Há poucas expressões que
deteste mais do que “ não ligues, disse aquilo da boca para fora”. Mais do que a expressão,
tenho um desgosto figadal com a ideia que está subjacente a esta pérola, ou
seja, quem ouve tem mais é que perceber que a alarvidade ou a dissimulação ou o
exagero ou a agressão ou a simples patetite, têm um selo de perdão associado. Pois,
eis o noticiário. A não ser que a pessoa esteja demente, ou se fie numa espécie
de “bananismo” alheio, essa suposição constitui o topete dos topetes.
Como diz a poeta mais
abaixo, as palavras têm peso. Mais que peso, elas são, ao contrário dos actos,
aquilo que mais ressoa na memória quando se busca legitimidade para uma suposição
ou expectativa. É aquilo ao qual alguém que agarra para entender e firmar a
posição do outro. É, no fundo, aquilo que a outra pessoa deveria ter pensado
trinta vezes antes de dizer com a casualidade de quem comenta o estado do
tempo. Há coisas que não se dizem. Especialmente se forem “da boca para fora”.
Entende-se a tentação de
dizer coisas, especialmente se, com uma ligeira adaptação, esse dizer traz o
resultado pretendido. É mais fácil alegar “insanidade temporária”, (isto para quem vê demasiados dramas de
tribunal americano), após as tais palavras, do que antecipar o que elas
podem provocar, quando são e quando não são ditas.
Mas atenção. Quem ouve também tem
deveres de zelo. Quem engole improbabilidades à segunda vez que as ouve, ou
passadas duas horas de saber o nome de quem as profere, tem a sua queixa
antecipadamente prescrita. Há coisas que não se dizem, é verdade, mas também há
coisas que não se devem ouvir. Pelo menos não como se fossem verdade apenas porque
são ditas, ou, pior, porque se gostaria muito que fosse essa verdade.
Onde está o problema? No equilíbrio
entre a falta de cuidado ao usar as palavras e o escrutínio diligente. Se o palavreador
insiste, martela, reforça o seu ponto até quase cuspir o estômago em convicção,
é mais difícil ao ouvinte, mesmo o mais diligente, não aceitar algo daquilo sem
passar por desconfiado niilista. A porra é que a mais das vezes esse “hiper-cauteloso”
tem razão. Mesmo quando não quer, mesmo quando não deseja que aquelas palavras
lhe soem a esturro, mesmo quando a tese até tem sentido quando defendida em
palavras, mas uma vez passada à realidade parece ter a consistência de uma teia
de aranha encharcada, essa cautela revela-se, a mais das vezes, acertada. Claro que felizmente há excepções. Mas são isso mesmo.
Excepções.
Acho que a pergunta mais sensata
é… “para quê?”
Será necessário mesmo ter
de falar primeiro e pensar depois para obter algo de outros? E terão esses
outros de ouvir confortos, que parecem menos reais que um unicórnio capaz de preencher
o IRS, para acederem seja ao que for?
Julgo sinceramente que há
que ter cuidado com as palavras. Se pensarem bem, recordar-se-ão das palavras marcantes,
ditas em certas ocasiões, mesmo que já não façam ideia se era um dia de verão,
se a roupa era clara ou escura, se o que tocava na coluna da esplanada era
Sufjan Stephens ou Marante.
Da boca para fora? Não existe. Até o
produto da bebedeira é punível por lei em certos casos, exactamente aqueles em
que a pessoa se coloca intencionalmente num estado de inimputabilidade.
Dito isto:
«Words
Be careful of words,
even the miraculous ones.
For the miraculous we do our best,
sometimes they swarm like insects
and leave not a sting but a kiss.
They can be as good as fingers.
They can be as trusty as the rock
you stick your bottom on.
But they can be both daisies and bruises.
Yet I am in love with words.
They are doves falling out of the ceiling.
They are six holy oranges sitting in my lap.
They are the trees, the legs of summer,
and the sun, its passionate face.
Yet often they fail me.
I have so much I want to say,
so many stories, images, proverbs, etc.
But the words aren't good enough,
the wrong ones kiss me.
Sometimes I fly like an eagle
but with the wings of a wren.
But I try to take care
and be gentle to them.
Words and eggs must be handled with care.
Once broken they are impossible
things to repair.»
even the miraculous ones.
For the miraculous we do our best,
sometimes they swarm like insects
and leave not a sting but a kiss.
They can be as good as fingers.
They can be as trusty as the rock
you stick your bottom on.
But they can be both daisies and bruises.
Yet I am in love with words.
They are doves falling out of the ceiling.
They are six holy oranges sitting in my lap.
They are the trees, the legs of summer,
and the sun, its passionate face.
Yet often they fail me.
I have so much I want to say,
so many stories, images, proverbs, etc.
But the words aren't good enough,
the wrong ones kiss me.
Sometimes I fly like an eagle
but with the wings of a wren.
But I try to take care
and be gentle to them.
Words and eggs must be handled with care.
Once broken they are impossible
things to repair.»
Anne Sexton
NAJ ™ – 21/03/2018 - Estações Diferentes™
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