1. Da Eterna Questão
Todos os anos,
em ocasiões específicas, existem maus fígados acerca de datas ou supostas efemérides
criadas para varrer o inventário das lojas da especialidade. A esmagadora
maioria das menções e trabalho de marketing associado ao chamado dia de São
Valentim são, no mínimo, desastradas e involuntariamente hilariantes. O marketing
do “amor” é como os anúncios de higiene íntima. Não há um que resulte, é tudo
pateta, algo constrangedor e sempre cómico. E andam atrás do euro? Claro.
Isto repete-se
seja no Natal, na Páscoa, no Carnaval, etc, etc etc…
Mas vamos lá ver
um par de coisas:
1.
É de facto assustador, ou triste, ou ambos, se alguém só
se lembra de levar alguém a jantar neste dia. Ou a um filme, ou a um teatro, ou
a uma espécie de massagem proscritas com óleos de flores esquisitas, ou a
comprar velas que não sejam apenas para remediar a quebra de energia em casa. É
verdade que em muitos casos parece existir uma espécie de obrigação
procedimental, e em não raras vezes, um alívio de um sentimento de culpa de
quem não sabe brincar o ano inteiro e acha que este dia equivale a pagar as
quotas anuais para esse clube. E não nos enganemos quanto a uma coisa – esta tipologia
de compensação canhestra está de ambos os lados da barreira de género. A
preguiça não escolhe o tipo de genitália ou orientação que determina o que se
deseja fazer com ela. É um fenómeno inclusivo.
2. Se
é certo o que disse acima, também o contrário é possível. Há malta que se
diverte o ano todo e TAMBÉM neste dia. É o mesmo raciocínio que aplico ao Natal,
época que me é cara. Se essas datas são apenas mais uma oportunidade para fazer
algo que já é levado a cabo regularmente, e para brincar um pouco mais, porque
não? Eu não sou partidário da festa de São Valentim porque a acho inerentemente
Kitsch, mas isso não significa que todas as manifestações
da coisa num dia como este sejam apenas e só picagem de ponto. Acredito que
seja a maioria, mas isso é outra conversa. O ponto, parece-me, é que há uma
diferença entre rir da piroseira dos peluches da Funny e um ódio figadal ao dia
que me parece ter outros motivos…
3.
Talvez seja verdade que neste dia, os (arghh…) (românticos
incorrigíveis - ou talvez muitas pessoas para as quais a medida de sucesso seja
o “check” na quadricula “relação”, mas isso é também outra conversa…) – que se
encontrem distanciados de um envolvimento mais significativo, e que sofram com
isso (pois há quem esteja muito bem), terão muito a dizer sobre a esfrega de marketing
que suportam num dia destes. Porque, como dirá qualquer pessoa que alguma vez
teve uma sintonia especial com alguém, a piroseira, restrita a níveis mínimos
bem aplicados, faz parte da capacidade de brincar que as reais empatias
proporcionam. Há no amor, seja lá o que ele for, o atrevimento para sair da elegância
e dar pequenos passos num universo de brincadeira parva. Faz parte, dizem.
Mas valerá a pena tanta bílis? Há
assim tanta denúncia irada a fazer? A data é parva o suficiente para colocar o “raivómetro”
no limite da escala? Se calhar mais vale brincar com a cena, e sim, fazer
perguntas pertinentes acerca da sanidade mental de alguém que acha que perder
um jantar neste dia é sinónimo de um crime de lesa-majestade para a tal “relação”.
Para picar pontos já chega o trabalho, digo eu, mas caraças, vale a pena
comparar isto a uma praga zombie? Eu cá acho a data pateta e canhestra, mas se
a malta se divertir com a coisa, siga. Acho que estrear o terceiro filme da sopeira
já é castigo suficiente, não acham?
4.
O que tem piada nesta altura? A história. E a História.
O mito é delicioso, e tão pleno de ironia que daria um semestre de psicanálise.
E segue abaixo. Divirtam-se. Neste e outros dias. E já agora, sem juizinho.
2. – Da História
1.
No dia 14 de Janeiro de 1929, Al Capone limpou o
sarampo a 9 rivais, tendo-se enganado num, e usado uma táctica de dissimulação
ao disfarçar dois dos executores como policiais. Este evento ficou conhecido
como o “Massacre de São Valentim” e é demasiado delicioso na sua ironia
involuntária face ao evento de massas ligado à data em questão. Tirem as vossas
conclusões. Eu sei que tiro as minhas, e são umas quantas...
Tendo isto com pano de fundo, o próprio mito de São Valentim tem tido umas
distorções para ajudar à efeméride. Há quem diga que o rapaz havia perdido a
cabeça por causa de uma moça que o teria feito repensar a sua vida
eclesiástica, mas a história é consideravelmente diferente. Não há aqui nada de
Heloísa e Abelardo, mas mais de um mártir que terá perdido a vida por querer
por juízo e ou moralidade numa sociedade estranha, onde o cristianismo tentava
assentar arraiais, especialmente em matéria de costumes.Parece que a malta em
Roma não achava piada ao casamento cristão, gente esperta e previdente lá está,
e proibiu-o porquanto se dizia que a ligação de tal sorte poderia levar a que
os soldados hesitassem aquando dos embates bélicos, por medo da sua família ou
pelo seu próprio destino. No entanto, como a fé cristã lá ia penetrando a
sociedade, (assim como um vírus – pois, o que estavam à espera?), o mártir foi
casando o pessoal às escondidas, com grande risco pessoal para ele e para os
cordeiros casadoiros do seu rebanho. Até que foi apanhado e submetido a algo
semelhante ao que aconteceu a Rasputin, [que ao que parece, segundo a história
e os Boney M (em anexo
😉 ) , era fresco e
supostamente o John Holmes do seu tempo… ] ou seja, foi espancado, lapidado e
decapitado.
2.
Dizem algumas versões que a confusão dos supostos
intentos românticos do mártir se deve à mensagem que terá deixado à filha de
Asterius (não confundir com o gaulês irredutível), um alto responsável judicial
de Roma. Diz-se que o anto Valentim a terá curado de uma cegueira, e que o pai
da pequena ter-se-á, em função disso, convertido à religião cristã, mas não a
ponto de poder evitar a terrível sentença do safardana do imperador Claudio II.
3.
Em suma, o Santo Valentim, associado a este dia de
pretensa celebração romântica e até mesmo um impulso de deliciosa carnalidade e
chavascal, era afinal um rapaz que suou as estopinhas para acabar com essas
badalhoquices imorais dos amigamentos, não raras vezes em grupo, dos romanos.
Não mencionando a evidente e contínua ironia, não deixo de sentir uma certa
pena pelo ícone desta efeméride, morto de forma terrível por celebrar
casamentos numa sociedade onde se calhar valia tudo menos tirar olhos. E
imaginem o que era se a malta gostasse?
4.
Assim, conclui-se que São Valentim não é o padroeiro do
enamoramento, nem do erotismo, nem do chamamento romântico. Era um prelado
responsável e dedicado a celebrar cerimónias de casamento, que perdeu a cabeça
por querer fazer a vontade às pessoas que insistiam em meter-se em alhadas. Eu
prefiro os mitos que diziam que ele tinha perdido a cabeça por causa de uma
miúda. Mal por mal, era bem mais real e consentâneo com a natureza humana, e ao
menos tinha-se divertido antes de bater a bota.
5.
Outra ironia para ficarmos a pensar. E como se
sabe, a ironia faz bem ao sangue.
NAJ ™ – 14/02/2018 - Estações
Diferentes™
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