“If pain could have cured us we should long ago have been saved.”
George Santayana
SIDDHI
O Gabriel era um contador de histórias. Tirando a recorrência a Ravenna, ou o esquecimento da sua própria narrativa pessoal, ele era, e é, um poço de histórias, feitas de recorrências aparentemente triviais. Eu arrisco-me a dizer que ele as colecciona, como alguém que empresta a espaços inúmeras vidas, fazendo da sua a colagem de pequenos roubos. E normalmente tinha uma ideia de que o Verão potenciava o nascimento dessas histórias. O calor fazia coisas estranhas às pessoas, dizia ele. O corpo toma uma consciência multiplicada de si mesmo. Perceber tudo ao mesmo tempo enquanto estamos perdidos na canícula pode ser complicado e perigoso, já que a miríade de sensações eleva-se a milhões de pequenos pensamentos.
Existem muitas pessoas que teimam em definir a importância das histórias. Criam uma espécie de padrão de qualidade das narrativas que vão bebendo ao longo dos dias. No entanto esse padrão era aplicado de forma mais rigorosa aos contadores, relatores ou inventores de histórias. Existem pessoas que conseguem cativar um interesse quase hipnótico mesmo quando lêem a lista de compras a fazer no hipermercado. Outras podem fazer do seu relato da versão inédita do Ovo de Colombo algo tão interessante como ver as ervas crescer.
Gabriel tinha um pouco dos dois. E penso que tal sucedia devido ao amor que tinha a histórias, a acontecimentos e narrativas. A ideia de progressão deixava-o menos ligado ao absurdo existencial que lhe ia arrancado vida desde a viagem, como uma anestesia que simplesmente dava a noção de chegada a um qualquer lado. A imobilidade deixava-o aterrado. Por isso tinha sempre algumas histórias para contar quando nos encontrávamos. Entrecortava-as com relatos sempre da mesma mulher, mas acho que consigo desculpar-lhe essa reincidência. Afinal de contas, as doenças crónicas nunca desaparecem realmente, e a fazê-lo, nunca é por vontade do hospedeiro.
E que me contava ele?
Numa rua perdida de Lisboa vivia uma mulher que supostamente via coisas. Ao contrário de tantas outras que alegam tais situações ou capacidades, esta mulher vivia aterrada pelo que via. Coisa terrivelmente dolorosas que escolhiam as piores alturas para aparecer, plenas da clareza de um filme em tela branca.
Chamava-se Branca. O problema é que esta mulher via toda a sequência de eventos, que aparentemente não tinham qualquer relação entre si, mas que em conjugação dariam origem às situações que chegavam a tirar-lhe noites inteiras de sono. O calor aumentava esta capacidade, como um balão cheio de ar quente que ganha os céus com muito mais velocidade e percorre toda a terra. Além disso, Branca transpirava imenso, o que só aumentava a consciência da sua presença no seu meio ambiente. Era como tocar e pensar tudo ao mesmo tempo, numa incessante passagem de slides.
Tinha uma vida o mais convencional possível. Bancária de profissão, vivia sozinha depois de ter acordado um dos namorados à unhada, em consequência de um sonho que viria a causar-lhe a primeira depressão ou pré esgotamento, como lhe chamara o psicólogo. Regava as plantas que tinha na varanda, alimentava um papagaio falador, enfim, deambularia na felicidade contida da sua normalidade, como ela dizia, se ao menos não tivesse os apagões. Os apagões eram momentos, na sua esmagadora maioria numa fase de pré sono, que se caracterizavam por uma viagem sensorial e psíquica tão intensa que ela se sentia com se saísse do próprio corpo e entrasse em todo o lado. Ou talvez pudesse mesmo, quem poderia saber? Tão depressa podia ser uma maçaneta gentilmente apertada e rodada para abrir a porta correspondente como o joelho esfolado de um miúdo que trepava a uma árvore. Ou coisas muito piores, daquelas que deixam marcas fumegantes nas portas de entrada do pensamento, e fazem temer qualquer espécie de sono ou perda de consciência que levasse a sonhar.
Um piscar de olhos foi o tempo que esta mulher levou a ser considerada absolutamente maluca. Eu cá estou a pensar bem no assunto e não tenho dúvidas de que lhe colocaria o carimbo na testa e em seguida despachá-la-ia para uma das alas do Miguel Bombarda. De rajada mesmo. Não é bonito de se dizer, mas é o que se arranja.
O Gabriel, por seu lado, acompanhou esta história a par e passo. Falou com a mulher durante cerca de uma semana, recolheu elementos, fez entrevistas, compilou uma pequena biografia. Em casa não havia nenhuma bola de cristal, nem símbolos profanos ou zodiacais espetados na parede como posters de cinema ou postais de viagem ampliados. Era uma casa escura, na qual Gabriel sentira um cheiro estranho, indefinível. Era o cheiro a tristeza quente, dizia ele. O encarceramento e melancolia, num claro contraste com o sol ofuscante que castigava a cidade. Contou-me que ela lhe relatara descrições minuciosas de assassinatos hediondos, com pormenores que levam o mais impassível dos estômagos a registar um veemente protesto. Ou actos de crueldade mais simples mas tremendamente eficazes, que ecoavam em pedaços desconexos na cabeça dela. Era como fazer um zapping lento pelos piores canais que se pudessem imaginar. Fazia-o com um olhar cansado, como quem carrega um fardo às costas por demasiado tempo e exibia olhos demasiado velhos para a idade do rosto. Eram tão claros que provavelmente desapareceriam debaixo da luz solar, ou facilmente se confundiriam com a água de uma qualquer piscina límpida onde mergulhasse.
Metódico e curioso como era, Gabriel resolveu ir à polícia judiciária para obter informações. Sabia que o mais provável seria que ninguém ventilasse fosse o que fosse, e que até poderia colocar-se em sarilhos, mas resolveu ir lá à mesma. Como previra, deu bom os burros na água, apesar da cordialidade da responsável pelas relações públicas da instituição. Informação absolutamente confidencial. E mais não disseram. Gabriel nunca mais voltou a falar com a mulher, mas guardou os elementos que recolhera, decidido a escrever um artigo sobre o assunto. No entanto a história entrou na gaveta e lá ficou.
No Verão seguinte, para além das notícias de uma seca avassaladora, um dos jornais televisivos do horário nobre deu cobertura a uma peça relativa ao assassinato de uma mulher.
Branca fora morta com dois tiros no peito por um homem que invadira a casa. Segundo o que Gabriel apurara, estava tudo partido. Mesas viradas ao contrário, janelas estilhaçadas, e o corpo deitado no chão no centro da sala. Uma das balas havia varado o coração, matando-a imediatamente, mas toda ela estava marcada por equimoses derivadas de um espancamento longo e determinado. O caso foi rapidamente esquecido pela opinião pública, mas Gabriel acompanhou-o até ao fim. Desde a prisão ao final do processo judicial. E foram as declarações do assassino que o deixaram sem pinga de sangue, numa batalha plena entre aquilo que ele chamava o cepticismo seguro e a coincidência demasiado extrema para não ser suspeita. Julgo que são perguntas que todos já fizeram a si mesmos numa determinada ocasião, por mais que o neguem.
Parece que o assassino havia perdido a filha de quinze anos na semana anterior. Fora violada e morta por dois homens perto de Alcântara. Metida dentro do carro e levada para um barracão, expirou após longa horas de sevícias que eu nem sequer consigo imaginar. Ou talvez nem queira, sinceramente. Há coisas que não se querem cá dentro por muito tempo, e a estarem, é bom que não lhes toquemos muitas vezes. Eles ainda não haviam sido capturados na altura. Nunca chegariam a sê-lo. Abandonaram o corpo num banco de jardim e evaporaram-se.
Parece que na véspera dos acontecimentos, Branca terá telefonado ao pai da rapariga. O número aparecera-lhe num dos apagões, assim como tudo o resto. Terá tentado avisá-lo, contando o que vira, mas como seria de esperar, recebera pela história um compreensível riso e resposta torta. O pai da rapariga terá dito que não queria comprar nada, e provavelmente, porque raios é que ela não escolhia outro número de telefone para torrar a paciência? Voltou a ligar e levou outra resposta ainda mais rude.
Alguns dias após a morte da rapariga, o pai, completamente descontrolado, tendo conseguido obter a morada da mulher que lhe telefonara através do registo telefónico, dirigiu-se à casa da Branca e uma vez lá, espancou-a até que ela revelasse o que sabia. Branca obviamente não sabia de nada. Vira os acontecimentos como um pesadelo, e recordava-se razoavelmente da cara dos assassinos, mas pelos vistos não tinha quaisquer outros nomes ou localizações. As coisas não funcionavam como o serviço nacional de informações telefónicas. Não adiantava pedir. Não era assim que funcionava. Recordava-se igualmente do sol radioso que espicaçava a cor das árvores que ocultavam o barracão. E o calor. Ao que parece, o desesperado pai ter-lhe-á feito uma ultima pergunta, após a qual disparou a arma duas vezes, matando-a imediatamente. Após dizer isto em audiência, caiu em pranto, e supostamente perdera o resto dos berlindes que tinha na às voltas na cabeça.
Gabriel culminou esta história com uma noção que por acaso partilho, mas que não me deixa nada descansado. Triste e perplexo sim, mas não sereno.
Ela sabia os nomes dos violadores. Sabia que os podia identificar tão bem como o fizera com o número de telefone do pai ou o rosto da rapariga que morrera. Mas Branca achou que era já demasiado. Dissera a Gabriel, aquando da conversa que ambos haviam tido, que os apagões pareciam aumentar de intensidade e frequência, como bombinhas de Carnaval que rapidamente passavam a granadas e que lhe estilhaçavam a cabeça. Sozinha e excluída, meio enlouquecida pelo que supostamente poderia ver, ela achara que era tempo de acabar.
Quando Gabriel acabou de relatar esta que era apenas uma de muitas histórias que ia partilhando comigo, eu fiquei a pensar numa outra coisa. Para mim, a amiga Branca engendrara as coisas muito mais cedo do que se pensava. A dor fora longe demais e que de alguma forma o correio nunca chegaria com a carta de envelope ensolarado, por isso, porquê perder tempo? Para Branca o Verão no qual morrera não fora diferente de nenhum dos outros. O calor era uma forma de estar mais acordada, electrificada por uma consciência que nunca pedira, desafiando a velha noção de que o sol brilhava da mesma forma para todos. Não estou certo de que acredito na história. E acho que nunca estarei. O Gabriel não tem dúvidas. Acho que entendo porquê, mas não vemos a mesma sombra debaixo do sol.
Lisboa - 29-01-2004