Há algum tempo atrás, alguém me disse, acertadíssima, que por vezes as pessoas tendem a canibalizar-se. Confesso que nessa altura fiquei algo perplexo, porque não entendia a lógica subjacente a tal ideia.
Dizia ela, muito acertadamente, que a convivência reiterada de algumas pessoas, de acordo com as suas personalidades, leva a que essas mesmas pessoas se canibalizem, numa espécie de trituração pelos nutrientes necessários à união, e a formação de unidades diria que quase utilitaristas para manutenção de um estado. Surgem os líderes, e com eles, estabelece-se o trend, ou melhor, e menu, e a malta simplesmente devora a singularidade para criar uma espécie de bloco unitário onde o desvio de disciplina se paga caro. Com carne, metafórica e contextualmente falando.
Dentro de um grupo surgem então os subgrupos. As uniões fortalecem-se mas a capacidade de alargar o senso de união começa a sofrer de um constragimento de suposta proximidade. E digo suposta porque relembrando um pouco a metáfora do Garland, a ideia de perturbar o menos possível a disciplina prazenteira (do "é preciso é 'tar-se bem' "), torna-se uma espécie de tirania higiénica. Há uma desaprovação suave, um discorrer jocoso acerca das diferenças, e os pontos de contacto são explorados e sublimados quase à exaustão, ou à surdez.
"Em suma, se não és da malta, é com que comeces a pensar rapidamente em rever as tuas lógicas pázinho, porque o progrma do espectáculo já está decidido, e tu sabes o que acontece se não entras no programa..."
Julgamos nós que estas coisas se esboroam com o tempo, que os detalhes de exclusão se tornam subtis ou mesmo inexistentes quando a idade fortalece os laços e a temperança os torna pertença. Pois, estamos enganados. Porque para alguns, a ideia do fio contínuo do mínimo esforço comum continua a ser a palavra de ordem, e a dissidência é paga com luvinhas de pelica untada a simulacros de perfume de paz. Paz podre, claro, que depois redunda nas coisas que se sabem por terceiros, nas junções que geram relatos de coisas onde não estivemos, nos esforços que não se fazem, nas atenções que não se têm, porque o programa é o programa, e o resto... é o resto.
Não tenho qualquer pretensão a que me aturem. Bem vistas as coisas, sempre defendi que ninguém é obrigado a aturar ninguém. É a beleza da liberdade empática. A malta é livre para gostar de quem quiser. Mas o que custa são as incongruências, os cinismos suaves das falsas pertenças, o sublimar conveniente daquilo que afinal de contas são instantes a marcar no calendário e a passar adiante.
Custa a percepção subreptícia da tal disciplina, os sorrisos de anfitriões e não de coabitantes.
Pode parecer um exercício de maus fígados, mas o que realmente custa é a ausência de percepção para estas coisas. É não se saber a razão pela qual elas acontecem ou percebê-las arbitrárias, em alguns casos, por um desejo de protagonismo pequenino. Ou pior, por coisas que nem se sabem o que são ou porque se tornam tão fulcrais.
A convivência consegue fazer com que as pessoas se canibalizem, é um facto.
A capacidade de reunir pode ser limitativa em números (qualquer estrutura gregária o será), mas é sempre triste perceber que as pessoas de alguma forma se servem das utilidades dos outros, e palitam os dentes com um sorriso consolado, fazendo saltar as grainhas que outrora acidificavam o fruto da tal paz meio podre.
Será sempre assim?
Vou continuar a observar, mas faz pena que as verificações se acumulem, e que não percebamos a razão pela qual a manutenção de certa individualidade gera o ferrar do dente.
Tinhas razão. Só espero é que a tua teoria não seja aplicável sempre, mas apenas a instantes. O problema é que se multiplicam.
Lamentavelmente.