ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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quarta-feira, março 21, 2018

DA BOCA PARA DENTRO


Há poucas expressões que deteste mais do que “ não ligues, disse aquilo da boca para fora”. Mais do que a expressão, tenho um desgosto figadal com a ideia que está subjacente a esta pérola, ou seja, quem ouve tem mais é que perceber que a alarvidade ou a dissimulação ou o exagero ou a agressão ou a simples patetite, têm um selo de perdão associado. Pois, eis o noticiário. A não ser que a pessoa esteja demente, ou se fie numa espécie de “bananismo” alheio, essa suposição constitui o topete dos topetes.
Como diz a poeta mais abaixo, as palavras têm peso. Mais que peso, elas são, ao contrário dos actos, aquilo que mais ressoa na memória quando se busca legitimidade para uma suposição ou expectativa. É aquilo ao qual alguém que agarra para entender e firmar a posição do outro. É, no fundo, aquilo que a outra pessoa deveria ter pensado trinta vezes antes de dizer com a casualidade de quem comenta o estado do tempo. Há coisas que não se dizem. Especialmente se forem “da boca para fora”.
Entende-se a tentação de dizer coisas, especialmente se, com uma ligeira adaptação, esse dizer traz o resultado pretendido. É mais fácil alegar “insanidade temporária”, (isto para quem vê demasiados dramas de tribunal americano), após as tais palavras, do que antecipar o que elas podem provocar, quando são e quando não são ditas.
Mas atenção. Quem ouve também tem deveres de zelo. Quem engole improbabilidades à segunda vez que as ouve, ou passadas duas horas de saber o nome de quem as profere, tem a sua queixa antecipadamente prescrita. Há coisas que não se dizem, é verdade, mas também há coisas que não se devem ouvir. Pelo menos não como se fossem verdade apenas porque são ditas, ou, pior, porque se gostaria muito que fosse essa verdade.
Onde está o problema? No equilíbrio entre a falta de cuidado ao usar as palavras e o escrutínio diligente. Se o palavreador insiste, martela, reforça o seu ponto até quase cuspir o estômago em convicção, é mais difícil ao ouvinte, mesmo o mais diligente, não aceitar algo daquilo sem passar por desconfiado niilista. A porra é que a mais das vezes esse “hiper-cauteloso” tem razão. Mesmo quando não quer, mesmo quando não deseja que aquelas palavras lhe soem a esturro, mesmo quando a tese até tem sentido quando defendida em palavras, mas uma vez passada à realidade parece ter a consistência de uma teia de aranha encharcada, essa cautela revela-se, a mais das vezes, acertada. Claro que felizmente há excepções. Mas são isso mesmo. Excepções.
Acho que a pergunta mais sensata é… para quê?”
Será necessário mesmo ter de falar primeiro e pensar depois para obter algo de outros? E terão esses outros de ouvir confortos, que parecem menos reais que um unicórnio capaz de preencher o IRS, para acederem seja ao que for?
Julgo sinceramente que há que ter cuidado com as palavras. Se pensarem bem, recordar-se-ão das palavras marcantes, ditas em certas ocasiões, mesmo que já não façam ideia se era um dia de verão, se a roupa era clara ou escura, se o que tocava na coluna da esplanada era Sufjan Stephens ou Marante.
Da boca para fora? Não existe. Até o produto da bebedeira é punível por lei em certos casos, exactamente aqueles em que a pessoa se coloca intencionalmente num estado de inimputabilidade.
Dito isto:
 «Words
Be careful of words,
even the miraculous ones.
For the miraculous we do our best,
sometimes they swarm like insects
and leave not a sting but a kiss.
They can be as good as fingers.
They can be as trusty as the rock
you stick your bottom on.
But they can be both daisies and bruises.
Yet I am in love with words.
They are doves falling out of the ceiling.
They are six holy oranges sitting in my lap.
They are the trees, the legs of summer,
and the sun, its passionate face.
Yet often they fail me.
I have so much I want to say,
so many stories, images, proverbs, etc.
But the words aren't good enough,
the wrong ones kiss me.
Sometimes I fly like an eagle
but with the wings of a wren.
But I try to take care
and be gentle to them.
Words and eggs must be handled with care.
Once broken they are impossible
things to repair.»
Anne Sexton

NAJ ™ – 21/03/2018 - Estações Diferentes™
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