Há algo em muitas mulheres que tem uma dupla vertente. Não é discutível e é passível de deixar uma pessoa perplexa. Não é discutível porque a realidade dos factos tem-no demonstrado a torto e a direito, e no entanto essa perplexidade existe porquanto é em si mesma paradoxal. A propósito do filme do Woody Allen, ou do conflito Lori-Alan no Boston Legal, e da mística que que ditos "cabrões" ou "maus rapazes" exercem sobre a população feminina, surgem-me perplexidades.
Sendo que cada vez mais me considero um "whatever makes you happy kind of guy", não está em causa que cada uma goste do que goste. Encontre-se uma só pessoa que não tenha um elemento pouco claro ou menos congruente acerca dos seus gostos e atitudes, e as religiões do mundo podem cair por terra. O que está em causa é uma dupla consequência que chega a ser enervante, ou em muitos casos, cómica.
Há uma espécie de ideia muito clara acerca desse tipo de moços. Quem seja suficientemente mentiroso, hábil, e com meio palmo de cara ladeada por uma argúcia observadora, poderá fazer quase tudo o que lhe der na real gana. E nesse aspecto já conheci pessoas que roçavam a sociopatia, tal era a determinação desprendida relativamente ao seu objectivo. O que por mim não me chateia muito, se não fosse a questão da conversa do bandido, da história, do processo oleoso de adulação que a mais das vezes se topa à légua. No fundo não está em causa o que eles são capazes de fazer ou com quem, mas o uso indiscriminado de lérias com ar de verdades que, em alguns casos, chegam mesmo a fazer estragos em pessoas mais incautas.
Mas retomando a ideia original, a verdade é que a apetência pelos ditos "cabronazos" é muito respeitável. É aceitável, é uma expressão de gosto, de preferência, de uma tendência para o drama ao qual muitas mulheres são simplesmente incapazes de deflectir. É o gosto pela chapada na tromba, por mais metafórica e velada que ela possa parecer. E quem sou eu para julgar?
Mas outra coisa completamente diferente surge quando a crítica é vociferada aos sete ventos. Que os homens são todos assim ou assado, e que são todos uns cabrões. Ora esta é uma inverdade tortuosa por dois motivos. Em primeiro lugar porque todas as generalizações estão erradas, incluindo esta, como dizia o Twain, e em segundo lugar porque o ar de queixa, de denúncia, de asco ou mal-querer é, em muitos casos, absolutamente falacioso. O que não se aguenta são as denúncias das madalenas arrependidas ou virgens ofendidas que no seu currículo e preferências favorecem claramente o artista que, pela sua natureza, fará o que o deixarem fazer. E esses moços são assim por natureza. Ponto final.
Chiça, mas porque é que esse grupo de moças simplesmente não assume? Porque carga de água é que há que defender uma espécie de imagem de Ashley quando querem é um Rhett? Será que julgam que a cortina de fumo da queixa tornará o ar mais opaco e convencerá outros onde as as próprias não o fazem?
Os ditos "safardanas" têm certamente outro encanto. Há algo de desarranjado, de indomável, de inteligência prática e pró-activa que instila aquela malfadada ideia do "aqui não deves meter a mão", que como se sabe, tem a eficácia de uma usina de açúcar perto de um formigueiro. Portanto, caraças, porque raio não admitir? Porque raio é que se tem o desplante de pedir por um protótipo que, a existir, seria lançado pela janela ao fim dos dois primeiros meses? (E não estou a falar de choninhas, entendamo-nos...)
Se é uma incongruência, então é assumí-la com tudo. É vê-la como um recorte de personalidade, uma tendência que talvez até se queira quebrar, e quem sabe, permita que a originalidade daqueles que não ostentem a cabronice ao peito acabe por ser determinante numa escolha que não assente no que se julgam ser os reais gostos...
Apenas a título de nota final, não consigo levar a mal nenhum dos dois. Nem o cabronazo, nem as falsas apologistas da decência (seja lá isso o que for). Só levo a mal que não caminhem com a pele que ostentam, e defendam para si aquilo que se calhar até lhes parece bem conceptualmente, mas que simplesmente não faz tocar o sino.
Como diz a minha mãe, cada um come do que gosta, e cada um é como cada qual.
Mas que não se peçam emprestados desejos de coisas que não somos, porque as identidades falsas, cedo ou tarde, descobrem-se. E se é certo que a natureza não muda, também é igualmente provável que enquanto não se saiba bem qual é a nossa, todo o mundo é uma esperança de diversidade, onde talvez tenhamos sorte.
Sei lá...