ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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terça-feira, março 20, 2018

PRIMAVERA E (DERIVAS DE) FELICIDADE

A felicidade é, quanto muito, um estado intermitente. Vive de instantes, da percepção do contrário que permite a fruição do estado. O salto do escuro para o luminescente. A sensação de alinhamento com o que se pensa, sente e experimenta. A felicidade surge como uma intermitência na qual as boas opções resultam ainda melhor que o esperado e as aleatoriedades até parecem perfeitamente planeadas. Não entendo, assim, ideias acerca da felicidade como estado constante. Salvo melhor opinião, é um pouco como o optimismo militante – talvez só padeça de falta de informação. Aliás, a felicidade constante, a existir, não contraria um pouco a ideia de empatia ou simpatia pelo próximo? Sentirmo-nos completamente bem, a toda a hora, seja qual for o cenário que nos rodeie, parece-me muitas coisas, algumas até do foro psiquiátrico, mas não lhes chamaria felicidade(s). Desconfio tanto de tais pessoas como daquelas que são isentas de sentido de humor. Assustam-me. Mesmo.
A própria Primavera, que hoje se inicia, é uma prova disso. Não precisamos recordar o mito da pedra Agelasta, Ceres, Perséfone e Hades para o arguir. Pensemos apenas na natureza, na sua alternância, e ver-se-á que canções felizes a toda a hora seriam um caminho para cenários apocalípticos.
Embora eu seja um fervoroso agnóstico, há sabedoria neste magnífico texto de John Hnry Newman, que faz “o dois em um”, digamos assim, especialmente na ideia do equilíbrio perante os dois estados extremos:.

«««WE have familiar experience of the order, the constancy, the perpetual renovation of the material world which surrounds us. Frail and transitory as is every part of it, restless and migratory as are its elements, never-ceasing as are its changes, still it abides. It is bound together by a law of permanence, it is set up in unity; and, though it is ever dying, it is ever coming to life again. (…) The sun sinks to rise again; the day is swallowed up in the gloom of the night, to be born out of it, as fresh as if it had never been quenched. Spring passes into summer, and through summer and autumn into winter, only the more surely, by its own ultimate return, to triumph over that grave, towards which it resolutely hastened from its first hour. We mourn over the blossoms of May, because they are to wither; but we know, withal, that May is one day to have its revenge upon November, by the revolution of that solemn circle which never stops—which teaches us in our height of hope, ever to be sober, and in our depth of desolation, never to despair.»»»

Assim, a inquietude, que gera angustia, é assim construída para a fruição do alívio, da libertação, no (mais feliz) “release”. A antecipação da ultrapassagem da barreira, a pequena morte orgiástica que faz antecipar o ressurgir do apetite, as dores no final da prova que explodem em dopamina, tudo isto fala em defesa da alternância, da necessidade da tristeza, da força da desagregação enquanto a prova da lucidez da perspectiva unificadora. Neste meio-termo, no qual que apetece viver e morrer a cada passada dada por cima de terrenos diversos, surge alguma possibilidade de experimentar a felicidade, de exercer esforço para a estender, de encurtar as noites para esquecer o menos possível a luz solar.
A felicidade constante não existe, e se existisse, parece-me que seria um perigo. Mais vale sorrir quando nos sentimos bem e manter algum sentido de humor quando tudo é mais pesado que cem gravidades. Não me parece que nos safemos de outra forma. Sinceramente, seria algo a desejar?

NAJ ™ – 20/03/2018 - Estações Diferentes™
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