ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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terça-feira, dezembro 05, 2017

O PERIGO DA AUTO-INTITULAÇÃO - O FASCISMO HIGIÉNICO DO POLITICAMENTE CORRECTO



 «Se a liberdade significa alguma coisa, será sobretudo o direito de dizer às outras pessoas o que elas não querem ouvir.»
George Orwell

Num jornal de Nova Iorque, ontem, surge esta notícia:

Há dias, surge esta outra:

E ainda esta outra, há dias também:

Navegamos pelo Youtube e vemos (BOM) humor como este, imaginando desde já a quantidade de gente que espumaria ou espumará da boca ao vê-lo:


Ouvimos coisas como a necessidade de disciplinar o “olhar adequado” ou “controlar a conversa de balneário” no próprio balneário ou, melhor ainda, banir a pornografia porque, imagine-se, ela pode ter elementos que não correspondem à realidade, o que é um disparate porque se sabe perfeitamente que se se for entregar uma pizza, o mais provável é haver chavascal com as ou os clientes, especialmente libertários na questão sexual e com um físico digno de nota. Sim, porque no universo da pornografia o que malta quer é realidade… bom adiante.

A verdade é que estamos numa “twilight zone”, com os auto-intitulados e puros como a neve virgem (ups, se calhar não devo dizer este termo) na cabeça do pelotão. Não há nada mais perigoso do que pessoas que não só acham que servem uma qualquer causa, como acham que são essa mesma causa. Há um clima de controlo e de exagero na dimensão das pretensas ofensas, levado a autos de fé públicos por força do fórum muitas vezes demencial da “Social Media” e que está a produzir uma doutrina de “ofendidismo” que é preocupante. E na cabeça do monstro estão os virtuosos, os justiceiros sociais, os tais auto-intitulados que acham que conhecem a real dimensão da adequação de todo e qualquer discurso ou manifestação cultural ou simplesmente humana. É uma forma especialmente perversa de excesso de ego e fanatismo, porque, como tantas vezes na história, mascara-se da intenção face ao bem comum. 

Quando uma mulher acha que a Bela Adormecida é uma espécie de tumor cultural maligno para as crianças, estamos a entrar numa deriva de tal forma pateta e perigosa que levou a crimes como banir Harper Lee ou Mark Twain de currículos oficiais escolares. A seguir se calhar vão todas as antigas cantigas de embalar, e as versões originais dos contos dos Grimm, e porque não os Klimt e as suas ruivas de estarrecer e… onde é que isto acaba?

Há dias, num podcast, dizia-se que há humor e mesmo outras formas de expressão cultural que, hoje em dia, enfrentariam um mar de contestação, especialmente daquela que perante um escrutínio leve, mostra apenas como base uma meia dúzia de chavões de “decência” e pouco pensados. Achar que o termo mariquice é uma condenação da homossexualidade é um raciocínio no mínimo preguiçoso. Há pouca gente mais maricas que um conservador empedernido, por exemplo. Mariquice está ligada à ideia de uma afectação parva e fútil, e não a quem se escolhe levar para o quarto para fazer o que apeteça. Isto deveria ser óbvio, mas não é. Ao invés, faz parte de uma espécie de cartilha da era moderna (que mais parece anacrónica e bafienta que outra coisa), onde se confunde a legitimidade da opinião e discórdia com movimentos de silenciamento e enxovalhamento público. Estas devem ser claramente daquelas pessoas que são a favor da perda de neutralidade da internet, e de controlo de conteúdos, como se pratica em regimes tão democráticos como a China, Arábia Saudita e quejandos…

Lamento mas não vou deixar de falar sobre chavascal no balneário com a rapaziada. Não vou passar a achar que o humor tem limites, o que não é o mesmo que achar que está isento de crítica, não vou baixar os olhos na rua só porque uma miúda gira passa (até porque sei que não lhe vou dizer nada, como nunca disse a nenhuma moça que alguma vez passou por mim na rua ), não vou deixar de dizer que um amigo meu é um conas quando está a ser meio cobarde ou parvo. Não vou deixar de achar que há piadas para etnias, orientações sexuais, géneros, e tudo o que possa de alguma forma encontrar-se em cada um dos “grupos” que a sociedade forma, sejam eles deliberados ou orgânicos. Não vou passar a achar que a literatura, a pintura, a música, o cinema, ou seja lá que veículo artístico for, tem de passar um crivo de decência para ser “socialmente” kosher, especialmente porque não acho que ninguém tem o direito a ser o censor do próximo e a decidir por ele, obviamente dentro dos limites da lei e do estado de direito, designadamente quanto a reais e importantes ofensas à cidadania, integridade física e por aí fora. (Para os mais esquecidos recordo que D.H. Lawrence, Pasolini, Saramago, e a lista nunca mais acaba, também foram alvo de tentativas de silenciamento por conteúdos “desadequados”.)

Acho que o juízo e o bom senso está a ficar em perigo. Ao lado das causas justas estão a crescer fenómenos securitários e despóticos, com tiques “correctivos”, próprios de coisas que são tudo menos democráticas. E quem leva essa tocha são os auto-intitulados. A expressão anglófona “self righteous” é certeira, porque designa não só quem acha que tem razão a todo o custo e como isso é definido por si mesmo e mais ninguém. Acresce a tentação de regular todos os outros e temos uma misturada complicada e perigosa. Confundir a legitimidade da crítica com a defesa do silenciamento ou abolição é prática de outros tempos ou pelo menos latitudes, a maioria deles pouco frequentáveis. Com as consequências que se conhecem...
 

NAJ ™ – 05/12/2017 - Estações Diferentes™
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