ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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quinta-feira, maio 15, 2008


Anda aí um burburinho no universo feminino relativamente ao lançamento do filme oriundo da série "Sexo e a Cidade". É inegável o séquito de seguidoras que as aventuras das quatro nova-iorquinas juntou, assim como é inegável uma espécie de código de conduta ou forma de estar na vida que pareceu legimitar. Girl Power, yeah... ou assim parecia.

A primeira série da dita série, passo a repetição, era uma pedrada no charco. Trazida pela HBO, chamava finalmente os bois pelos nomes e conseguíamos ouvir pessoas a falar de forma real e não como se vê na grande maioria da ficção onde, por exemplo, as pessoas em pura fúria homicida se dirigem uns aos outros com termos como "palerma", "idiota", "parvo", "indecente", fazendo lembrar a claque bem comportada dos gatos fedorentos. E se fosse só esse o problema dos diálogos, mas enfim, adiante.


A 1ª série estava igualmente matizada de cinzento, mostrando pessoas com características vincadas, mas sempre divididas entre elementos plausíveis, com reacções que espelhariam certamente as hesitações e perplexidades de qualquer vida adulta num ambiente cosmopolita.

Mas alguém se deve ter convencido que assim não se marcaria qualquer posição, e a coisa começou a descambar. De personagens convictas começou-se a mergulhar na caricatura, no exagero, e numa, em muitas situações, perfeitamente própria de um neo-feminismo condescendente, onde a figura masculina é pouco mais que um simplório com pénis e todos aqueles clichês supostamente de "gaja" são glorificados como uma espécie de tatuagem virtual de pertença à tribo feminina.

Quanto mais a série avançada, mais a caricatura surgia destilada. O que é pena. A primeira série surgiu-me como algo de qualidade, sério e irreverentemente honesto. Era, como é, sectário, apelando a um estrato social onde muita da realidade muitas vezes passa ao lado, mas existem histórias em todos os tipos de vida. O problema é a tentação que me pareceu irresistível de enfatizar algumas inverosimilhanças para que a coisa fosse mais apelativa.
Sobreveio uma mensagem que não assenta na discussão divertida acerca da igualdade objectiva entre géneros e a glorificação da diversidade subjectiva desejável (porque homens e mulheres são efectivamente diferentes), mas uma espécie de crachá de menina Cosmo, do luxo, dos maneirismos que mais do que força expressam algum alheamento pateta. Ao certeiro, divertido e politicamente incorrecto substituiu-se uma afirmação de um suposto girl power que em nada difere da condescendência machista que justamente levantou tanto brado durante tanto tempo.
Não sei o que trará este filme, mas espero que recupere a verve do início da série, e não os histrionismos Cosmo dos últimos "installments".

sexta-feira, novembro 02, 2007

Foto - Thomas Barbey


Não há muito tempo, num café muito simpático situado na D. Carlos I (ao Parlamento), tomava café com uma velha amiga de muitas histórias, quando ela falou do peso da metrópole. Falava das distâncias, e do peso da maralha numa cidade que, devido à sua macrocefalia e imensa população, é paradoxalmente um local de solidão e afastamento entre as pessoas. Aqueles que têm uma família ou uma relação, parece refugiar-se nessa lógica, engrossando a parede invisível e plástica que incrementa a rotina dos pequenos crimes humano/urbanos que muitas pessoas cometem contra si mesmas. Falávamos de um esboroar, da perda de paixões que acompanham décadas, da vivência em função das tarefas, dos dentes afiados da cidade perante aqueles que tombam da roda das auto-rotinas.


Não é novidade nenhuma que as metrópoles podem empurrar as pessoas para uma dicotomia solidão versus procura que se torna muito pior na forma como exclui os desenraizados. Aqueles que não têm para onde fugir, ou onde se refugiar, especialmente quando não deveria haver razão para tal.


Lisboa é, creio eu, e à semelhança de outras metrópoles, um monstro de dentes afiados que lá vai alternando com campo de possibilidades e potencialidades. E no meio da adaptação, num local onde as romarias de trabalho-casa/casa-trabalho estraçalham muita da capacidade de fazer algo de diferente, a procura de um interesse, de algo de diferente, que apaixona e leva a esforços complementares de diversificação. Muitas pessoas seguem o seu plano diário, e ocasionalmente é possível ver aquela angústia desenhada no olhar cansado e acuado de quem caminha em stress no círculo dos seus dias. Mas parece que para muitos, ver-se fora desse círculo é ainda mais aterrador, quando o silêncio dos livros e o som das vozes que não se lhes dirigem tudo são ecos de um descaso tão insuportável como inadvertido.


Mas também há possibilidade nas metrópoles. Existem aqueles que andam por aí, com um livro debaixo do braço, com um sorriso encantador, com uma ideia maluca, com um pequeno truque de salão que nunca mostraram a ninguém, com duas coisas reais para dizer, e três disparates deliciosamente interno e pessoais para expor. Existem detentores de histórias felizes, de feridas mal suturadas, gente confusa, ansiosa, ávida, curiosa, com ornamentos na pele ou nas intenções, cabelos entrelaçados, pessimismos estilhaçados por sorrisos desautorizados.


Esta metrópole, porque nunca vivi noutra, pode estilhaçar-nos, mas os cacos em que podemos tornar-nos também podem tirar sangue de outros locais, e a vida algures acaba por ser comprovada. A duras penas ou no próximo momento em que surge o inédito, mas é o perigo de que nos engula que a torna real.


Por isso recordo o rosto dessa velha amiga, e sorrio. Sorrio porque pensava que ao transmitir isto, lhe passava algum senso de conforto, mas talvez só tenha unido a minha confusão à dela. E da percepção empática das coisas que nunca estão estáticas, verte uma ausência de solidão. E porquê? Porque afinal de contas, o real companheirismo e pertença nunca está no destino, mas em todos os fenomenos que se assemelhem à expectativa de de chegar lá, e que permite que se imagine em conjunto, contando as histórias por acontecer.


Creio que será assim, e é por isso que a metrópole é dual - mulher bela ao entardecer ou bruxa fétida no negro encontrado debaixo do sol. E somos todos metidos nas histórias que delas derivam.


Feliz ou infelizmente...