Parece que já terá sido tudo dito sobre este filme, mas este é de facto um filme diferente. Traz algo, incomoda, fascina, coloca-se debaixo da pele. Lewis é um actor absolutamente magistral. Os maneirismos são de tal forma espantosos que a transformação parece total e originária, ou seja, uma não transformação, mas como que o teletransporte de Plainview para as cenas em que alguém grita "Acção". É um filme sobre a obsessão mas também sobre as lógicas que assistem ao desenvolvimento dessas obsessões, especialmente com a metáfora consumidora do sucesso. A assustadora personagem de Daniel Plainview representa, até mesmo na deformação suave do seu corpo e expressão, as consequências da obsessão pelo conseguir, em meio a todas as complexidades que claramente o lançam na espiral de insanidade, culminada numa cena final que ficará na história.
A realização e fotografia são excelentes, sem grandes flores mas plenas de uma visão entre o realista e a unha na carne, como se pode atestar pela beleza árida do sol poente na planície, e o negro sujo do petróleo em poças. Padece, em meu ver, de um pouco de falta de ritmo, arrastando por vezes a acção em sequências que parecem apenas pequenas mutações de outras sequências anteriores, o que dão a aparência de um filme um pouco "comprido".
Algumas cenas, como a da Igreja, têm aquele cunho meio cómico, meio alienado que associo sempre a PT Anderson e que, pelo menos para mim, funciona. É de facto um filme algo distante, onde nenhuma das personagens nos conquista ou repugna de forma contundente, mas no fundo assenta num universo onde toda a gente parece movida por algo que transcende a sua dimensão pessoal, para as lançar no meio dos dentes da obsessão própria por alguma forma de sucesso. O" tem que ser", o "tem de se conseguir ou ganhar". Até o nome do personagem encerra essa ideia de simplicidade brutal. Plainview ou a visão simples do mundo nos dentes da obsessão.
"Eu simplesmente não suporto que mais ninguém tenha sucesso" - Daniel Plainview.
Está tudo dito, portanto...