ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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terça-feira, março 06, 2018

DA VALORAÇÃO (NECESSÁRIA)? TALVEZ, TALVEZ NÃO…


Em conversa com uma amiga, acerca da capacidade que podemos (ou não) adquirir para deixar a auto-culpabilização face aos actos alheios, percebo que o raciocínio que chega até essa conclusão é tão complexo como justo. Dizia ela, e como a entendo, que face a algo que parecia saído de uma desconsideração, do acto de ignorar, de uma qualquer desvalorização, especialmente as “simpáticas”, o primeiro impulso era arranjar o culpado óbvio. Este normalmente tem um nome curto e directo. “Eu”. Onde é que fiz merda, onde é que falhei, onde é que não cheguei, que característica é que me falha, a porra da lista é infinda. Devo dizer, como advogado do maldito, que não julgo ser mau reflexo a análise dos próprios comportamentos e características antes de partir para a culpabilização alheia. Não faz mal nenhum, e fez muita falta a muita gente, tentar perceber se a asneira ou falha não mora em casa. Mas fazer disto princípio é simultaneamente incorrecto e injusto a mais das vezes. Pior, pode ser perigoso, porque se há coisa que a natureza humana adora é incidir o holofote da culpa ou responsabilidade em cima de qualquer outro desgraçado que não o próprio. Se pensarmos bem, por vezes não há responsabilidade nem falha alguma. Há uma dinâmica de não reconhecimento, mas não assente numa falha objectiva do sujeito, mas sim em situações que de nada passaram a… continuar nada.

Concretizemos.

Se alguma pessoa nos enaltecer e tratar de determinadas maneira, dirá coisas. Se as diz, em princípio não as dirá gratuitamente, ou não o deveria fazer. Ao contrário do que as pessoas dizem, agarramo-nos todos tanto aos actos como às palavras. Estas são a declaração perpetuadora de uma ideia que durará enquanto a memória o permitir.

Quem nunca proferiu as palavras “mas tu/ele/ela tinha(s) dito que…” que atire a primeira pedra. E na confusão da desconsideração sem razão aparente, ou com razões manhosas, o que fica na memória a remoer não é (ou não é só) a imagem do afago, da queca, do acto de amizade, mas as palavras que possam eventualmente ter dado uma moldura diferente a esses actos. É que ninguém pede a ninguém para dizer coisa alguma. Ninguém pede qualquer discurso imprudente, exagerado, que fica bonito mas pouco serve. Ninguém pede discursos de Henrique V em Azincourt relativo a algo tão simples como saber se se deve ou não desamparar uma certa loja. Mas se o discurso é proferido, convém segurar as rédeas ao cavalo se ele decidir dar às de Vila Diogo.

Retornando ao que disse a minha amiga, com justa dúvida no tom, “eu não tenho de ser a origem do que não corre bem, nem devo entrar no absoluto parafuso com essa eventualidade”. Não há sempre justificação própria para o que de desagradável surge no alheio. Ao contrário do que grassa por aí em teorias imbecis de auto ajuda, não, nem sempre somos nem a origem nem a responsabilidade para tudo o que não corre bem ou desconsiderações inexplicáveis.  E faz muitíssimo bem protestar, rugir e “bardamerdar” algumas coisas, mesmo que com risos à mistura. Se a presença de outrem pode ser e é, pela partilha humana, um privilégio, a verdade é que o que cada pessoa tem de único genuíno e partilhável também é. A ideia de privilégio, de valor, é bilateral. É uma passadeira de supermercado com dois sentidos.

Podemos obviamente não agradar, tentar, seduzir, melhorar, etc(…) ninguém. Eu creio que há qualidades e/ou valores humanos passiveis de defender como mais ou menos objectivos, mas certamente isto faz pouca escola no plano dos “sentimentos aleatórios” (argh…). Creio também que é um dever humano a tentativa de evoluir, sendo este verbo correspondente a melhorar um pouco sempre que possível, seja em que dimensão tal melhoria se apresente. Claro que nada disto vale um charuto se alguém nos tomar de ponta. Podemos conseguir pintar o tecto da capela Sistina no verso de um bilhete de autocarro, mas algumas pessoas dirão que usámos sempre a caneta errada. É a vida. As unanimidades também sempre me fizeram alguma confusão (excepto em coisas como direitos humanos e tal, mas isso é outra historia…).  O reverso disto é, no entanto, perceber que há coisas que custam uma vida inteira a obter, que não é pecado algum perceber que até se tem algumas qualidades, e que aquilo que se pode ter para dar não é assim tão dispensável como isso. E que (retornando mais uma vez à conversa com a minha amiga), se isso não for visto assim, não é necessariamente culpa do próprio. A mais das vezes, é mesmo o contrário.

É a ilusão de que o valor do outro é curto que valida a atitude menos boa ou menos interessada. Há uma presunção de aceitação, de ausência de efeito, como se tudo o que viesse fosse válido. Mas é só isso mesmo. Uma ilusão. E já chega. Já se percebeu o ponto. É tempo de ver outro(s). Melhores. Como o próprio também é.

Se é preciso explicar isto repetidamente, então a solução apresenta-se a si mesma.


NAJ ™ – 28/02/2014 - Estações Diferentes™
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