ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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quarta-feira, dezembro 06, 2017

WILSON, SANCHO PANÇA, WATSON, GAMGEE, HASTINGS, ELLIS REDDING… ONDE ANDAM? QUE SUCEDE(U)?



 É vox populi a dificuldade que todas as formas de afecto enfrentam numa era de pressa e milhares de botões a premir. Há quem fale de realidade líquida. Eu visualizo sempre uma lâmpada estroboscópica. Tudo acende e apaga numa sucessão que nem permite perceber os contornos das coisas porque a luz encandeia para logo a seguir apagar-se.
De todas as formas de afecto, aquela que a maioria das pessoas aceita como mais impermeável ao passar do tempo e do modo e a amizade. A ligação fraterna e em alguns casos, abrangente ao ponto de se equiparar a relação familiar, mas ainda maior porque não tem o laço da subjectividade julgadora que o sangue pode emprestar a qualquer um.
Acho que é incontroverso que, sendo um clichê, é absolutamente aceite que a amizade, a real, sobreviverá a terramotos pessoais. Há quem diga que até medra nessas ocasiões.
Só que os amigos não são para as ocasiões. Se são, não deveriam ser. Os amigos deveriam ser as ocasiões, os laços afectivos que, não sujeitos a tantas oscilações como outros afectos, duram. E duram mais porque conhecem mais sem instinto necessário de posse. Não mexem, pelo menos não primordialmente, com a amígdala. A amizade pode ser intensa e necessária, de sangue, mas é da sua natureza resistir a muitas coisas que outros amores não conseguem, pelo menos sem fazer qualquer estrago irremediável. 

Deveria, só que… pelos vistos pode não ser. 

É difícil abordar a ideia tendo em conta que muitos, felizmente, rejeitarão a ideia segundo a qual os seus amigos não são unha com carne. Rejeitarão a ideia que possam ter perdido rasto ao tipo a quem podiam dizer a coisa mais inconfessável e esperar apenas uma frase:

“ Vamos lá ver como é que te safamos desta merda…”

Ou:

“ Não sei o que fazer, mas estou aqui.”

Ou ainda:

“ Não sei como é que gostas dessa caca de filmes, mas se te deixa assim, sou fã por associação.”

E por aí fora. 

O que aconteceu? Aos amigos, aos que realmente o são, os que temos em “speed dial” porque num qualquer triunfo, eles não podem deixar de saber? Onde estão aqueles que, sendo obviamente poucos, sentem que o afecto que temos por eles e vice-versa não é discutível porque é exercido? Que é feito das linhas de defesa, de quem chamávamos para a porrada, daqueles que saibam porque raio é que aquele livro ou música era tão fundamental para nós? 

Há um autor que dizia que os amigos eram como empregados de mesa, que chegavam e saiam, em sucessão, trazendo pratos novos. Mas esse mesmo autor fala muitas vezes dos seus perenais e da sua importância, especialmente nos seus livros. Porra, até um tipo insuportável como o House tinha o Wilson. Até mesmo ao fim.

Por isso pergunto. 

O que aconteceu? Onde estão? No que se tornaram os laços com o advento da idade adulta? Será essa assunção de responsabilidades uma luva de tamanho universal, ou é apenas uma mudança de foco, de perspectiva, de prioridade?

Não há julgamentos a fazer nestas coisas. A vontade das pessoas é e deve ser soberana, especialmente naquilo que fazem com o seu tempo e como ou de quem gostam e como exercem essa afeição. Mas a pergunta é justa, acho eu. Porque não é baseada na cobrança de obrigações e sim na justa dúvida acerca da falta que nos faz o fundamental. Sendo por vezes tão frágil o nosso equilíbrio, especialmente face à voracidade de uma conjuntura na qual ninguém sabe muito bem o que anda a fazer, é normal sentir a saudade dos nossos. Dos poucos nossos. Dos velhos (vá, nem tanto) mas sólidos edifícios que aguentam os ventos de todas as mudanças a que somos sujeitos.

Phillip Roth disse:

“You fight your superficiality, your shallowness, so as to try to come at people without unreal expectations, without an overload of bias or hope or arrogance, as untanklike as you can be, sans cannon and machine guns and steel plating half a foot thick; you come at them unmenacingly on your own ten toes instead of tearing up the turf with your caterpillar treads, take them on with an open mind, as equals, man to man, as we used to say, and yet you never fail to get them wrong. You might as well have the brain of a tank. You get them wrong before you meet them, while you're anticipating meeting them; you get them wrong while you're with them; and then you go home to tell somebody else about the meeting and you get them all wrong again. Since the same generally goes for them with you, the whole thing is really a dazzling illusion. ... The fact remains that getting people right is not what living is all about anyway. It's getting them wrong that is living, getting them wrong and wrong and wrong and then, on careful reconsideration, getting them wrong again. That's how we know we're alive: we're wrong. Maybe the best thing would be to forget being right or wrong about people and just go along for the ride. But if you can do that -- well, lucky you.”

Não sendo obviamente eu ninguém para contrapor um génio, “arrisco (me) a arriscar” uma versão alternativa e pelo menos uma possibilidade. Aquela que assente num compromisso, por mais trapalhão que seja, em tentar afastar tanta margem de erro ou engano. Fazê-lo talvez à custa daquilo que une as pessoas e, acima de tudo, o que as mantém. Os que as gerou enquanto as metades que Aristóteles dizia serem a possibilidade de uma alma dividida, o que aqueceu a pedra agelasta a certa altura, o que impediu que aquele cenário terrível, seja ele qual for, fosse vivido solitariamente.
A maior parte das pessoas, creio eu, não sabe pedir isto. Eu certamente não sei. Não faço a mínima ideia como se reclama um lugar afectivo junto dos poucos que nos formaram e nos mantêm íntegros, como laços de corda forte e perene que impedem o desmembramento que o decorrer do tempo a todos reclama. A verdade é que não pode ser pedido. Quanto muito, pode perguntar-se. O que aconteceu? Há algo a fazer? Podem as memórias que criaram laços levar à pergunta sobre a pertinência ou mesmo sobrevivência dos mesmos? Pode pedir-se a um amigo que volte, que fique, que nos ajude a perceber como se dá corpo ao que a intenção verbal nunca nega?
Não faço ideia.
Mas espero que sim…
 
NAJ ™ – 06/12/2017 - Estações Diferentes™
#amizade


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