E eis que chegamos ao final do ano. Não, ainda não vou dissertar sobre o Natal, nem entupir o blog com referências à quadra, as quais certamente irritarão algumas pessoas mais avessas ao período do ano em causa (embora o vá fazer, claro!).
Mas é chegado um tempo, juntamente com o frio tardio, onde as consciências para várias coisas se intensificam. Os temidos balanços, as falhadas tentativas de despreocupação, a intensificação dos ganhos, a hiperbolização das perdas.
E é curioso verificar, três anos após mudar de perspectiva de vida, que a ideia da maturidade e do alcance das coisas no pico da vida alternam entre a materialidade e a fragilidade ilusória. Há de facto, muito mais confusão, infantilidade e desadequação do que eu julgava. Sinceramente. Recordo uma faixa do Springsteen, a qual ouvia insistentemente há mais de 15 anos, e trauteava o refrão com a ausência de percepção exacta daquilo que ele lá dizia. "Andar como um homem", dizia ele, referindo-se a um trejeito involuntário que indicava uma condição. A condição de quem supostamente sabe o que faz, e fá-lo no lugar que lhe é devido pela forma como o ganhou.
E no entanto, passados esses anos, decorridas as vivências, os conflitos, as perdas e as lógicas contraditórias daquilo que a ilusão nos alimenta como evidente, ainda recordo essa música com perplexidade. Junto-a, talvez, ao que o Alan Ball disse no filme da minha vida.
"Janie's a pretty typical teenager. Angry, insecure, confused. I wish I could tell her that's all going to pass, but I don't want to lie to her."
A verdade é que, pelo menos em parte, este chapéu servirá a todas as pessoas que conheço. Em muitos casos, o chapéu cabe-lhes integralmente, com uma dose visível de desnorte e sofrimento pessoal num tempo onde me parece que se confunde capacidade e autonomia com desenrascanço a todo o custo.
Vejo as ideias que as pessoas tinham, e a tentativa de fazer algum sentido das mesmas, ainda que mais pareçam estar a tentar correr numa passadeira que anda no sentido contrário ao da passada. E olham à volta, conscientes de que o impacto do que provocam, e não só, parece dançar enlevado numa arbitrariedade que arranca dores de injustiça e incompreensão confusa.
Nesta época do ano, os sofrimentos agudizam-se, bem como as emoções. Por boas e más razões, creio eu, mas sobretudo porque é uma época que se quer de ganho pessoal. Não há sucesso material que suporte as tensões de uma certa forma de solidão nesta altura. Especialmente a solidão acompanhada.
E lá está. Correr atrás do prejuízo, manter a cabeça à tona, e tentar pelo menos perceber metade do que se vai passando. Faz-se malabarismo com os acontecimentos, somos pobres e ricos, anjos e safardanas, vitimas e carrascos, e por vezes perante um mesmo olhar, que se transmuta com a evolução simbiótica estabelecida connosco.
Mas sinceramente, aquilo que mais me parece ver em jeito de mágoa, ainda que suave, nos rostos dos que vou acompanhando mais de perto, é a surpresa perante o abortar do plano. Aquele plano que foi vendido enquanto a vida eram letras e numeros em folhas de papel, triunfos para o futuro. Em que seríamos, provavelmente, estrelas de rock, empresários ainda com mais charme do que dinheiro ou elementos de uma familia que não sofreria as erosões do mundo que a vai puxando como um boneco de trapos cheio de areia que a certa altura se rompe.
Afinal de contas, as pessoas também se magoam, os amores também acabam, a estabilidade também se desmorona, a mudança também existe.
A inércia carregada de emoção pode atenuar-se com uma pergunta certeira e bem intencionada, mas no fundo, ainda que forçada, é inacção.
E custa ver isso em quaisquer olhos que realmente nos digam alguma coisa ao coração.
Eu... eu ainda ando a ver se me entendo com esta coisa de andar de um homem...
