Pintor - GrozsDisclaimer:
Mais um texto longo e chato "com'á" potassa. Uma seca do cacete. Uma estopada.Você foi avisado(a). Siga por própria conta e risco.
Há tempos, aquilo de que falarei em seguida insurgir-se-ia como uma crítica da minha parte, o que é completamente discutível e reconheço-o. Mas agora surge apenas como uma verificação de situações. Uma comparação, e como tal, o reconhecimento de perplexidades, de faltas de encaixe e da percepção de um distanciamento perante aquilo que se pode talvez chamar de movimentação natural da ordem das coisas, mas que a mim surge como algo mais preocupante. Sim, talvez sejam manias. Ou qualquer outra coisa. Quem sabe?
A vox populi costuma dizer que a certa altura da nossa vida, acabamos por encaixar. Aqueles que de alguma forma estiveram (muito ou pouco) deslocados da lógica comportamental genérica, acabam a certa altura, dizem essas vozes, por encontrar o seu "slot", e lá descansam, com um estalido de encaixe que a mim parece ensurdecedor, mas a outros surge como algo natural e arrisco a dizer reconfortante.
É também costumeiro dizer que crescemos para fora do nosso sentimento de diferença e inadaptação. que a lógica do comum acaba por nos levar, e como tal, acabamos, cedo ou tarde, por pertencer ou na linguagem mais recorrente, por crescer. Aquela alienação que existe durante tanto tempo na vida de alguns, devido à sua forma ligeiramente diferente de ver os fenómenos, é encarada como uma borbulha de acne ou um rubor pueril no rosto. Nasce, cresce, mas como qualquer flor débil, murcha e morre. Morre para crescer, para alargar os braços e ficar como mais uma entre as árvores. Diz-se que com esse crescimento vai-se uma certa angústia de vida. Vão as perguntas, a sede, a insegurança e a confusão. Falam da cartilha, da evolução, da chegada do ponto A ao ponto B por caminhos de normalidade e calmaria que mais me parecem uma espécie de morte gradual. Posso estar enganado, e provavelmente estou (os deslocados estão sempre), mas o aborrecimento e cansaço que vejo naqueles rostos não me parece condizente com a tal serenidade e evolução boa e necessária. Parece-se mais com o estreitamento dos horizontes, e o endeusamento de uma certa responsabilidade porque, afinal de contas, é tempo. É hora. E não vejo mal nenhum nisso, se é aquilo que desejam.
Mas para mim não serve. Definitivamente.
É provavelmente uma espécie de falha ou incapacidade da minha parte, ou uma contaminação de juventude ilusória e a avaliar pelos olhares condescendentes,demasiadamente prolongada. Não entendo os quatro anos sem ir ao cinema, sem um jantar a dois ou a vinte, a abdicação de tudo aquilo que definiu a pessoa. Não entendo as conversas dos "adultos", a ausência de tempo e paciência pra tudo o que não seja o "trabalho, porque isso é que é importante", e a magnífica conclusão de que não ter tempo para dar um traque que seja é que significa respeitabilidade e lá está, a idade adulta. Não critico objectivamente, só não entendo como é que se pode ser feliz abdicando dos degraus mais fundamentais da construção da personalidade. E de uma certa forma, até me sinto algo baralhado, porque chego à conclusão que talvez não as conhecesse assim tão bem.
A verdade é que tal perspectiva isola. As opiniões contrárias a este estado de coisas são encaradas como inexperiência, como uma visão desarmada, como se não fosse possível analisar os fenómenos por observação e raciocínio. E lá voa o Peter Pan enquanto a malta já aterrou.
As perguntas que me coloco são mesmo sinceras.
Creiam.
Será que um dia a dia de trabalho, miúdos, miúdos, trabalho, filmes em DVD em casa, música em casa, jantares em casa, tudo em casa, não enlouquece? Deixa-se de perseguir os hobbies, os gostos, a evolução, as mudanças nos interesses que tanto apaixonam?
Bem, pelos vistos não. A mim constituiria um bilhete para uma casa de repouso em menos de seis meses, mas a "vox populi" contraria essa ideia. E fazem-mo saber com uma eficácia digna de registo. Essa eficácia afasta-me. Coloca-me como um observador distante, uma espécie de arauto de inadaptação à segurançazinha do caminho que a espécie e a civilização já haviam determinado. Há que casar, trabalhar, engordar, e ter putos, e assim é que é. "E tu não experimentaste, portanto não sabes como é."
Pois não. E nunca saberei. E isso é uma certeza.
Posso partilhar a vida com alguém, posso até vir a ter descendência, mas no dia em que for a um jantar de amigos que não se vêm há meses, e em vinte convivas, dezanove resolvam ir para casa à hora do Vitinho porque "já não tenho idade para isso, pá", é altura de enrolar uma corda grossa ao pescoço, e adiantar aquilo que já me aconteceu.
Quando a minha vida consistir em partilhar o cuidado de um infante com a tipa que viva lá em casa, sem que eu possa ( ou ela queira) ir ao cinema, ou jantar, ou fazer qualquer merda que sempre (nos) agradou porque os putos não podem ficar com os avós (por razões esotéricas que me escapam), para depois mais tarde olhar para ela e perguntar "mas quem é a menina e o que faz cá em casa?", é tempo de levar a torradeira para a banheira.
Quando eu já não me conseguir lembrar ou desfrutar dos autores e músicos que fazem a vida valer a pena, ou simplesmente ter alguma coisa porque ansiar, antever e esperar, então crio raízes e lá fico, até secar, ou simplesmente cresço num prado isolado e rezo para que um relampago surja e acabe logo com isso.
Não me entendam mal. Não estou a contestar a felicidade alheia. Se as pessoas se sentem bem com isso, ainda bem. Óptimo. Quero é que sejam felizes. Mas por favor, não me tentem impingir a ideia de que isso é a evolução natural, e que eu é que ainda não sei como é. Não me tentem dar uma espécie de anúncio TV-Shop onde um apresentador demasiado bronzeado para qualquer altura do ano me diz que a vida de "adulto" é um negócio irrecusável, e cedo ou tarde todos vamos lá cair. Sejam felizes. Muito. Mas eu não compro essa bíblia, e não aceito o olhar supostamente esclarecido de quem já encarrilou na ordem natural das coisas. É uma escolha tão válida como a minha, simplesmente a minha veste-me num suposto fato verde, e dá-me asas feitas de pó mágico. E não tolero a ideia que passam de que gosto menos das coisas, dos fenómenos ou das pessoas. É própria de uma arrogância auto-justificativa, e não dou esse direito a ninguém. Não entendo a vossa forma de aceitar a passagem do tempo. E cedo ou tarde, aquilo que se vê na imagem perfeita tem rachaduras, porque alguém acaba por ceder. A constância de tais rotinas acaba por moer a pachorra ao ponto de se procurar alternativas. Alternativas que a mais das vezes estoiram com tudo, quando supostamente são panaceias. E gostaria de dizer que isto é uma abstracção. Mas não é. Tenho demasiados exemplos práticos. Poucos para generalizar, mas suficientes para sugerir uma tendência.
Mas como creio firmemente na máxima, "quem está mal muda-se", acho que no caso em apreço a minoria sou eu, e como tal, a adaptação é um mal necessário. Com ela vem a convivência, mas também a distância. A distância daqueles que ainda recordo como vivos, multifacetados, criativos, mexidos, irrequietos, e que agora cresceram. Cresceram para uma solidão de quem fica.
É um direito.
Que fiquem felizes. E isto é sincero.
Só espero que corra como esperam.
Eu cá terei o fato verde.
Sou o que sou. Talvez ainda e sempre demasiado perturbado pelas coisas que me fizeram desde sempre.
Quem sabe?
Boa sorte a todos.
(isso inclui-me... especialmente)