ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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terça-feira, julho 15, 2008

"It is the Tale, not he who tells it."
Stephen King - 1982
(Nota: Todas estas histórias estão devidamente registadas na Inspecção Geral das Actividades Culturais. Não que passe pela cabeça de alguém interessar-se em roubar seja lá o que for, mas pelo menos fica o desclaimer.)
"FOME"

“Choose rather to punish your appetites than be punished by them. “

Tyruis Maximus

Dedicado a Richard Matheson e Stephen King
Parte I
"A noite está finalmente a chegar. Olho para as paredes e posso ver as sombras que se alongam. Os cantos começam a ficar escuros e os sons estão mais altos, como intrusos madrugadores dentro de uma casa silenciosa. O cheiro a erva seca denuncia a presença do Verão e as gotas de suor que secam na minha testa indicam uma trégua do sol ardente. Mas não há trégua de espécie alguma.

Não faço a mais pálida ideia da razão pela qual ainda me dou ao trabalho de martelar nestas teclas. Deveria, e estou, atente-se, aterrado. Lá fora o silêncio desaparecerá em breve. O crepúsculo belo e sanguíneo dará lugar à escuridão. E nesse momento, começará aquele que pode ser um final longo e arrastado. Cada noite é uma incógnita, e cada minuto um veículo de fugacidade que quase enlouquece.

É uma tendência estranha aquela que os resistentes têm para escrever ou deixar algum testemunho. Acho que a ficção que contactam leva-os a pensar que alguém surgirá das brumas do desespero e os salvará, fazendo daquele documento uma espécie de tratado da resistência e coragem. Claro que nesse enredo, a obra em questão também dá um rio de dinheiro considerável, mas isto já sou eu a ser um pouco mais cínico. E estou sem força, ou tempo para ser cínico, ou para ser qualquer outra coisa. Quando há medo, toda a sofisticação se reduz à insignificância que pode ou não ter. É um pouco como a ideia que se pode ter de amor real, carnívoro e intenso, aquele que não permite veleidades elegantes e espirituosas, tão próprias do cinismo. Aí somos todos ridículos, já lá dizia sempre o mesmo poeta. Mas ele já está morto, safo de tudo isto, e eu nunca soube muito acerca de amor. Soube muito acerca de devorar, de consumir, de ir em busca de cada pessoa que se colocava a jeito. E, por pura sorte, a ideia que mais me surgia na mente era comer.
Segundo um dicionário respeitado, o conceito de “comer” tem variadíssimos significados, como se pode ver. Oriundo na nossa língua do vocábulo Latino comedere, comer, além de ser um verbo transitivo, significa:
introduzir alimentos no estômago pela boca;
mastigar e engolir;
enganar;
ludibriar;
gastar em comida;
dissipar;
acreditar em mentiras;
absorver;
submergir;
carcomer;
corroer;
delir;
apanhar pancada;
possuir alguém sexualmente;
tomar alimento;
ter ou causar comichão;
amofinar-se;
afligir-se;
consumir-se;
mortificar-se;
comida;
alimento;
iguarias;
cada uma das refeições do dia.
— com os olhos: observar com desejo; invejar; cobiçar;
— e calar: calar-se; não reagir.

Não necessitaria de olhar para esta lista para saber que comer significa todas estas coisas. Mas algumas foram mais assíduas no meu passado que outras, embora aquelas que vejam sublinhadas sejam parte dessa história.
Ouvi algo a restolhar lá fora. Restam, no máximo, mais umas três horas. Tenho de me apressar, por isso vamos ao que interessa.
As experiências científicas do último ano culminaram num erro que trouxe uma espécie de retorno perverso à noção de isolamento de um dos géneros humanos. Ou seja, a história daquele lugar onde só havia um homem, onde os animais falavam e ninguém comia carne. Pois, o que temos hoje em dia é uma coisa um pouco diferente. Tirando eu, e julgo que talvez haja para aí mais alguns perdidos, sei lá, só há mulheres. E desenvolveram um hábito terrível. Abreviando a minha ignorância, eis o que sucedeu. Devido a uma qualquer asneira ao nível da biotecnologia, alguém soltou um bichinho invisível que enfraquece os portadores de maiores níveis de testosterona, ou seja, nós, os homens, e dá uns apetites estranhos aos restantes, ou seja, elas. E elas, simplesmente, querem comer. Eu contar-vos-ia a história toda, mas sinceramente, além de não ter tempo, quem é que a ia ler de qualquer maneira? Será que elas conseguem ler? Quero dizer, parecem racionais o suficiente, mas são as hormonas, o cheiro. Quando a noite surge, os problemas começam. E vão começar.
Mas adiante.
(...)
to be continued

quarta-feira, janeiro 02, 2008


(Atenção - Spoilers!!! Se ainda não viu o filme, evite ler o que se segue.)



Alguns amigos chamam-me, por vezes, não anti-americano, mas algo detractor do país do Tio Sam. E sim, não renego essa perspectiva, porque os EUA parecem-me, muitas vezes, uma espécie de potencialidade magnífica transformada numa simplificação primária, pela tentação da atenção ao invés da (boa) queda no conteúdo.


Fui ver I Am Legend, e tenho duas perspectivas perfeitamente antagónicas acerca do filme. Como fã incondicional da obra que lhe deu origem, reparo, com grande pena minha, que somente metade do espirito do livro foi seguido, o que impediu o filme, em meu ver, de ser um clássico.

A primeira parte do filme, até à morte de Sam, que foi dos momentos mais difíceis de cinema que vivi nos últimos tempos, é sublime.

Tiro o meu chapéu a Smith, pela interpretação absolutamente credível e comovente, mas sobretudo pelos olhos cansados e a expressão de solidão e leve insanidade que lhe emerge dos olhos. Mas agarro no mesmo chapéu e retiro-o novamente ao realizador, por uma primeira metade de filme assustadora, desolada e bela no seu retrato de vazio e desespero. As imagens de Nova Iorque vazia e em silêncio, especialmente para quem lá esteve, arrepiam a pele e aumentam a tensão. A relação de Smith com o seu vazio, o quotidiano, a comunicação com Sam, as recordações, tudo constitui um ensemble que me deixou absolutamente rendido à obra. Embora diferente do livro, o espirito essencial da viagem pelos meandros da solidão estava impecavelmente transposto.


Mas após a morte de Sam, a coisa descamba um bocado. Há CGI a mais e sombras e inquietação a menos. O livro de Matheson é um livro intimista, exploratório, dolorosamente sossegado, além de irónico e trágico. A ironia final é a cereja no topo do bolo, a qual inclusivamente dá origem àquele que ainda considero como o melhor título de sempre para um livro. O realizador dá uma volta na perspectiva do protagonista que se afasta completamente de Matheson, e fá-lo com barulho a mais, em meu ver.

Por isso, divido a obra em dois, e plagio uma frase que li de um crítico norte americano, na qual ele explana precisamente o que senti relativamente ao total da obra. A magnífica primeira parte não pode ser colocada em causa pelo discutível desenlace, o que acaba por, em meu ver, deixar o filme numa nota positiva que poderia ser de excelência, não fosse a tentação para o desperdício e o barulho excessivo de de uma certa ala americana de que falei acima. E estou à vontade para falar, porque grande parte dos meus autores e cineastas preferidos são americanos.


Mas é uma pena como a fina ironia da obra de Matheson se transforma numa história de martírio, onde deveria ser acerca da ideia de divindade.


Ainda assim, gostei muito do filme. Há momentos que me ficarão marcados, quer pela imagem, quer pelo sentimento que deles emerge. A desolação arrepia a pele. A relação de Neville com Sam tocou-me profundamente, e este último deveria receber um Óscar para melhor actor animal, se algum dia criarem essa categoria. Quem tiver lido o livro e se recordar da cena com o cão, talvez a coincidência de emoções que partem o coração em ambos os registos.


É pena a última meia hora, porque além do desperdício parece existir uma gritante falta de maozinhas para continuar a emissão da mensagem presente na excelente primeira parte, mas enfim,.

Fico ainda assim à espera de uma adaptação mais fidedigna da obra de Matheson, mas não desdenho esta de forma alguma.


I Am Legend acaba o ano numa nota positiva. Se isolarmos metade do filme, seria de excelência.


sexta-feira, outubro 26, 2007



Finalmente...

Há uns anos, quando li a auto-biografia do Stephen King, conheci uma das suas maiores influências, com a qual já me havia cruzado, sem saber.

Richard Matheson foi o argumentista do primeiro filme de Stephen Spielberg, o inquietante "Duel", passado nas estradas desertas dos EUA onde um camião, cujo condutor nunca se vê persegue um automóvel durante centenas de quilómetros.

Fui em busca das suas obras e li duas - "Hell House" e este magnífico "I Am Legend", que agora recebe uma transposição cinematográfica que espero que lhe faça justiça. O livro é, para mim, uma pequena e perturbadora jóia, com o melhor título de sempre. É daqueles que me acompanhará para sempre.

Recomendo sem reservas.

Espero que este filme lhe faça justiça. E para já, parece prometer...