Existem momentos históricos.
Talvez sejam imbuídos da subjectividade própria do que se torna único e irrepetível para cada um de nós, mas ter a sorte de passar por tal instante é algo que não se esquece, algo que marca como um ferrete quente, mas sem dor. Ou pelo menos sem a dor negativa, porque certos instantes de beleza, de intensidade e reencontro com coisas que fizeram cada pedacito da nossa vida, são bem capazes de descascar a nossa pele e isso nunca é indolor. O encontro com o que nos identifica sem qualquer objectividade feita de letras, porque a emoção que sobra não permite tais veleidades.
O concerto de Dave Matthews foi todo ele um reencontro com coisas pessoais, escondidas, íntimas, estruturais e, a espaços, incompreensíveis devido à sua essencialidade nos anos que o precederam. Posso isolar dezenas de momentos fulcrais, por vezes apenas num detalhe, onde o Sr. Matthews meteu o bedelho e fez a diferença. E julgo que existem poucas coisas tão compensadoras como ter a experiência mais intensa possível à custa de algo que se entrelaça na estrutura do que somos, e a potencia em prazer e senso de auto conhecimento.
Existem livros da vida, canções da vida, filmes da vida, quadros, paisagens, enumerem quantas quiserem. Existem coisas, fenómenos, que exercitam aquela parte de ansiedade e pertença e nos fazem procurar e estremecer perante a sua presença e acção.
Foram mais de três horas de concerto, de excelência, de uma candura e entrega, e que diabo, de talento que chega a atemorizar e chatear de tão imenso que é. Três horas pelas quais esperei mais de oito anos e muitas audições dos trabalhos da banda em todos os suportes audiovisuais.
Mas é nestes instantes em que temos a sorte de perceber que o invulgar e o único tem algumas expressões finitas. É nessa finidade que fica um calendário inteiro de memórias, uma espécie perseguição ao tigre na floresta do poente, ou ao fogo fátuo que faz parte de cada apetite que a nossa imaginação se atreve a construir.
Esperei oito anos para ouvir o "Crash" e o "So Much to Say". Sabia, como sei, as letras de cor, a sequência dos acordes, e os instantes em que eles me surgiram ao longo desses anos. Mas não o sabia tão grande, tão imenso, tão completo. Não sabia que o raio do homem cantava tão bem ao vivo como em estúdio, que ver a sua criatividade em discurso directo é pensar 500 vezes em como será ele capaz de imaginar um tão imenso e excelente reportório.
Já vi muitos concertos no Atlântico, mas posso dizer que nunca vi a sala assim. A apoteose foi constante, o plateia estava cheia até às paredes mais distantes e existiam pessoas encostadas ao bares mais afastados. 3 encores. Gravedigger num deles, que lançou a sala em direcção aos céus.
Voltem ou não a Portugal, o que deve ser provável, tal era o estarrecimento da banda, a verdade é que ali aconteceu história.
E como é que se agradece rendido a uma pessoa que não nos conhece, e que no entanto, tanto bem nos fez e faz na vida?
Thanks Dave....