
Volta e meia, quando a insónia ou o telejornal às sete e pouco da manhã está lento e estou eu a debater-me com o prato de muesli, rodo o canal e deparo-me com este senhor.
Bem sei que o senhor em causa tem uma legião de fãs que ultrapassa em larga medida a lista telefónica de alguns estados dos EUA, mas existem de facto coisas naquele programa que me deixam intrigado e sinceramente perplexo.
Mais do que serem ditas algumas coisas com as quais discordo, o que não é nada por aí além porque felizmente as pessoas têm opiniões diferentes, é o modo como as coisas são ditas, expostas, e colocadas em praça pública. As pessoas aplaudem, como se o facto do Sr. Smith ter encornado a mulher, que por acaso era uma megera cheia de problemas com cartões de crédito, ou como se a Amber ter comido a vizinha do lado porque o marido não se chegava à frente, fossem elementos do mais empolgante espectáculo. A devassa da vida privada é consentida, é um facto, mas é o tom professoral e paternalista que me faz confusão. Não vejo ali um único elemento de pudor perante a vida das pessoas, mas apenas uma espécie de evangelista supostamente compreensivo que simplesmente verbaliza conselhos oriundos da sua douta ciência de análise comportamental.
Atenção, como disse, não suspeito da competência do senhor, e volta e meia o moço diz coisas com as quais concordo e que me parecem certeiras, mas a verdade é que , para mim, aquilo não passa de um circo, onde o guru dispensa a sua imesa sabedoria num espectáculo mediático do que é a intimidade e espaço privado das famílias, e mesmo das pessoas. E não se ensaia em dizer às pessoas que estão erradas, que estão malucas da cabeça, etc, coberto por uma suposta cartilha comportamental sacramental que, curiosamente, nunca tem dados científicos para partilhar e corroborar com os espectadores (nos livros com certeza terá, mas apoio-me apenas nos programas de tv). É preciso uma pessoa ter realmente uma segurança e costinhas bem quentes para julgar as pessoas com aquela facilidade de quem espraia uma espécie de superioridade moral, a qual, julgo eu, é sempre discutível.
Triste parece-me também quem se sujeita a este tipo de coisas. Quem traz a vida privada para a praça pública, aceita câmaras de televisão a filmar discussões, agressões verbais ou físicas, vergonhas, inseguranças, dependências, you name it. Triste que o desejo de mediatização faça com que as pessoas vendam tudo e mais um par de botas, como se aquela meia dúzia de frases e um público pronto a aplaudir quando o cartaz é mostrado pudesse realmente resolver o problema em causa. Por vezes qual é a diferença com o Jerry Springer? Bem, talvez o facto de ninguém ainda se ter pegado à porrada, mas acho que a coisa já esteve por um fio.
E tudo sucede sob a capa da ajuda bem intencionada, mas que diabo, desde que vendável, como as resmas de páginas dos inúmeros livros do Dr. Phil os quais ele não se cansa de promover nos intervalos. Tudo é espectáculo, tudo é vendável, e isso não deixa de me inquietar ou mesmo entristecer. Acho que a mediatização está a chegar às mais impensáveis fronteiras.
Mas cada um come do que gosta, já lá diz a minha mãe.