ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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quinta-feira, agosto 30, 2007



Estive lá.

E figura, certamente, como um dos mais importantes e únicos momentos da minha vida.

Ainda hoje sinto o profundo arrepio na pele. Não dá para explicar o que se sentiu. Estava na sala e era palpável.



O que sentimos pode ser uma brutalidade.

Uma brutalidade feita de todas as recordações de todos os instantes em que nos sentimos pequenos perante o criámos do nada. Aquilo que agarrámos com unhas em sangue, o que nos construiu através da percepção de que nos perdemos no que nem sequer sabíamos possuir.

São recortes do passar do tempo, erguidos em escaparates feitos de madeira de sândalo, trazida pelas correntezas de todos os mares onde nos atrevemos a colocar um pé ao de leve na água. O sal que provamos, é salivado, tem cheiro de água engolida, de beijos acabados há meio segundo, dolorosamente inéditos e irrepetíveis.

São brutalidades porque passam como serrilhas, sulcando, partindo a unidade da pele em mil conceitos mais pequenos, que não são senão tijolos. E amontoam-se, deixando as perguntas, as perplexidades, a memória dos estados que atravessámos num veículo que cresce como uma coisa viva, embebida na melancolia doce de uma tristeza antiga. De aço. Cárcere.

Por isso, levanta a saia um pouco mais, e mostra-me o mundo, como diz este moço.

E nos sonhos de rapaz, acho-me imperfeito e em consequência, vivo.

Brutalizado.

segunda-feira, maio 28, 2007





Existem momentos históricos.
Talvez sejam imbuídos da subjectividade própria do que se torna único e irrepetível para cada um de nós, mas ter a sorte de passar por tal instante é algo que não se esquece, algo que marca como um ferrete quente, mas sem dor. Ou pelo menos sem a dor negativa, porque certos instantes de beleza, de intensidade e reencontro com coisas que fizeram cada pedacito da nossa vida, são bem capazes de descascar a nossa pele e isso nunca é indolor. O encontro com o que nos identifica sem qualquer objectividade feita de letras, porque a emoção que sobra não permite tais veleidades.
O concerto de Dave Matthews foi todo ele um reencontro com coisas pessoais, escondidas, íntimas, estruturais e, a espaços, incompreensíveis devido à sua essencialidade nos anos que o precederam. Posso isolar dezenas de momentos fulcrais, por vezes apenas num detalhe, onde o Sr. Matthews meteu o bedelho e fez a diferença. E julgo que existem poucas coisas tão compensadoras como ter a experiência mais intensa possível à custa de algo que se entrelaça na estrutura do que somos, e a potencia em prazer e senso de auto conhecimento.
Existem livros da vida, canções da vida, filmes da vida, quadros, paisagens, enumerem quantas quiserem. Existem coisas, fenómenos, que exercitam aquela parte de ansiedade e pertença e nos fazem procurar e estremecer perante a sua presença e acção.
Foram mais de três horas de concerto, de excelência, de uma candura e entrega, e que diabo, de talento que chega a atemorizar e chatear de tão imenso que é. Três horas pelas quais esperei mais de oito anos e muitas audições dos trabalhos da banda em todos os suportes audiovisuais.
Mas é nestes instantes em que temos a sorte de perceber que o invulgar e o único tem algumas expressões finitas. É nessa finidade que fica um calendário inteiro de memórias, uma espécie perseguição ao tigre na floresta do poente, ou ao fogo fátuo que faz parte de cada apetite que a nossa imaginação se atreve a construir.
Esperei oito anos para ouvir o "Crash" e o "So Much to Say". Sabia, como sei, as letras de cor, a sequência dos acordes, e os instantes em que eles me surgiram ao longo desses anos. Mas não o sabia tão grande, tão imenso, tão completo. Não sabia que o raio do homem cantava tão bem ao vivo como em estúdio, que ver a sua criatividade em discurso directo é pensar 500 vezes em como será ele capaz de imaginar um tão imenso e excelente reportório.
Já vi muitos concertos no Atlântico, mas posso dizer que nunca vi a sala assim. A apoteose foi constante, o plateia estava cheia até às paredes mais distantes e existiam pessoas encostadas ao bares mais afastados. 3 encores. Gravedigger num deles, que lançou a sala em direcção aos céus.
Voltem ou não a Portugal, o que deve ser provável, tal era o estarrecimento da banda, a verdade é que ali aconteceu história.
E como é que se agradece rendido a uma pessoa que não nos conhece, e que no entanto, tanto bem nos fez e faz na vida?
Thanks Dave....