ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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terça-feira, novembro 06, 2007




Antes de mais, não escondo que sou um admirador do senhor em causa. Mas lá por ser um admirador de Moore, não significa que não consiga ver as suas fragilidades, embora não me pareça que essas ponham em causa o impacto da sua obra, e sobretudo a discussão ou denúnica geradas.
Fui ver Sicko e saí de lá com a perfeita noção de que as coisas estão mesmo a ficar perigosas, quando o modelo de desenvolvimento que se quer importar dos EUA tem em conta as "maravilhas" da saúde privatizada. E não é necessário ser Michael Moore a mostrar-nos aquilo que é uma evidência nos EUA, ou seja, não ter recursos significa correr muito mais riscos que a fome, a falta de habitação ou a exclusão social.
Sim, obviamente que o retrato dos serviços de saúde europeus ( não vou especular sobre o canadiano) é demasiado floreado. A cena de Cuba é um bocadito esticada. A fila da Caixa é um pesadelo por si só, e alguns hospitais são muito menos que minimamente eficazes. Os serviços de saúde estatal/europeu também fazem merda, e os tempos de espera serão necessariamente maiores que aqueles que são apresentados, mas dez mil vezes isso e ter um serviço de urgência que não deixa que as pessoas morram só porque o não há cartão da Médis. Além disso, tudo isto só funciona como argumento para uma ainda mais intensa melhoria do serviço nacional de saúde como principio socialmente estruturante. Imaginem o acidente de ontem, do autocarro que caiu da ravina. Imaginem que metade daquelas pessoas, que até eram cidadãos de terceira idade, não tinha um tusto. Imaginem que 13 poderiam passar a 25 mortos, simplesmente porque os pacientes não têm guito.
Custa-me muito compreender os detractores do serviço universal de saúde. Custa-me muito entender as lógicas mercantilistas de sustentabilidade quando falamos de saúde, vida ou morte. Uma coisa são taxas moderadoras, outra são 10 000 € para cozer um dedo amputado por uma serra eléctrica. E esta pode ser a ponta do iceberg. Sinceramente, qual é a lógica de uma sociedade? Qual o principio básico da convivência e estabelecimento de um contrato social? Será possível estabelecer uma lógica de salve-se quem puder, ilusoriamente defendida como um reforço dessa mesma sociedade? Qual a justificação para se aceitar a ideia de que a falta de dinheiro é merecedora de enfermidade ou morte?
Por isso reitero que, apesar de algumas flores que até poderiam ser desnecessárias (há algumas lágrimas captadas para a comoção calculada) e omissões de informação que são pertinentes (como por exemplo, quanto custaria aos EUA a implementação de um SNS), "Sicko" é uma obra que realça os efeitos da mercantilização de tudo e mais um par de botas, e que um azar na vida pode significar uma espiral de inferno onde os hamsters que não servem para continuar a girar a rodinha podem simplesmente ser descartados. E assusta-me que haja tanta gente que ache isto normal, que julgue que perante a liberdade do mercado, estas coisas não acontecem, quando é a liberdade do mercado que mostra os efeitos que a concorrência e a busca de lucro podem ter em coisas que não devem nunca ser objecto de reuniões relativas a cortes de custos.
Em suma, dou claramente um "thumbs up" a este filme de Moore, como dei a todos os que vi.
E perante tanta reacção indignidada, algum nervo importante deve ter sido atingido... felizmente.
E isto, claro está, não fica por aqui.
Eu gostaria de saber o que dizem os liberais quanto às vergonhas que ocorrem nas instituições bancárias, onde tenho infelizmente amigos que quase dormem nos escritórios, que, com total impunidade, têm as luzes acesas a horas indecentes, como que desafiando uma inspecção que nunca chega. E sinceramente, fico pasmo quando alguém consegue ter a ingenuidade, ou desonestidade intelectual em achar que a flexibilização nao vai incrementar este tipo de comportamentos. Não sei o que muita da direita tem contra o desenvolvimento do indivíduo enquanto pessoa, fora da esfera produtiva, a mesma direita que depois vem defender a lógica da família e coisas que tais. Mas afinal, para muitos que andam por aí, vida social é um luxo, e a China é o modelo a seguir, aparentemente... Das duas uma, ou colocam a(o) sopeira(o) em casa, ou então não há alternativa, porque os meus amigos no CPP, perante a ameaça de despedimento e toda a espécie de "bullying" possível e imaginário, não conseguem ter tempo do dia para a namorada, a mulher, os filhos, o cinema, os livros, a vida que todos deverão ter direito.

E sim, isto ser necessário pedir ao Estado que faça a barrela . . .