O que sentimos pode ser uma brutalidade.
Uma brutalidade feita de todas as recordações de todos os instantes em que nos sentimos pequenos perante o criámos do nada. Aquilo que agarrámos com unhas em sangue, o que nos construiu através da percepção de que nos perdemos no que nem sequer sabíamos possuir.
São recortes do passar do tempo, erguidos em escaparates feitos de madeira de sândalo, trazida pelas correntezas de todos os mares onde nos atrevemos a colocar um pé ao de leve na água. O sal que provamos, é salivado, tem cheiro de água engolida, de beijos acabados há meio segundo, dolorosamente inéditos e irrepetíveis.
São brutalidades porque passam como serrilhas, sulcando, partindo a unidade da pele em mil conceitos mais pequenos, que não são senão tijolos. E amontoam-se, deixando as perguntas, as perplexidades, a memória dos estados que atravessámos num veículo que cresce como uma coisa viva, embebida na melancolia doce de uma tristeza antiga. De aço. Cárcere.
Por isso, levanta a saia um pouco mais, e mostra-me o mundo, como diz este moço.
E nos sonhos de rapaz, acho-me imperfeito e em consequência, vivo.
Brutalizado.