É uma lapalissada especialmente evidente aquela que ilustra o facto de cada pessoa ter atitudes contraditórias. Estar confuso, além de ser natural, é a fase preparatória por excelência para qualquer decisão ou atitude importante. E nem todas as atitudes importantes são modificadoras de vida, para usar a terminologia anglófona. Algumas são tão simples como comprar sapatos de sola suave para compensar as dores causadas por um esporão calcâneo. Muda muita coisa mas o dia amanhã não nascerá com dois sóis por causa disso.
Ora a consistência é algo necessário para se poder entender a forma de lidar com o outro. Não a rigidez absoluta. Tenho muito receio de pessoas que nunca mudam de opinião em nada, bem como daquelas que nunca fazem asneira. Denuncia, em meu ver, não exactamente consistência, mas quase um calculismo obsessivo. Coisas assustadoras para quem já as viu em acção. No entanto, convém não parecer uma vela em Tarifa. Ventos permanentemente e excessivamente contrários não são charme ou complexidade, mas apenas uma espécie de ausência de noção de quem se é, recaindo esse fardo para aqueles que simplesmente gostariam que lhes explicassem ao que vêm. Uma atitude de acolhimento e entusiasmo, seguida imediatamente por uma neutralidade amorfa ou distância, deixam qualquer pessoa emersa numa dúvida que, mais do que qualquer outra coisa, é chata pelas atitudes desavisadas às quais pode conduzir. Quem é que quer estar sempre atrás seja do que ou de quem for? Ou sentir que está constantemente a pigarrear para ser notado numa sala para a qual até foi entusiasticamente convidado? Ou relembrar intenções veementes transformadas em silêncios constantes? Quem é que quer ser chamado para o meio do salão de dança e ficar lá, especado, porque afinal o par não era aquele, mesmo depois do gesto inequívoco? Quem é que quer por o pé na porta se não veio nem nunca virá vender coisa alguma?
Sem saber ou perceber, a elegância e mesmo o respeito é difícil. Pode ser-se intrusivo ou pesado por acidente, baseado nas palavras claras que afinal, de realidade pouco tinham ou têm. A rejeição ao retardador é ainda mais lixada que a originária, porque ao menos a primeira não teve nenhum “build up”, não se antecipa merda nenhuma. É o que é, obrigado e bom dia, e nem sequer se gera um mal-estar ou querer por erro de coordenadas causado por quem parecia apontar coisas claras num mapa.
A consistência ensina-nos a respeitar tudo. Sim é sim, não é não, e o resto não pode variar consoante a maré bate ou qualquer forma de reforço da reflexão leva a uma e outra e outra mudança de direcção, fazendo o caminho do “convidado” parecer uma volta à pendura num carro de choque guiado por alguém padecente de labirintite. É chato, chega a ser embaraçante, espatifa a mais encouraçada das autoestimas, e acima de tudo, é deselegante, roçando a falta de educação involuntária. E como sabemos, a educação é a única coisa não negociável. É onde a civilização e a civilidade começam e acabam. E podemos poupar os outros, senão a tudo o resto, pelo menos a isto. A consistência possível é, acima de tudo, uma forma de auto-preservação. Porque evita indesejado que, muitas vezes, é só produto de explicações defeituosas num dialecto incompleto.
É, diria eu, o mínimo. Mas eu cada vez percebo menos. Também dizem que é natural, portanto, nada de preocupante aí.
NAJ ™ – 24/01/2018 - Estações Diferentes™
#estacoesdiferentes
#naj
