Em conversa com
uma amiga, acerca da capacidade que podemos (ou não) adquirir para deixar a
auto-culpabilização face aos actos alheios, percebo que o raciocínio que chega
até essa conclusão é tão complexo como justo. Dizia ela, e como a entendo, que
face a algo que parecia saído de uma desconsideração, do acto de ignorar, de
uma qualquer desvalorização, especialmente as “simpáticas”, o primeiro impulso
era arranjar o culpado óbvio. Este normalmente tem um nome curto e directo. “Eu”.
Onde é que fiz merda, onde é que falhei, onde é que não cheguei, que característica
é que me falha, a porra da lista é infinda. Devo dizer, como advogado do
maldito, que não julgo ser mau reflexo a análise dos próprios comportamentos e características
antes de partir para a culpabilização alheia. Não faz mal nenhum, e fez muita
falta a muita gente, tentar perceber se a asneira ou falha não mora em casa. Mas
fazer disto princípio é simultaneamente incorrecto e injusto a mais das vezes. Pior,
pode ser perigoso, porque se há coisa que a natureza humana adora é incidir o
holofote da culpa ou responsabilidade em cima de qualquer outro desgraçado que
não o próprio. Se pensarmos bem, por vezes não há responsabilidade nem falha alguma.
Há uma dinâmica de não reconhecimento, mas não assente numa falha objectiva do
sujeito, mas sim em situações que de nada passaram a… continuar nada.
Concretizemos.
Se alguma pessoa
nos enaltecer e tratar de determinadas maneira, dirá coisas. Se as diz, em
princípio não as dirá gratuitamente, ou não o deveria fazer. Ao contrário do que
as pessoas dizem, agarramo-nos todos tanto aos actos como às palavras. Estas são
a declaração perpetuadora de uma ideia que durará enquanto a memória o
permitir.
Quem nunca
proferiu as palavras “mas tu/ele/ela tinha(s) dito que…” que atire a primeira
pedra. E na confusão da desconsideração sem razão aparente, ou com razões
manhosas, o que fica na memória a remoer não é (ou não é só) a imagem do afago,
da queca, do acto de amizade, mas as palavras que possam eventualmente ter dado
uma moldura diferente a esses actos. É que ninguém pede a ninguém para dizer
coisa alguma. Ninguém pede qualquer discurso imprudente, exagerado, que fica
bonito mas pouco serve. Ninguém pede discursos de Henrique V em Azincourt relativo
a algo tão simples como saber se se deve ou não desamparar uma certa loja. Mas
se o discurso é proferido, convém segurar as rédeas ao cavalo se ele decidir
dar às de Vila Diogo.
Retornando ao
que disse a minha amiga, com justa dúvida no tom, “eu não tenho de ser a origem
do que não corre bem, nem devo entrar no absoluto parafuso com essa eventualidade”.
Não há sempre justificação própria para o que de desagradável surge no alheio. Ao
contrário do que grassa por aí em teorias imbecis de auto ajuda, não, nem
sempre somos nem a origem nem a responsabilidade para tudo o que não corre bem
ou desconsiderações inexplicáveis. E faz
muitíssimo bem protestar, rugir e “bardamerdar” algumas coisas, mesmo que com
risos à mistura. Se a presença de outrem pode ser e é, pela partilha humana, um
privilégio, a verdade é que o que cada pessoa tem de único genuíno e partilhável
também é. A ideia de privilégio, de valor, é bilateral. É uma passadeira de
supermercado com dois sentidos.
Podemos obviamente
não agradar, tentar, seduzir, melhorar, etc(…) ninguém. Eu creio que há
qualidades e/ou valores humanos passiveis de defender como mais ou menos objectivos,
mas certamente isto faz pouca escola no plano dos “sentimentos aleatórios”
(argh…). Creio também que é um dever humano a tentativa de evoluir, sendo este
verbo correspondente a melhorar um pouco sempre que possível, seja em que
dimensão tal melhoria se apresente. Claro que nada disto vale um charuto se
alguém nos tomar de ponta. Podemos conseguir pintar o tecto da capela Sistina
no verso de um bilhete de autocarro, mas algumas pessoas dirão que usámos
sempre a caneta errada. É a vida. As unanimidades também sempre me fizeram
alguma confusão (excepto em coisas como direitos humanos e tal, mas isso é
outra historia…). O reverso disto é, no
entanto, perceber que há coisas que custam uma vida inteira a obter, que não é
pecado algum perceber que até se tem algumas qualidades, e que aquilo que se
pode ter para dar não é assim tão dispensável como isso. E que (retornando mais
uma vez à conversa com a minha amiga), se isso não for visto assim, não é necessariamente
culpa do próprio. A mais das vezes, é mesmo o contrário.
É a ilusão de
que o valor do outro é curto que valida a atitude menos boa ou menos
interessada. Há uma presunção de aceitação, de ausência de efeito, como se tudo
o que viesse fosse válido. Mas é só isso mesmo. Uma ilusão. E já chega. Já se
percebeu o ponto. É tempo de ver outro(s). Melhores. Como o próprio também é.
Se é preciso
explicar isto repetidamente, então a solução apresenta-se a si mesma.
NAJ ™ – 28/02/2014 - Estações Diferentes™
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