ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


Partilhar informação @ estacoesdiferentes@gmail.com

sexta-feira, dezembro 15, 2017

COMPLEXO "ELLROY" OU O FALSO INVISÍVEL

Quando é que não se existe? Normalmente quando se é olhado de frente mas nada é visto. Quando o som da voz é inaudível mesmo aos gritos e as ideias baralhadas como cartas indistintas que nada interessam senão a um jogo próprio. 

Há uma terrível epidemia de tal tipo de “morte em vida”. A arte de tornar outros não existentes é algo polido, um “quase-tabefe”, uma desconsideração passivo-agressiva que passa por uma elegância não reactiva. O mais curioso é verificar o orgulho mal disfarçado (e sinceramente incompreensível), com que tantos assumem o gosto dessa invisibilidade. Muito chamam-lhe paz ou independência, mas não passa de uma espécie de gosto pelo descaso face a outros que os querem e continuam a querer. Ocorrem-me três exemplos. Lobo Antunes, Gregory House e James Ellroy. Só dois destes são reais. Mas é Ellroy que me interessa para o exemplo. 

James Ellroy não tem um telemóvel, um computador, não lê nada de espécie alguma e diz que jamais lerá outro livro da vida que não os seus. Diz que o mundo não lhe interessa, que fica no escuro a pensar no que escreverá, talvez em busca da pista final sobre o assassinato da sua mãe, cujo perpetrador permanece desconhecido até hoje. Tudo isto é tremendamente discutível e arrisco-me a dizer, a espaços, autista e tonto, mas é a contradição de Ellroy que me interessa. O homem a quem o mundo não diz nada de nada, quer, no entanto, que o mundo lhe compre os romances. Precisa da admiração nada velada e do seu impacto no mundo pelo qual nutre, para mim falso, desprezo. Ora isto tem de fazer confusão, além de ser uma aparente hipocrisia. 

Este “Complexo Ellroy” está presente nesta novilíngua social, nesta defesa da transparência e falta de importância do alheio, excepto quando concretiza a existência e importância do desprezador. É um pouco como aquele filho rebelde que sai de casa num momento dramático mas envia uma carta dias depois a indicar o NIB para se depositar a mesada. O Sallinger, ao menos, colocava as coisas na gaveta. O Bill Waterson vive encerrado lá num sítio e julgo que nunca mais deu as caras nem o Calvin voltou a ver a luz do dia, o que é uma pena. 

Este complexo é passado às relações ditas quotidianas. Aquela ideia da não existência do outro a não ser na perspectiva do suporte, mas não como apoio senão como degrau. Há um falso desprezo, uma hipocrisia de métodos e intenções, uma misantropia fingida. Há quem seja perfeito no acto de fazer o outro inexistir, apenas intervalado com um interesse na atitude de adoração ou reconhecimento. No fundo, a essas pessoas apenas interessa a negação alheia que esperam e sabem que não acontecerá. É tudo uma falsa saída, uma hesitação fingida, uma independência mascarada. Porque como Ellroy, querem que os cegos aprendam o braille necessário apenas para a leitura dos seus livros. Ora isso não é nem misantropia nem eremitismo nem sequer desprezo genuíno. São apenas tiques de prima donnas, ou aspirantes a tal, e nada mais importa nessa lógica que a capitulação activa de outros. Crianças mimadas que batem com a porta do quarto contando os segundos até que alguém lá vá bater. E como diz a minha santa mãe, à partida não se pode ter uma no papo e outra no saco, ou então imaginemos o Simpathy for the Devil.
Uma coisa é certa. Até para se ser uma besta é necessário ser consequente.


NAJ ™ – 15/12/2015 - Estações Diferentes™


Sem comentários: