ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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quinta-feira, janeiro 04, 2018

MASOQUISMO? NADA A DECLARAR...

Passo a vida a dizer que não me choco facilmente. É verdade. Ou acho que é. Já vi coisas que não gostaria de ter visto, que não acrescentam nada, que não fazem crescer ou evoluir ou ter qualquer noção do oposto como lição “melhoradora”. Os efeitos desse status quo deambulam entre o que alguns consideram cinismo (de todo), e excesso de racionalização (parcialmente errado). O que se passa é mais simples. Pensa-se sobre os assuntos, escalpeliza-se as crenças que temos sobre eles e quando virmos o que restou, assentamos a identidade na romantização do que nos é importante, ainda que seja raro, difícil ou improvável. (Acho que o Conan Doyle tinha dito umas coisas sobre isto, se bem que noutro enquadramento…)
Assim, embora seja difícil chocar-me, acho que há um limiar de ingenuidade que nunca consegui erradicar. Em sede própria, já lhe chamaram romantismo, o que repudio veementemente. É um pouco aquela ideia teimosa e irredutível que não aceita a perda “naturalística” da decência ou compaixão mínima mesmo num universo fluido e sempre pleno de relativismos e nuances. Acabo, por isso mesmo, por chocar-me mais com o que é real e aceite que com aquilo que significa agressão activa. No fundo, choca-me mais a ideia da complacência do corrompido (ou abusado, escolham) do que o corruptor ou abusador.
Renego, mas de forma veemente, que a mais plena e incendiária das paixões possa redundar numa destruição dos elementos basilares da pessoa em causa, e recuso ainda mais a defesa dessa situação por força do “sentimento”. Quando há uma defesa do drama e agressão por força da inamovibilidade e dimensão do sentir, então qualquer denúncia ou repúdio da fonte de sofrimento é uma contradição. Aliás, vou mais longe, quando alguém defende essa mesma destruição como se fosse um ecletismo necessário para a existência de tal paixão, está a retirar-lhe qualquer elemento de dignidade e beleza que a capacidade de sentir tem. Há uma defesa do aleatório, que pode conter a agressão e a menorização e pura e simplesmente pode descartar o valor humano.
Ora vamos lá ver. Nada tenho contra essa defesa em tese. Discordo dela, acho-a desumana, injusta e até algo repugnante, mas se for assumida, tem de ser respeitada. É a pessoa que escolhe a vivência do que sente mesmo em meio a um mar de inferno, maus tratos (e aqui deixemos a violência domestica de fora porque não e disso que falamos) e menorização de personalidade. É discutível, mas é uma escolha. Só que essa escolha retira a possibilidade de condenar os comportamentos acima mencionados. Diz o velho brocardo que quem ama o feio bonito lhe parece. Pois adaptando, quem ama o filho da puta não pode queixar-se da sua filhaputice. Muito menos o poderá fazer quando a ausência de filhaputice redunda em desinteresse do “abusado” que afinal de contas se calhar não gosta nada de quem o trata bem.
Choca-me que haja um pendor, que muita gente nega, mas que afinal pratica no seio das suas opções, métodos e percursos, no qual há uma atracção por uma projecção de pessoa e uma motivação exponencialmente crescente em razão da distância que vai existindo entre o que se projectou e imaginou e o que realmente ali há. Em suma, quem pensava em afagos e só vai verificando mocadas na pinha, não pode defender o gosto pelas mocadas e ao mesmo tempo denunciá-las como negativas, muito menos escudando-se no que o Visconde de Valmont tão auto-indulgentemente dizia como algo “para além do meu controlo”.
Choca-me verificar que afina de contas a defesa do que é bom, compassivo, empático e por isso excitante, está afinal entregue a uma espécie distorcida de síndroma de Estocolmo, na qual se faz afinal uma defesa meio estranha de algo que pelos vistos não serve, não presta, não motiva. Como digo, respeito integralmente a defesa disto. Mas não admito e choca-me a lata de quem o pratica, e depois demoniza os actos e perspectivas que afinal são os únicos que servem para a motivação que faz a diferença, criando a defesa da paixão como argumento genérico. Choca-me que muitas pessoas gostem da negação, do mau trato, da constante frustração do mínimo, entrecortado com alívios quase psicotrópicos de sexo e paliativos quejandos, para depois, em praça pública, virem ansiar e reclamar um carinho que não querem, uma ternura que não motiva e uma atenção que dificilmente tolerarão.
Cada um gosta do que gosta e isso tem de ser respeitado. Mas há que assumir o que é, mesmo que pareça cair mal. O tal não cínico que há em mim crê que, cedo ou tarde, surgirá uma clarividência em direcção ao que toca, acolhe, importa e melhora a pessoa. Não posso crer que o valor humano, que as qualidades, que o tratamento e a empatia possam estar tão afastadas do tal incontrolável que todos assumem e tanta falta faz. Não posso ou não quero. Não quero porque recuso-me a aceitar que lado a lado com a tal misteriosa mistura de cheiro, som da voz, detalhes, frases certas, e outros insondáveis que criam os chamados gostos e atrações por certas pessoas, estejam necessariamente desfasadas da capacidade de lhes reconhecer algo, e por isso mesmo, haver algo de percepção mesmo no “sentir”.
No fundo, respeito quem gosta ou sente algo por gente que não presta. Mas julgo-os pela sua coerência, ou seja, admitam tal atracção pela destruição mas não façam uma espécie de redenção do monstro como se o sentimento em si regenerasse tudo. E acima de tudo, há que ter o pudor de não reclamar pelo que afinal não interessa, para depois saborear no segredo a dor da agressão como o dito motor da paixão ou afecto. Além de ser hipocrisia, é desnecessária e induz em erro quem tenha algo de humano para oferecer, seja, num segundo, uma hora ou uma parte significativa de vida.
Choca-me que se goste de levar na corneta, mas choca-me ainda mais que se peça/reclame o contrário quando não se quer este de todo.
 
NAJ – 4/01/2016 - Estações Diferentes™
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