao serviço da análise, das porradarias à auto-estima e da confusão sobre o valor da identidade perante outros. É o equivalente afectivo do “agora vês-me, agora desapareço”.



É bom ser “porreiro”. Deve ser. É bom perceber que não permanece qualquer acrimónia como instinto natural e apriorístico. É bom poder perceber que até se chega a não querer mal a quem nos quis e fez esse mesmo mal.

Porém, a ideia de que esse “porreirismo” implica uma auto-suficiência do seu portador, e que em circunstância alguma isso se transformaria noutra coisa, é injusto e triste, mesmo que a definição ser “porreiro” signifique a verdade dessa premissa.

Parece-me claro que a vontade de entendimento de boa índole não deve ser considerado um elástico de expansão infinda, ainda que quase o seja. 
No fundo, andamos todos ao mesmo, não é?

 

NAJ ™ – 07/09/2017 - Estações Diferentes™
#estacoesdiferentes
#naj

#porreiro

#afecto



«(...)All that we are, all that we need
They're different things
Oh, maybe what we are and what we need
They're different things
Do you realize again, you chased an idea
Healed an earth behind some broken creature

All that we are, that we need
All what we are, what we need(...)»

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