ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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sexta-feira, dezembro 29, 2017

OS NÃO RESOLUTOS (MAS) ORGULHOSOS (?)



Normalmente não tenho resoluções muito específicas ou determinada num único ponto no tempo. Posso fazê-las em termos de princípio, mas faço-as durante o ano todo, mesmo que reforce no final do mesmo. Acho que as vou fazendo porque embora não creia em mantras, o reforço interno das ideias ajuda um pouco no caminho. E, claro está, a ideia é cumprir, o que normalmente acontece. Sai do pelo, mas a ideia é essa mesma. É um processo tendente a algo que se quer. Normalmente é algo que se quer de forma prolongada ou pelo menos consequente, o que implica tempo e esforço. É o truque mais velho do mundo e, ainda assim, um dos menos logrados.
Há, no entanto, uma espécie de postura que parece querer ser engraçada, mas surge-me sempre como alguém a falar dentro de uma divisão semi-almofadada. Trata-se do pregão das Resoluções que Não se Vão Cumprir (RNVC), uma espécie de movimento reactivo tendente a algo que só o próprio se pode importar, ou não, se as cumprirá ou não.
Como se manifestam as RNVC? São linhas e linhas, piadas e piadas acerca das dietas que não se vão seguir, a melhoria no trato com os outros que não se vai ter, os livros jornais e revistas que se continuarão a não ler, o exercício que não se vai fazer, e por aí fora. Estas negações são vociferadas com aquele ar de orgulho transgressor do mau rapaz e rapariga que, “´tás a ver”, são “bué” contra a corrente e deveriam ter a genuinidade impressa numa t-shirt ou mesmo na pele da testa. Ora tendo em conta que essas negações só terão efeitos sobre o próprio, (já que mesmo as que afectam outros condicionarão as reacções perante aquele), essa negação não parece merecer tanto alarde entusiasmado. 
E porquê?
Porque se as pessoas pretendem que o rabo continue a crescer-lhes até que nem as calças XXXL sirvam, continuar a ser umas bestas com outras pessoas em termos genéricos, permanecer num alheamento informativo e contribuir para as três centenas no colesterol, ora parece-me que isso só interessa… à própria pessoa. Parece-me, e a nível estritamente pessoal, algo meio tonto. E assim me parece porque são atitudes que em última análise prejudicam o próprio, e como tal, só chatearão os bem próximos que, por sua vez, se forem demasiado chateados vão chatear-se com outras pessoas que chateiem menos (perdão pela aliteração). Não me parece nada de revolucionário ou inovador, mas uma espécie de birra genérica que, mais uma vez, interessa muito mais ao próprio que a outros. Se é uma reafirmação de personalidade, pois, não me parece das mais famosas. Dar cabo do nosso próprio canastro é um direito constitucionalmente garantido. É por isso que não entendo o que ou quem se contrariará pela reafirmação disto em termos dos objectivos que não se vão seguir porque nunca foram sequer considerados.
Será assim tão revolucionário contrariar auto-ordens? Engraçado talvez, mas mesmo aí é raro acontecer. Mas acho que é normal nesta era da “pespinetice porque sim”. Tenho uma resolução de não ligar pevas a estas coisas. Mas falho-a. Lá está, só me chateia a mim. Bolas… :) 

NAJ ™ – 05/01/2017 - Estações Diferentes™
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quarta-feira, dezembro 27, 2017

TORMENTAS CODIFICADAS



Cada um ocupa-se daquilo que o atormenta. Muito mesmo. Cada pessoa poderá encontrar outras formas de se distrair, de se ocupar ou de se convencer, mas no final, cada pessoa se ocupará, nem que sejam os segundos mais importantes do seu dia, daquilo que a atormenta.
Nós não fazemos ideia do que muitos daqueles que estão até bem próximo guardam, do que suportam, daquilo de que se privam, do que pensam, medem, antecipam, pesam ou qualificam. Não fazemos ideia porque ninguém faz ideia da imensidão dessas nossas operações internas, daquilo de que nos rouba e ao que nos conduz, mesmo quando achamos que não podemos ir exactamente por ali. E embora esse silêncio seja necessário, raramente o desculpamos a quem não nos força a quebrá-lo, a quem não se atreve a desobedecer ao nosso manancial de regras estupidas e conceptuais a partir das quais desenhamos cada canto da nossa solidão inexplorada. E somos ainda mais parvos porque quando essa invasão existe, a intimidação existe, agredimo-la, até que ela seja tão mais esperta que a nossa falsa muralha de intimidade, onde só passeiam de um lado para o outro as fragilidades vergonhosas de quem há muito se esqueceu como se pede.
Depois, no entanto, há outra coisa pior. Existem as interpretações, ou melhor, os intérpretes. Existem aqueles que, enquanto estamos necessariamente a equilibrar os tormentos e obsessões, acham que estes se despem como uma boneca de brincar, presos a falsos velcros, como qualquer roupa a fingir. E esquecem que não podemos bem explicar aquilo que deve ser por demais evidente, que nunca sai, mas que fica connosco enquanto tentamos viver, que nunca cessa de gerar perguntas porque nem nós sabemos o que essas vestimentas experimentais podem fazer connosco. É por isso que nos ocupamos dos nossos tormentos, das nossas obsessões, dos quereres que podem ser e especialmente dos que não podem ou parecem não poder. Ocupamo-nos deles porque ao apagar-nos a luz levam-nos a palpar a sala em que estamos, e aí sim, conhecer a verdadeira dimensão e formato do que somos, por aquilo em que nos metemos ou estamos.
Já repararam que quando estamos quase mortos de sede, tocamos sempre na água antes de a bebermos?
Pois, a ideia é mais ou menos essa. Todos os dias. Pelo menos durante um ou alguns momentos. 


NAJ ™ – 22/12/2012 - Estações Diferentes™